Desafios do Sínodo da Palavra de Deus

Entrevista com o cardeal Eusébio Scheid

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Por Alexandre Ribeiro

RIO DE JANEIRO, sexta-feira, 25 de abril de 2008 (ZENIT.org).- Bento XVI convocou para outubro de 2008 a XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que discutirá o tema «A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja».

Para explicar o que é um Sínodo dos Bispos e falar das expectativas quanto ao evento eclesial, Zenit entrevistou o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Scheid.

--Por que se realizam Sínodos?

--Cardeal Eusébio Scheid: O Papa que iniciou os Sínodos como uma forma de prosseguir o pensamento do Concílio Vaticano II foi Paulo VI, quem também rematou o Concílio. Aos poucos se percebeu a dificuldade da ressonância, da aplicação do Concílio, até nas comunidades menores que existem nas dioceses, e de como se deveria conduzir para uma perspectiva sobre a Igreja em todo âmbito, em todo mundo. Aí uma das maneiras mais apropriadas era a introdução de Sínodos. Cada vez sobre uma temática relacionada com o Vaticano II e que talvez não tenha sido ainda suficientemente penetrada, circunscrita, ou divulgada e atuada. O Sínodo é um instrumento hábil, muito sério, de peso internacional, por ser intereclesial, para se fazer uma avaliação sobre determinados assuntos a serem repensados ou reacentuados.

--Agora se tem então como tema a Palavra de Deus...

--Cardeal Eusébio Scheid: O caso sobre a Palavra de Deus, no meu entender, veio quase que supletório ao que de bom já existe sobre ela. Porque o avanço que se deu sobre a Palavra de Deus, seja no seu estudo científico, seja na sua vivência prática, na vida das comunidades, baseada especialmente nos pequenos círculos fundados na Palavra de Deus, mesmo a própria pregação, a homilia com muito mais encarecimento, muito mais seriedade, tudo isso fez com que nós tivéssemos o documento Dei Verbum como documento mais usado depois daLumen Gentium. Como documento, a Dei Verbum é mais aperfeiçoada do que a própria Lumen Gentium, porque esta foi uma compactação de diversas coisas. Eu assisti muito de perto, como aluno em Roma na época, às discussões sobre a Dei Verbum. Elas começaram muito acirradas, mas depois amenizaram. No fim se chegou a um acordo muito bonito sobre a Revelação, o que precede a um livro e o que é inerente a ele, como inspiração do texto, o papel da Tradição, como ela se encaixa dentro da única fonte da própria Revelação, e assim por diante, até o próprio Magistério ordinário e extraordinário. Está tudo tão claro na Dei Verbum que não há como opor objeções a um documento desse.

Sabe que a verdade é sempre verdade, ela é sempre jovem. O que muda na verdade é apenas a roupagem, a tônica, por vezes, nisso ou naquilo. Agora, o Sínodo é realmente esse órgão para repensar, reatuar ou reativar alguma verdade, ou algum ponto da pastoral --que sempre também deve estar em sintonia com a verdade revelada--, que não tenha sido suficientemente penetrado. Basta recordar os Sínodos que já tivemos. Eu participei de dois diretamente: o Sínodo sobre a Vida Consagrada, e o outro especificamente sobre a Reconciliação.

--Que o senhor espera do Sínodo da Palavra?

--Cardeal Eusébio Scheid: Eu estou tão contente com o povo de Deus no uso da Palavra que não tenho assim tantas esperanças a mais. Eu ainda não tive acesso ao Instrumentum laboris, que é o que serve de base propriamente para todas as discussões ou os aportes que os padres sinodais vão dar ao próprio conteúdo para o material final do Sínodo. Mas no Lineamenta se perguntava se a diocese tinha círculos bíblicos. Pois bem, são milhares, além de institutos próprios que aprofundam a Palavra de Deus, até o trabalho ecumênico e intereclesial sobre isso, o ensino religioso oficial que nós temos no Rio de Janeiro.

--Que pontos específicos o Sínodo pode discutir?

--Cardeal Eusébio Scheid: A perspectiva que eu tenho seria mais no uso da Palavra. A gente faz uma sondagem, por exemplo, aberta, na igreja, perguntando: Quantos têm a Bíblia? E vemos que todos têm. Então perguntamos: Quantos lêem? Aí já diminui o número. E quantos lêem todo dia? Aí são poucos. Portanto, há a questão de como introduzir a Bíblia na oração diária do fiel. Esse é um ponto. Depois, como enfrentar os problemas modernos, econômicos, políticos, com base na inspiração divina? Como colocar a Palavra de Deus sendo resposta aos cientistas que não aceitam a Revelação? Ou, por exemplo, como convencer alguém da ética natural, apenas ética natural, para que passe a ser uma ética mais aprofundada, podendo ser verdadeiramente a nossa moral católica ou cristã, e aceite portanto a inspiração? Mas como se faz isso, como fazer esse processo? É claro, eu estou jogando hipóteses. Não sei se é por aí que vai. Um outro desafio que se tem é como colocar a Palavra de Deus à altura da mídia de hoje, especialmente na técnica do software?

O Papa coloca também sempre o problema da indiferença religiosa e do ateísmo. Como fazer com que a Palavra de Deus entre na cabeça e no coração de um ateu? Aí temos de apelar para a graça divina. Mas às vezes a graça divina vem com a Palavra de Deus. Quantos se converteram ouvindo a Palavra de Deus. Haja vista, por exemplo, a própria conversão de Santo Agostinho. E tantos outros que, ao se confrontarem com a Palavra viva de Deus, seja ela pela pregação ou por uma mensagem da televisão bem feita, ou até por artigos, se converteram de um certo paganismo prático até uma verdadeira vivência cristã. Esse desafio tem diversas dimensões, porque aí entra a liberdade humana e entra a ação da graça divina, especificamente o caso da Revelação.

Outro ponto seria como conseguir que a Palavra de Deus seja o meio transformador mais forte da própria situação do mundo? A pobreza crescendo, a riqueza crescendo também, em proporções gigantescas, a insegurança crescendo e até aqueles que vivem bem aquinhoados de bens materiais também estão sujeitos à insegurança. Como a própria Palavra de Deus pode dar segurança?