Diálogo com a Fraternidade de São Pio X: carta a dom Fellay e aos sacerdotes lefebvrianos

Uma iniciativa de dom Augustin Di Noia

Roma, (Zenit.org) Anita Sanchez Bourdin | 1270 visitas

Por iniciativa pessoal, dom Augustin Di Noia tenta relançar o diálogo de Roma com a Fraternidade de São Pio X. O dominicano estadunidense, desde junho de 2012, é vice-presidente da Comissão Ecclesia Dei, interface de diálogo entre a Igreja católica e os discípulos de dom Marcel Lefebvre. A comissão depende da Congregação para a Doutrina da Fé. O prelado acaba de enviar uma carta a dom Bernard Fellay, superior, e a cada sacerdote da Fraternidade.

Canais informativos ligados à Fraternidade afirmam que Roma defende a interpretação do concílio Vaticano II mediante uma hermenêutica de “continuidade” com a tradição. Mas a Fraternidade considera que certos documentos conciliares são errôneos, em particular no tocante ao diálogo inter-religioso e ao ecumenismo.

Com o “bloqueio” do diálogo ecumênico, dom Di Noia propõe um enfoque espiritual, convidando a Fraternidade a um exame de consciência com palavras-chave como humildade, doçura, paciência e caridade, por exemplo.

Roma espera, conforme a carta, a resposta de dom Fellay ao documento que lhe foi enviado em 14 de junho. Para sair do impasse provocado pela ausência de retorno, ele propõe que a Fraternidade reencontre o “carisma positivo” do seu início, em Friburgo e Écône: uma tentativa de reforma por meio da formação dos sacerdotes e da missão.

Di Noia recomenda ainda evitar o recurso aos meios de comunicação –a Assessoria de Imprensa da Santa Sé não publicou nada sobre esta carta–, e a prática de um “magistério paralelo”. O ideal seria valorizar as objeções de maneira “construtiva” e fundamentá-las em uma teologia “profunda”.

O prelado menciona a instrução do cardeal Joseph Ratzinger Donum veritatissobre “a vocação eclesial do teólogo”, de 24 de maio de 1990, que propõe esta definição de teólogo: “tem a função especial de conseguir, em comunhão com o magistério, uma compreensão cada vez mais profunda da Palavra de Deus contida na Escritura, inspirada e transmitida pela tradição viva da Igreja”. O documento recorda também a autoridade do magistério: “em seu compromisso no serviço da verdade, o teólogo deverá, para permanecer fiel à sua função, levar em conta a missão própria do magistério e colaborar com ele”.

Após a exclusão de dom Richard Williamson, anunciada em 24 de outubro de 2012, a Fraternidade de São Pio X parece ter sofrido divisões internas. Dom Fellay seria partidário de manter o diálogo. A situação da Fraternidade –cujos responsáveis não estão mais excomungados, mas ainda não estão integrados à Igreja católica- é insustentável no longo prazo, de acordo com a avaliação de observadores.

 A carta de dom Di Noia parece enviar uma mensagem realista: a comissão vaticana não deseja que a mão estendida por Bento XVI se torne uma ocasião perdida, já que as negociações não deverão ser eternas.