Deixar de lado o comodismo de fazer psicologia usando receitas prontas

Análise do livro "Experiência Elementar em Psicologia: aprendendo a reconhecer", de Miguel Mahfoud

Brasília, (Zenit.org) Maria Izabel de Aviz | 1810 visitas

Miguel Mahfoud, no seu livro “Experiência Elementar em Psicologia: aprendendo a reconhecer”, publicado pela Editora Universa da Universidade Católica de Brasília/DF em 2012, resgata e mostra para nós psicólogos – e em especial para nós psicólogos psicoterapeutas – qual postura terapêutica diante da pessoa humana atendida nos permite ver e entender a ajuda ou o atendimento psicológico que ela nos mostra ter necessidade. Ele com simplicidade e profundidade, numa atitude generosa, nos toma pela mão e nos abre os horizontes da pessoa humana. Convida-nos a ficar atentos e identificar a experiência humana nos aspectos que a definem, tendo o essencial diante dos nossos olhos, enquanto nos relacionamos com a pessoa que estamos atendendo no nosso agir psicológico. Propõe-nos ficarmos atentos à própria experiência, identificarmos sua dinâmica e tirar consequências do fato que a nossa humanidade seja assim. Incita-nos a cuidar da experiência humana em todos os seus aspectos: físicos, psicológicos, sociais, culturais, históricos, transcendentes, espirituais, etc. Convida-nos acima de tudo a deixarmos de lado o comodismo de fazer psicologia usando as receitas prontas que nos são transmitidas nas medidas da maioria dos nossos métodos terapêuticos, porque o paradigma que orienta a psicologia dos nossos dias mudou: agora vale a pessoa humana em todas as suas dimensões e plenitude.

A “experiência elementar” em psicologia que ele nos mostra neste livro, compreende a pessoa humana, entende a sua intencionalidade, se coloca junto para captar o significado que está escondido na pessoa atendida; aciona no psicólogo experiências pessoais de níveis e significados mais profundos que provocam uma abertura na pessoa que está sendo atendida por ele ajudando-a a entrar em contato com a sua própria experiência elementar e reconstruir a compreensão e a comunicação interpessoal. Ambos, psicólogo e pessoa atendida seguem os mesmos passos da vivência da pessoa, fazendo parte.

Miguel Mahfoud nos mostra também neste livro que o psicólogo – ao focalizar e refletir sobre a irresistível inquietação humana de buscar respostas cada vez mais satisfatórias para as necessidades da pessoa humana – compreende a sua própria experiência elementar e as exigências originárias que a descrevem, ou seja, compreende a estrutura una e única da pessoa humana. Passa então a perceber que a pessoa humana não pode evitar que as exigências elementares surjam como desejos e produzam inquietação, e que a experiência elementar identifica o ponto de encontro entre a livre subjetividade da pessoa e uma dimensão objetiva.

Miguel Mahfoud nos convida a acompanhá-lo na arriscada tarefa de aplicar, a uma área de saber específica como a psicologia, o pensamento da antropologia de Luigi Giussani, se propondo junto, “aprender a reconhecer o essencial da experiência para enxergar o dinamismo humano em ato e identificar consequências para o trabalho psicológico, para vencer os reducionismos típicos da psicologia que, ocupando-se dos tantos possíveis aspectos da experiência humana, deixou de ser psicologia da pessoa”. (MAHFOUD, 2012, p. 31).

Para nos ajudar a enxergar o dinamismo humano em ato, ele nos sugere um caminho, uma direção, que nos tomará por inteiro na relação com a pessoa atendida, na busca para designar o ímpeto original que está na base de todo gesto ou posicionamento humano, pelo qual a pessoa humana pode reconhecer suas exigências fundamentais. Ele nos propõe começar pelo ato humano – que deixará claro para nós qual o elemento originário do sujeito do ato – no campo da intersubjetividade e da história da pessoa atendida, que nos explicitam o quê do original do humano pode ser modulado. Aqui, Miguel Mahfoud, nos mostra uma possibilidade de superação do moderno dualismo sujeito-mundo, porque a tomada de posição é pessoal e nunca por processos mecânicos. Nos mostra que a realidade física e a história são campos de construção do mundo-da-vida e de explicitação do original no sujeito de atos no mundo. Depois, Miguel Mahfoud, nos alerta para os cuidados com a linguagem e também para a possibilidade de liberdade na aplicação de critérios de juízos críticos por parte do sujeito da ação frente a qualquer fenômeno que se mostre; isto porque a experiência elementar permite a crítica em relação à própria cultura e à própria história pessoal e social.

A experiência elementar permite a compreensão de si mesmo por parte do sujeito da ação, apreende a subjetividade pessoal, única e irrepetível, revisa os conceitos de experiência e de pessoa, acentua o caráter teleológico de cada ação, de cada experiência e de cada vivência de desejo na pessoa humana. O mesmo caráter teleológico insere cada experiência pessoal numa relação eu-tu, numa cultura e numa história como condição para a realização humana do próprio sujeito.

Para a psicologia, Miguel Mahfoud mostra que a experiência elementar abre um campo importante de revisão dos conceitos de pessoa e de experiência, permitindo uma releitura histórico cultural quanto às compreensões dos processos de percepção de si mesmo característicos de cada cultura ou momento histórico, tematizando de modo original o lugar das funções psicológicas na apreensão da personalidade. Com o conceito de experiência elementar, ele recoloca no âmago da psicologia, a centralidade do sujeito experiente e de sua relação com o mundo. Permite na simplicidade e amplitude do conceito a consideração de diversas concepções de experiência e de pessoa, reconduzindo-as a elementos fundantes identificáveis e possibilitando a convivência com diversidades teóricas.

A nós psicólogos, Miguel Mahfoud mostra que a experiência elementar possibilita colocar em foco a origem da diversidade, em novo ponto de elaboração entre relativismo e convivência multicultural, que permite a retomada, como experiência, no sujeito em ação, da unidade entre justiça, verdade e beleza com a força de evidência do seu valor de bem e nos mostra e evidencia a inevitável participação da subjetividade na constituição de um conhecimento que se quer objetivo.

Com a minha experiência de psicoterapeuta nas suas exigências inegociáveis de verdade, de justiça, de beleza, de amor e de realização, agradeço a Miguel Mahfoud esse presente tão preciso e precioso também para a psicopatologia.

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Referência

MAHFOUD, Miguel. Experiência elementar em psicologia: aprendendo a reconhecer. Brasília: Universa; Belo Horizonte: Artesã, 2012.