Diálogo entre católicos e protestantes entra em nova fase

Afirma o cardeal Kasper, ao apresentar um livro sobre os 40 anos de diálogo

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Por Patricia Navas

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 15 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- O diálogo oficial entre a Igreja Católica e as comunidades protestantes históricas - anglicana, luterana, reformada e metodista - está entrando em uma nova fase, após fechar a primeira etapa, que percorre os últimos 40 anos, do final do Concílio Vaticano II até hoje.

Assim indicou o presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, cardeal Walter Kasper, ao apresentar hoje, na Sala de Imprensa da Santa Sé, um livro que reúne os resultados desse diálogo.

"Com este livro, nós nos encontramos no fim de uma primeira etapa, repleta de frutos e, ao mesmo tempo, estamos entrando em uma nova fase, que desejamos que seja tão frutífera como a anterior, e que nela possam ser resolvidos os difíceis problemas que estão pendentes", declarou.

O livro, preparado pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos em colaboração com as comunidades protestantes, intitula-se Harvesting the Fruits. Basic Aspects of Christian Faith in Ecumenical Dialogue (Recolhendo os frutos. Aspectos básicos da fé cristã no diálogo ecumênico).

O Conselho analisou, durante 2 anos, o diálogo com as principais comunidades protestantes, porque estas foram as primeiras em estabelecer um diálogo oficial com a Igreja Católica após o concílio.

Conquistas

Segundo o cardeal Kasper, agora é o momento de fazer um balanço da situação do diálogo. E acrescentou: "Nós mesmos estamos gratamente surpresos por tudo o que foi alcançado nestes anos".

Com relação aos frutos do diálogo, aos quais se refere o título do livro, o cardeal Kasper indicou que "se trata de uma colheita verdadeiramente muito rica, que supera as numerosas polêmicas e grandes problemas históricos da Reforma".

"Isso - prosseguiu - pode representar uma clara resposta a opiniões que estão sendo difundidas, às vezes também na Cúria Romana, ou à injustificada acusação de que o ecumenismo com as autoridades protestantes não havia colhido frutos até agora e tinha nos deixado com as mãos vazias."

"Não queremos que a riqueza dos resultados alcançados seja esquecida e que seja preciso começar novamente", afirmou.

"Comportamento ecumênico"

"Desejamos iniciar um processo de recepção destes ricos frutos no corpo da própria Igreja, para chegar a um novo tipo de comportamento ecumênico", revelou.

O cardeal Kasper indicou que, atualmente, no âmbito ecumênico, como em todos os demais, produzem-se rápidas mudanças no Ocidente.

Neste sentido, assinalou que, após o entusiasmo dos primeiros anos depois do concílio, hoje se experimenta certo cansaço no diálogo ecumênico.

"No entanto, a nova sobriedade instaurada pode ser também um sinal de maior maturidade - indicou. Provavelmente, o caminho ecumênico será mais longo do que parecia depois do Concílio."

O livro constata o que as comunidades eclesiais, em diálogo desde o concílio Vaticano II, mudaram ao longo desses 40 anos.

"Talvez nossos interlocutores já não sejam os mesmos, são mais diversificados do que os que encontramos durante e depois do concílio - explicou. Há fragmentações internas, novos problemas no campo da ética, problemas desconhecidos no passado."

E prosseguiu: "Também na Igreja Católica houve mudanças; às vezes, nossos documentos são difíceis de serem digeridos pelos nossos interlocutores".

"Com este livro, queremos fomentar um novo impulso - afirmou. Ilustrando os numerosos resultados positivos desses 40 anos, queremos mostrar que somos capazes de conseguir qualquer coisa se continuarmos comprometidos com o ecumenismo."

O volume destaca, pela primeira vez, os resultados dos 4 diálogos bilaterais com as 4 confissões protestantes, agrupados por temas, para permitir a comparação e uma visão mais clara do alcance das conquistas em 40 anos de diálogo.

O livro também dedica um espaço às áreas de convergência ecumênica, que poderiam ajudar no processo de recepção dos resultados nas diversas confissões.

Sobre os problemas por resolver, o cardeal explica: "Identificamos problemas na hermenêutica, na antropologia, na eclesiologia e também na compreensão da Eucaristia".

Simpósio em 2010

A Igreja Católica e as comunidades protestantes têm a intenção de organizar um simpósio, em fevereiro de 2010, no qual debaterão o futuro do ecumenismo ocidental, anunciou o cardeal.

O livro apresentado hoje no Vaticano servirá de base para as conversas do encontro.

Além do cardeal Kasper, na coletiva de imprensa interveio também Dom Mark Langham, oficial do Conselho e um dos principais colaboradores do purpurado na elaboração do livro.

Dom Langham destacou que o cardeal Kasper "quis dar a conhecer desta maneira o fruto de 40 anos de diálogo ecumênico a uma nova geração, que cresceu no pós-concílio e provavelmente não conhece a fundo o que se conseguiu".

Temas de diálogo

O oficial explicou que o livro se estrutura em 4 capítulos: "Fundamentos da nossa fé comum", "Salvação, justificação e santificação", "A Igreja" e "Batismo e Eucaristia".

Aplicando a metodologia do próprio diálogo ecumênico, o primeiro capítulo aborda as bases comuns a todas as partes em diálogo.

O segundo se ocupa de uma questão central para a Reforma - a salvação, a justificação e a santificação - na qual "se chegou a um acordo significativo, que constitui um marco nas relações ecumênicas", explicou Dom Langham.

No entanto, acrescentou, "restam ainda questões que requerem ulteriores esclarecimentos, como a que se refere à função da doutrina da justificação no seio da eclesiologia inteira".

O terceiro capítulo, o mais longo, examina a missão, autoridade e ministério da Igreja, partindo da maneira como estes aspectos estão apresentados nas declarações comuns cristãs nestes anos.

"Neste sentido, as polêmicas e mal-entendidos do século XVI foram reexaminados e, em parte, superados", disse o especialista, ainda que permaneçam os problemas em questões centrais, como "o que é" e "onde está" a Igreja.

Na opinião de Dom Langham, "isso demonstra que a relação entre os elementos espirituais e concretos que definem a Igreja deverá ser entendida de maneira mais profunda".

No quarto capítulo, fala-se, por exemplo, da controvérsia sobre a Eucaristia, presente durante a Reforma, sobre a qual, "graças a um intenso diálogo e sobretudo a uma renovada ênfase sobre a função do Espírito Santo, foi possível chegar a uma importante convergência", afirmou o oficial.

De qualquer forma, acrescentou, "deverão ser estudadas futuramente algumas questões sobre este sacramento, assim como o caráter de sacrifício da Missa, a presença real do Senhor na Eucaristia e o significado de ‘transubstanciação'".

No capítulo final, o cardeal Kasper aborda a síntese dos 4 diálogos e a importância de tudo que se conseguiu.