Depois de Roma, Jerusalém e talvez Istambul

O patriarca de Constantinopla explica a importância histórica do encontro com o papa Francisco em Roma e na Terra Santa

Roma, (Zenit.org) Mattia Sorbi | 670 visitas

Uma das maiores novidades do pontificado do papa Francisco é a dimensão fraterna das relações com as outras igrejas cristãs. Em particular, com os ortodoxos. Na última semana de maio, durante a visita do papa à Terra Santa, Sua Santidade Bartolomeu, patriarca de Constantinopla, participará de um encontro conjunto organizado por Francisco em Jerusalém. O patriarca de Constantinopla convidou o papa a visitar também Istambul. Para saber mais, ZENIT entrevistou Bartolomeu.

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Santidade, em que ponto está o processo ecumênico? O que falta para se realizar o desejo do papa João Paulo II de ver uma Igreja unida, que possa respirar com seus dois pulmões?

Bartolomeu: A questão sobre o quanto estamos perto da unidade na Igreja e, em particular, de permitir que a Igreja cristã (ocidental e oriental, ortodoxa e católica romana) respire com dois pulmões, é muito importante. Não há dúvida de que as nossas "Igrejas irmãs" estão mais próximas hoje do que durante todo o milênio passado, graças ao "diálogo de amor" e ao "diálogo da verdade", ou seja, graças aos passos rumo à reconciliação e graças ao processo de diálogo teológico estabelecido nas últimas décadas. Apesar disso, ainda estamos longe da Unidade que compartilhávamos no primeiro milênio de vida da Igreja. A coisa mais importante para nós é manter diante dos olhos o desejo e o mandamento do Senhor: "que os discípulos sejam unidos e que a Igreja seja uma coisa só". É um escândalo no Corpo de Cristo e para o mundo inteiro que os seguidores de Jesus Cristo estejam divididos em um momento histórico em que, mais do que nunca, somos chamados a um testemunho comum e a uma única palavra perante os desafios do nosso tempo.

Quais são as metas mais difíceis para a Igreja no Oriente Médio hoje?

Bartolomeu: É um ambiente difícil em que emergem os problemas da Igreja de hoje e o aumento da violência entre os povos do Oriente Médio. As nossas Igrejas têm que proclamar a paz onde há guerra, o amor onde há ódio, a tolerância onde há discriminação. Este princípio se aplica tanto aos seguidores das outras religiões quanto à situação dos cristãos nesta região frágil. Estamos muito preocupados com a crescente instabilidade política e com o aumento da violência, especialmente na Palestina, no Egito, no Iraque e, mais recentemente, na Síria. Também estamos profundamente desolados diante da injustificável inatividade e indiferença das autoridades civis e políticas, que não conseguiram proteger a população cristã e os cidadãos em geral. Os líderes cristãos têm que garantir a nossa máxima solidariedade e fidelidade ao Evangelho no Oriente Médio e, ao mesmo tempo, condenar categoricamente todas as formas de brutalidade e derramamento de sangue. Temos que ressaltar que todos os lugares de culto são templos sagrados do único Deus vivo, assim como todos os seres humanos são templos sagrados do Espírito vivente de Deus.

Qual é o grande significado do convite que Sua Santidade fez ao papa Francisco para visitar Istambul este ano, depois da viagem a Jerusalém?

Bartolomeu: Quando fomos convidados para a missa de abertura do pontificado de Francisco na Praça de São Pedro [nota da redação: foi a primeira vez na história em que o patriarca de Constantinopla participou da posse do bispo de Roma], convidamos Sua Santidade a nos visitar no Phanar [nota da redação: a sede de representação do patriarca de Constantinopla em Istambul, na Turquia], mas também a organizar uma visita conjunta a Jerusalém. Este convite se tornou um costume informal desde Paulo VI, seguido mais tarde na eleição de João Paulo II e Bento XVI. Mas a nossa última proposta, que, se Deus quiser, será realizada dentro de poucos meses, é celebrar o encontro histórico entre o último patriarca ecumênico Atenágoras e o papa Paulo VI no Monte das Oliveiras, em janeiro de 1964, que foi a primeira vez em que o papa de Roma e o patriarca da Nova Roma se encontraram face a face depois do assim chamado Grande Cisma de 1054. Aquele evento levou, em 1965, a um "mútuo levantamento dos anátemas recíprocos" e foi reforçado, em 1969, por visitas formais anuais das respectivas delegações, o que, dez anos mais tarde, levou à criação de uma comissão internacional para o diálogo teológico entre as nossas duas Igrejas. É viva a nossa esperança e fervorosa a nossa oração para que o encontro com o papa Francisco fortaleça a estreita relação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa.