"Declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas"

Pronunciamento oficial da CNBB sobre as manifestações populares em todo o país

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 612 visitas

Na tarde dessa sexta-feira, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil fez o seu pronunciamento oficial sobre as manifestações populares que estão sendo realizadas em várias cidades do País.

“Declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens”, diz a nota.

É um fenômeno que desperta o povo para uma “nova consciência” e que requer “atenção e discernimento para que se identifiquem seus valores e limites”.

A onda de protestos nasceu de “maneira livre e espontânea a partir das redes sociais”. A variedade de pontos a serem protestados só mostra que “a solução dos problemas por que passa o povo brasileiro só será possível com participação de todos”. Dando sentido assim ao grito: “O Gigante acordou!”.

A nota denuncia que na sociedade brasileira “as pessoas têm o seu direito negado sobre a condução da própria vida” e, nessa situação, a presença do povo “nas ruas testemunha que é na prática de valores como a solidariedade e o serviço gratuito ao outro que encontramos o sentido do existir”.

Os jovens desistem da vida diante da indiferença e o inconformismo, e por isso, as manifestações desses dias mostram que os “brasileiros não estão dormindo em ‘berço esplêndido’”.

O direito democrático de manifestar-se deve ser garantido – diz a nota -, embora “nada justifica a violência” já que “quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao descrédito”.

“Que o clamor do povo seja ouvido”, conclui a nota.

Leia a nota:

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Ouvir o clamor que vem das ruas

Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília de 19 a 21 de junho, declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo brasileiro e o desperta para uma nova consciência. Requerem atenção e discernimento a fim de que se identifiquem seus valores e limites, sempre em vista à construção da sociedade justa e fraterna que almejamos.

Nascidas de maneira livre e espontânea a partir das redes sociais, as mobilizações questionam a todos nós e atestam que não é possível mais viver num país com tanta desigualdade. Sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude. São, ao mesmo tempo, testemunho de que a solução dos problemas por que passa o povo brasileiro só será possível com participação de todos. Fazem, assim, renascer a esperança quando gritam: “O Gigante acordou!”

Numa sociedade em que as pessoas têm o seu direito negado sobre a condução da própria vida, a presença do povo nas ruas testemunha que é na prática de valores como a solidariedade e o serviço gratuito ao outro que encontramos o sentido do existir. A indiferença e o conformismo levam as pessoas, especialmente os jovens, a desistirem da vida e se constituem em obstáculo à transformação das estruturas que ferem de morte a dignidade humana. As manifestações destes dias mostram que os brasileiros não estão dormindo em “berço esplêndido”.

O direito democrático a manifestações como estas deve ser sempre garantido pelo Estado. De todos espera-se o respeito à paz e à ordem. Nada justifica a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento à liberdade de ir e vir, de pensar e agir diferente, que devem ser repudiados com veemência. Quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao descrédito.

Sejam estas manifestações fortalecimento da participação popular nos destinos de nosso país e prenúncio de novos tempos para todos. Que o clamor do povo seja ouvido!

Sobre todos invocamos a proteção de Nossa Senhora Aparecida e a bênção de Deus, que é justo e santo.

Brasília, 21 de junho de 2013

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís
Vice-presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB