Derrota da fome é compromisso ético, assegura o Papa

Em sua mensagem para o Dia Mundial da Alimentação

| 963 visitas

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 16 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- O fato de que haja alimentos suficientes para a população mundial demonstra que a luta contra a fome é antes de tudo uma questão de compromisso ético, considera Bento XVI. 

Assim afirma na mensagem que enviou ao diretor geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, que se celebrou nesta quinta-feira.

O Papa comenta em sua mensagem o tema escolhido neste ano para a Jornada, «A segurança alimentar mundial: os desafios da mudança climática e a bioenergia». 

«Os meios e os recursos dos quais o mundo dispõe podem proporcionar uma alimentação suficiente para satisfazer as necessidades crescentes de todos», constata a missiva. 

De fato, explica, «demonstram-no os primeiros resultados dos esforços aplicados para aumentar os níveis globais de produção diante da carestia registrada pelas colheitas». 

O pontífice propõe, portanto, a pergunta central que a questão sugere: «Por que não é possível evitar que tantas pessoas sofram de fome até as conseqüências mais extremas?».

O Papa cita vários motivos: o consumismo, que não se detém, apesar de uma menor disponibilidade de alimentos, e que impõe reduções forçadas à capacidade alimentar das regiões mais pobres do planeta;  a falta de vontade para concluir negociações e para frear os egoísmos de Estados e de grupos de países ou para acabar com essa especulação desenfreada que afeta os mecanismos dos preços e o consumo. 

Outras causas da fome, segundo o bispo de Roma, são a ausência de uma administração correta de recursos alimentícios causada pela corrupção na vida pública e os investimentos crescentes em armas e tecnologias militares sofisticadas. 

Estes motivos, constata o Papa, têm sua origem em um falso sentido de valores sobre os quais as relações internacionais deveriam basear-se, em particular, nessa atitude difundida na cultura contemporânea que só privilegia a aquisição de bens materiais, esquecendo da verdadeira natureza da pessoa humana e suas aspirações mais profundas. 

O resultado é, infelizmente, a incapacidade de muitos para assumir as necessidades dos pobres e para compreendê-las, negando assim sua dignidade inalienável. 

Por este motivo, considera o Papa, «uma campanha eficaz contra a fome exige muito mais que um simples estudo científico para aprofundar nas mudanças climáticas ou para destinar em primeiro lugar a produção agrícola à alimentação». 

«É necessário, antes de tudo, redescobrir o sentido da pessoa humana, em sua dimensão individual e comunitária, a partir do fundamento da vida familiar, fonte de amor e afeto, da qual procede o sentido de solidariedade e a vontade de compartilhar», indica. 

Segundo o pontífice, esta proposta responde à necessidade de construir relações entre os povos baseadas em uma disponibilidade autêntica e constante para fazer que cada país seja capaz de satisfazer as necessidades das pessoas, mas também de transmitir a idéia de relações baseadas no intercâmbio de conhecimentos recíprocos, de valores, de assistência rápida e de respeito. 

Para Bento XVI, «trata-se de um compromisso pela promoção de uma justiça social efetiva nas relações entre os povos, que exige de cada um ser consciente de que os bens da Criação estão destinados a todos e de que na comunidade mundial a vida econômica deveria orientar-se a compartilhar estes bens, a seu uso duradouro e à justa distribiição dos benefícios que se derivam deles».