Desafios da vida religiosa na nova evangelização

Zenit entrevistou Pe. Santino Brembilla, Superior Geral dos Missionários Monfortinos

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ROMA, quinta-feira, 02 de fevereiro de 2012(ZENIT.org) - Zenit entrevistou o Padre Santino Brembilla, Superior geral dos Missionários Monfortinos. O padre Santino Brembilla é o primeiro italiano a conduzir a congregação e vem exercendo a função pelo segundo período. Foi missionário durante muitos anos na América Latina, e fala com clareza sobre os desafios da vida religiosa na nova evangelização e de outros aspectos da atualidade desta família fundada por São Luis Maria Grignion de Monfort.

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Há algumas semanas atrás, estiveram reunidos os superiores gerais das Congregações Religiosas de todo o mundo para falarem sobre o tema da: NOVA EVANGELIZAÇÃO. A questão que mais se ouviu falar foi esta: “Que mudanças terão que haver, dentro de pouco tempo, nos religiosos”?

Falou-se deste assunto e foi com grande satisfação que constatei que estamos todos regressando ao essencial da vida religiosa: a conversão da comunidade e, mais particularmente dos indivíduos, ao Evangelho.Para essa finalidade é preciso ter uma especial atenção à formação permanente, que deverá entender-se de viver com paixão, intensidade e profundidade a vida quotidiana, sempre à luz da Palavra de Deus. É fundamental ser coerente: antes de se falar de evangelizar os outros, é preciso que nós mesmos e as nossas comunidades sejam as primeiras a deixarem-se evangelizar, segundo o Evangelho. Deixámos a reunião dos nossos trabalhos, todos bem convencidos de que há a fazer um trabalho aprofundado no interior das nossas Congregações.

Na sua opinião: porque foi deixada essa “paixão”?

São muitas as causas. Penso, por exemplo, na introdução de uma certa cultura de secularização nas congregações. Ainda que digamos acreditar e viver a nossa vocação, mas o estilo de vida e os nossos pensamentos refletem muito, pelo contrário, a mentalidade secularizada. E nos países nórdicos, onde faltam novas vocações, existe outra causa:  sem aparecerem novas gerações que dinamizem com entusiasmo  o desejo sincero de mudança, as pessoas que avançam nas suas idades e vão-se acostumando,  perdendo assim também aquela paixão e aquele entusiasmo necessário para um contínuo renovamento ao serviço da evangelização.

Quais pistas e orientações são aconselhas para retomar essa fidelidade evangélica?

No nosso capítulo geral do mês de Maio 2011 traçamos algumas linhas orientativas para seguir esse caminho que deve mexer conosco, entre nós, e nos outros através de nós. Sem uma mudança profunda em nós e na nossa comunhão fraterna, passando de uma “vida comum” a uma “comunhão de vida”, não poderemos ser sinais da boa nova do Reino nasociedade hodierna.

Na assembleia dos Superiores Maiores do ano passado foram identificados vários e difíceis contextos da vivência da fé: a indiferença, aqueles que abandonaram, outros que acham que “não têm necessidade”…: que tipo de resposta poderão dar as congregações  a estes desafios?

Exige-se de nós um novo modo de aproximação com quem vive no ateísmo prático, com quem se afastou da fé ou do caminho da vida espiritual. Devemos ser luz, sinais, viver em coerência com o Evangelho. Hoje as pessoas, apesar da secularização e do desinteresse por um caminho de fé, têm sede de valores e de contato, de diálogo, de escuta; há que ter a capacidade de acompanhar em situações difíceis, por exemplo, a família, em tempos de crise económica, como os atuais. É importante que os religiosos estejam presentes e atentos já que, estando receptivos às interrogações das pessoas do nosso tempo, possam enveredar por caminhos de uma recuperação do sentido profundo da vida.

Alguns interrogam-se sobre qual é o papel da nova evangelização, diferente da “missão ad gentes”… Para os Monfortinos que se encontram nestes dois campos de ação: como se deverá atuar nestes dois campos de missão?

Até há umas dezenas de anos atrás só se falava de evangelização “ad gentes; agora, porém, que muitas regiões, outrora católicas, se afastaram da fé, fala-se de uma “nova evangelização”.Essa…é muito pluri-direcional, não apenas do Norte para o Sul do mundo, mas diz respeito a todos. Por diversos anos eu mesmo desenvolvi um trabalho apostólico no Perú e, no aspecto de ação missionária, encontrei aí mais satisfação do que em qualquer outro País. A Europa encontra-se hoje a ter que dar resposta a um desafio verdadeiramente importante.

E qual ajuda missionária poderá oferecer o “Sul” ao “Norte”?

São necessárias hoje pessoas verdadeiramente apaixonadas. A missão de anunciar o Evangelho só será possível se existir essa paixão que fez arder o coração dos discípulos de Emaús…Daqui surge a importância de formar com muito cuidado as vocações à vida religiosa, que provêm do Sul. Não se esqueça que não devemos preocupar-nos tanto com números, mas sim mais com qualidade, ou seja, com profundidade e coerência de vida. 

E como “fazer morrer” o secularismo que você identifica nas congregações e ordens religiosas?

Não é fácil, já que está de tal forma enraizado que não se  vê o fim…E refiro-me a uma vida muito cómoda, direi mesmo burguesa, onde se fala dos três votos e, apesar disso, frequentemente não se vê nada de pobreza nem de obediência; o individualismo está de tal forma enraizado na vida religiosa que torna-se difícil encontrar disponibilidade para os serviços apostólicos necessários. São comportamentos que nos próximos anos terão que desaparecer se quisermos renovar-nos.

Está-se afirmando nestes dias na Itália que a Igreja tem muitas facilidades, benesses, e por isso está aberta a discussão sobre o que a igreja deverá, ou não, pagar…

Para mim é importante que a informação seja exata e real. Se as instituições religiosas tiverem atividades de lucro, estas deverão estar sujeitas à lei do Estado, pagando os devidos impostos para o bem comum. No entanto, as obras caritativas e de solidariedade deverão ser públicas e reconhecidas para que haja consentimento nas pessoas acerca das isenções. Por exemplo na Itália, no mundo da emigração que é uma nova forma de pobreza, há religiosos prestando serviços excelentes e necessitam ser apoiados.

A Congregação dos Missionários Monfortinos fez 300 anos, com uma importante presença de 150 anos no Haiti, e de 50 anos no Perú. Que significa tudo isso?

Estive no Perú nesse aniversário dos 50 anos e muita gente me dizia: “estamos muito agradecidos por todo o bem que têm feito no nosso país; a presença da comunidade monfortina foi um grande dom do Senhor.” Para nós este é um motivo também para continuarmos com a mesma paixão e dedicação, vivendo o nosso carisma ao serviço do Evangelho.

Falando de evangelização na América Latina, esta também recebe críticas…Que lhe parece o trabalho que se está desenvolvendo neste continente?

A falta de uma maior presença, com mais profundidade e autoridade da igreja católica, é um problema muito sério. Estou a lembrar-me  da minha missão no Perú, quando cheguei à selva de Uchiza, região de São Martinho; a zona que aí me confiaram era composta de 80 lugares (aldeias) e com uma única igreja na cidadezinha de Uchiza, frequentada apenas por pessoas de uma certa idade. Quando comecei a trabalhar nas comunidades e a visitar os aldeamentos logo uma senhora veio dizer-me que apesar de ser católica, todos os fins de semana frequentava um grupo evangélico para poder escutar a Palavra de Deus e para cantar, uma vez que os católicos não se reuniam. Outra senhora dizia-me que ela não participava no culto deles porque ela era católica, mas que mandava lá os seus filhos, caso contrário, quando é que eles iriam aprender a Palavra de Deus? Julgo que o vazio ali deixado pela nossa igreja católica tenha sido o gradual afastamento das pessoas que desejavam viver a sua fé. Trabalhei ali com muitos leigos, reunindo-me mensalmente com eles, a fim de que eles estivessem em grau de animar as comunidades cristãs. Era essa a maneira de encontrar comunidades preparadas e animadas na ocasião da minha passagem. A formação dos leigos deverá ser continuada ou retomada como uma prioridade, a fim de que, com essa preparação, os leigos empenhados venham a assumir as suas responsabilidades e sejam reforçadas as comunidades católicas.

E como poderão os Monfortinos responder à nova evangelização?

Celebramos há pouco os 300 anos do início da Congregação e em 2016 iremos celebrar os 300 anos da morte do Fundador. Por essa razão pensamos – sobretudo a partir do ano 2012, ano em que se celebra o 300º aniversário da redação do TRATADO da Verdadeira Devoção a Maria, escrito por Montfort – de propor aos membros da Congregação uma séria reflexão para nos apropriamos com maior consciência da espiritualidade monfortina, alargando esse estudo também às outras obras. Dessa forma poderemos vir a celebrar os 300 anos da morte do Fundador não apenas com gestos exteriores, mas através de um caminho que nos leve à renovação  da vida pessoal e da vida da comunidade. Quando no mês de Maio de 2011 pude cumprimentar o Papa, eis que ele, com um grande sorriso no seu rosto, disse que agora o Papa João Paulo II é a grande figura que divulgou por todo o mundo a profundidade da espiritualidade do nosso santo fundador. Até na homilia da sua beatificação, o atual papa citou Montfort duas vezes, indicando-o como um Santo que teve uma enorme influência na espiritualidade do novo Beato.

Tem qualquer outra “perspectiva” que possa partilhar com os leitores?

A nova Administração geral exprimiu o desejo de que se coloque ao centro o carisma herdado de Montfort uma vez que a nossa congregação – por razões históricas – desenvolveu atividades  muito diversificadas tais como paróquias, escolas, e outras, esquecendo a própria especificidade da evangelização através de missões para renovar o espírito cristão e redescobrir a fidelidade ao batismo. O nosso Capítulo geral lançou o apelo para que façamos escolhas corajosas e audazes para retomar aquele percurso da coerência com o carisma do Fundador.

Qual é o atual desenvolvimento da Congregação?

Não somos muitos;  à volta de 900 religiosos, e com uma presença em 27 países. Nestes últimos anos estamo-nos estabilizando no número em virtude das vocações que provêm das Filipinas, Indonésia, Índia, assim como também da África e da América Latina. E uma vez que na Europa há um forte declínio, estamos iniciando caminhos de colaboração internacional naquelas realidades históricas que apresentam desafios novos, criando assim comunidades internacionais que aprofundem a formação na espiritualidade monfortina. Dêmos o exemplo da França, lugar do nosso nascimento. As iniciativas aí obrigar-nos-ão a ter que deixar certos empenhos pastorais, por exemplo paróquias, entregando-as ao clero diocesano.

A que ponto se encontra o processo do doutoramento de S.Luís Maria de Montfort como “ Doutor da Igreja”?

Ainda que o processo tenha ficado parcialmente parado,  o próprio Papa convidou a trabalhar neste projeto. O Padre Lethel, carmelita, que no ano passado pregou o retiro quaresmal à Cúria do Vaticano, na presença do Papa, ficou com a nítida sensação que Bento XVI, tendo ouvido as reflexões  sobre Montfort, ficou assim com uma nova visão sobre a figura de Montfort.

O que é que a Igreja exige para lhe atribuir tal título?  

É importante que a sua obra seja apresentada no seu conjunto completo e não de maneira truncada, como fazem alguns movimentos que lhe desvirtuam o conteúdo. É necessário estudar Montfort mais aprofundadamente e organizar encontros, em diversas partes do mundo, que ponham em relevo a grande influência que Montfort exerce, ainda hoje, na espiritualidade da Igreja.

Por: José Antonio Varela Vidal