De Paris a Jerusalém a pé, em lua-de-mel (III)

Crônica de Mathilde e Edouard Cortés

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PARIS, quarta-feira, 14 de novembro de 2007 (ZENIT.org).- Mathilde e Edouard Cortès (http://www.enchemin.org), após partir de Paris em lua-de-mel em 17 de junho passado, já percorreram mais de 3.700 quilômetros a pé, mendigando albergue e alimento rumo a Jerusalém.



Publicamos um terceiro extrato de seu diário.

Segunda-feira, 1º de outubro, 106 dias. 30 quilômetros de Kacanik (Kosovo/Sérvia) - Skopje (Macedônia). 2.859 quilômetros desde Paris

Cinco quilômetros por hora há 106 dias. Quinze quilômetros desde as sete da manhã. Os pés doem, compadecemos recordando nossa primeira semana de dores após nossa saída de Paris. Fica descalço pela segunda vez e busca em vão atenuar seus sofrimentos. Calça outro par de sapatos. Nas outras vezes, nos explica, não teve sapatos novos como hoje. Esta rota que une sua aldeia kosovar de Sérvia à capital de Macedônia, Sami já percorreu duas vezes.

A primeira vez, tinha vinte anos. Sem um centavo no bolso, tinha de comprar um livro para seus estudos que não se encontrava mais que em Skopje, então Iugoslávia. Não podendo pagar o trem e o livro, optou pela caminhada a pé e o livro.

Detém-se para respirar um pouco. Afrouxa os sapatos. Esconde-se detrás de uma parada de ônibus para fumar um cigarro, longe do olhar de outros muçulmanos. Estamos em pleno Ramadã. O cigarro não atenua sua dor nos pés, mas lhe dá energia para caminhar adiante. Depois de amanhecer, nós o seguimos. É nosso guia. É sempre tranqüilizador nesta região de Kosovo onde deve driblar os cães vagabundos, os faceiros dos caminhos e as minas. «Olhem: é a sementeira na qual trabalhei durante anos. Graças ao valioso livro que meus pés me permitiram adquirir, pude estudar economia. Eu era contador nesta fábrica. Mas os comunistas me despediram porque pertencia a um grupo favorável à independência de Kosovo».

Faz uma semana que atravessamos Kosovo, província de Sérvia, em transe difícil para sua independência. Há dois dias apenas, estávamos na terra de quem Sami vê como seus inimigos, os sérvios, minoritários, e hoje ameaçados pelas maiorias albanesas. «Eu tive de inclinar-me ante os sérvios, compreendeis agora que não possa viver com eles – explica Sami pelo caminho. É impossível.»

Pensamos na família sérvia que encontramos cinqüenta quilômetros antes, que vive rodeada de alambrados no recinto do mosteiro ortodoxo. Classificado como patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO. Esse mosteiro está na lista do patrimônio em perigo. O que sucederá com estas pedras e estes homens e mulheres que encontraram aqui um refúgio em torno da comunidade de monjas, após a independência de Kosovo? O que será de Marta, a menina de seis anos que após brincar uma tarde conosco nos deu seu único brinquedo, um urso de pelúcia: «Peguem, é para vosso primeiro filho». Entre 1999 e 2004, mais de 120 igrejas e mosteiros foram saqueados, incendiados, dinamitados. O que as pedras sofreram em Kosovo, os homens o vivem em sua carne e sua memória.

Atravessar o pó dos Bálcãs é como pisar em ovos. Percebemos o ódio de uma família por outra. Mas tanto em um campo como no outro, os croatas, os sérvios, os bósnios e os albaneses têm em comum a acolhida ao viajante. Nossa marcha para o oriente se converteu, depois de três meses, em um rosário de encontros que reconforta nossos corações. Dezenas de famílias enchem nosso estômago e nossas bolsas continuamente, com prazer, tão vazias de dinheiro como cheias de pão, tomates, pimentas, maçãs, uvas e figos.

Após receber-nos vinte e quatro horas em sua casa, Sami queria abrir-nos a rota e ajudar-nos a cruzar a fronteira entre Kosovo e Macedônia. «Não há mais que trinta quilômetros até a capital. Antes que o jejum do Ramadã se rompa esta tarde, chegaremos à casa de minha sobrinha, onde fomos acolhidos durante o conflito». A segunda vez que Sami fez esta rota a pé foi em 1999, quando tinha 62 anos. Durante a guerra entre sérvios e albaneses. Fugiu com sua família por estas montanhas com as colunas de albaneses que buscavam refúgio na Macedônia. «Ajudamos os idosos e as crianças, levantando-os sobre os cavalos – relata. As montanhas estavam minadas mas eu conhecia estes cantos como a palma da mão. Passamos e voltamos vivos três meses mais tarde.»

Passamos por gargantas estreitas. O caminho passa ao longo de um rio. Conosco, é a terceira vez que Sami empreende esta rota. Sami é a primeira pessoa desde Paris que nos acompanha durante uma jornada inteira de caminhada. Esta manhã, seus filhos não acreditavam. Quando começamos os adeuses, anunciou orgulhosamente que partia conosco. Seu filho Farid o tomou por louco. Sua filha pequena Ginameth começou a rir e sussurrou ao ouvido de Mathilde que voltaria de Táxi em menos de cinco quilômetros. Aos setenta anos, Sami não entende as queixas dos seus, e pensa que são velhos de mente. Ainda que seu francês seja excelente, inventa às vezes palavras adaptadas à nossa situação. Apesar de seus cabelos grisalhos, seu físico magro e seu olhar cortante como uma faca, Sami tem os olhos claros ante o porvir. É jovem de espírito, pouco importa o corpo, pouco importa que os pés lhe doam hoje. Ele abre a marcha e o seguimos com dificuldade. Quatro horas mais tarde, gritamos ao velho que pare para repousar um pouco. Ao abrigo das vistas perto da fronteira, compartilhamos uma ração de combate dada por militares americanos da KFOR há uns dias. Bebendo uma batida fresca, Sami diz: «Os americanos são amigos dos albaneses, talvez vêm aqui pelo urânio ou para desestabilizar a Europa, mas em todo caso ajudam a nossa independência. Em 10 de dezembro próximo pode ser que proclamemos a independência de Kosovo. Sonho com ela há muito tempo. Esperamos todos que os americanos fiquem. Devemos tudo a eles».

Sami estica os pés, tira um par de meias e volta a pôr os sapatos de couro verde. Andamos por um caminho de terra. Não podendo mais, ele pára a uns vinte quilômetros e tira os sapatos. Lembro-me de quando eu caminhava trinta quilômetros de meia pela campina. Está claro quem nos deu tão boa acolhida ontem, um homem de setenta anos, está sofrendo. Tiro meus calçados e ele os experimenta, 42, amolecidos por 2.800 quilômetros de caminhada. Tenta caminhar. São um pouco grandes mas vão bem. Provo os seus: caça 41. Um pouco pequenos, mas viajando se adapta. «Está melhor, grita Sami». Como não se sacrificar dez quilômetros, duas horas, pelo homem que nos abriu generosamente seu universo? Fomos alimentados, alojados, mimados. Compartilhamos em família no salão oriental de chá, café turco e uma comida do Ramadã. Sua filha pequena Ginameth lavou nossa roupa e deu a Mathilde perfume e um top «sexy». «Estais em viagem de lua-de-mel – disse –, é normal que você fique bonita. Em todo caso, teu marido Edouard, com tua única camisa azul, teu rosto sem maquiar, tem a oportunidade de amar-te de verdade». A família nos deu o quarto mais bonito. Uma cama de casal que foi uma mudança com relação à nossa almofadinha; um edredom que substituíram nossos sacos de dormir. Uma marcha de viagem de casamento como a nossa é expor nosso amor à intempérie do caminho, aos caprichos dos homens bons e maus, às tempestades que estouram em um casal. A marcha é um desnudar-se, onde a vontade de amar-se triunfa sobre os sentimentos apaixonados. Ginameth tem razão. As máscaras caíram, o amor verdadeiro tem um rosto para mim, o de Mathilde. Na rota do oriente, encontrei centenas de homens e mulheres, nesta «marcha de dois», encontro a minha mulher, como aliança no dedo.

Na rota para Skopje, fico um pouco atrás. Os sapatos não são de meu tamanho. Mathilde e Sami vão adiante. Em uma hora, estaremos de novo ao calor de um lar. Dez quilômetros com os pés nestes sapatos apertados. As unhas de meus dedões caíram. De madrugada, antes de despedir-nos, Sami chora muito. «Perdi a minha mulher há três anos. Andarei ainda muito tempo com vocês até Jerusalém».