Dimensão da pastoral da saúde, vista do dicastério para a saúde

Entrevista com seu secretário, Dom Redrado Marchite, O.H.

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Por Marta Lago

 

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 10 de dezembro de 2007 (ZENIT.org).- A dois meses exatos da Jornada Mundial do Enfermo, o secretário do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde indica na figura do bispo a chave para fortalecer uma pastoral da saúde que responda às necessidades pessoais e sociais de hoje.

Para isso, conta-se com o apoio e a atividade deste dicastério, cuja dimensão e alcance é traçado, nesta entrevista, pelo bispo José Luis Redrado Marchite, O.H.

Qual é a missão do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde?

–Dom Redrado: Este é um dicastério que precisamente entende de pastoral; não é um «Ministério da Saúde» no estilo dos governos. É preciso compreendê-lo bem. O nome forte é «pastoral da saúde», com tudo o que implica uma «pastoral»: evangelização, ação da igreja no setor com respeito aos doentes e aos sãos, começando por aqueles que cuidam dos enfermos. A missão do dicastério também se estende à prevenção, um aspecto dirigido a todas as pessoas para que cuidem bem da saúde como tal.

Por pastoral da saúde entendemos a «passagem de Jesus» em meio aos enfermos e a ajuda para que encontrem sentido na doença.

Isso implica um contato estreito, direto, pessoal com quem sofre...

–Dom Redrado: Trata-se de fazer chegar uma mensagem de valores cristãos a estes homens e mulheres que estão enfermos, fazer-lhes despertar a um sentido novo da vida, que descubram que a vida de Jesus teve sentido quando evangelizava, mas também quando esteve na cruz, por tudo o que emanou desde lá: um grande amor que salvou todos, um grande sofrimento, mas este impregnado de amor. Que a Igreja, em sua evangelização, em sua pastoral, possa chegar a tornar constante esta realidade e fazer vivê-la ao máximo.

Por isso há um chamado aos serviços de pastoral nos hospitais, e claramente também aos que têm a denominação de católicos, que não se podem limitar a curar os corpos, mas as pessoas; a passagem por um hospital católico deve ser, sobretudo, uma passagem que renove a vida, que diga algo aos enfermos, que os faça encontrar-se com o Senhor. Por isso, nosso dicastério está tentando formar homens e mulheres que possam estar mais perto do enfermo com esta grande mensagem, descobrindo que a enfermidade não é inútil, mas pode levar a um caminho como o de Emaús, a descobrir que é o Senhor que caminha junto a nós.

Como seu dicastério traduz este trabalho evangelizador?

–Dom Redrado: Ele tem funções institucionais; o fundamental é animar, informar e formar, e estar atualizados sobre o que acontece no campo da saúde e da doença no mundo, para ver de que forma a pastoral pode se integrar.

Anima-se com conferências internacionais, com reuniões de grupos, cursos, programas de rádio, de televisão, com a publicação de livros, com nossa revista «Dolentium Hominum» – que se envia em quatro idiomas ao mundo inteiro – na qual se vertem critérios sobre a saúde e a doença, o sentido cristão e como se deve realizar este ministério.

Marca-se em nossa finalidade ter celebrado 22 grandes conferências internacionais. São numerosíssimos os profissionais que vieram para escutar e para intervir nessas convocatórias: uma média de 600 pessoas por conferência, e houve outras duas com nove mil inscrições. O leque de possibilidades, portanto, é amplíssimo.

No campo da animação, também se realizaram viagens internacionais desde o Pontifício Conselho para a Pastoral da Saúde: mais de 150 para tomar o pulso da saúde nas diferentes nações e ver como as Conferências Episcopais estão animando este setor em suas respectivas regiões.

A última Conferência Internacional, celebrada em novembro passado, deu protagonismo ao doente idoso...

–Dom Redrado: É a terceira Conferência que dedicamos ao idoso, ainda que cada uma teve um matiz diferente. Esta se centrou mais nas enfermidades características do idoso: perde vigor, audição, sentido cognoscitivo, pode entrar em um período de depressão – sempre na vida, mas nesta idade mais ainda – e muitos outros sofrimentos que nesta etapa da vida é preciso cuidar.

Levando em conta que a sociedade alcançou um nível quantitativo de anos elevado – ao menos nas sociedades desenvolvidas se chega de 75 a 80 anos de idade –, deve-se lutar por dar qualidade de vida, controlando ou prevenindo esse tipo de padecimentos. A finalidade desta Conferência Internacional foi analisar como enfrentar esta realidade atual na sociedade. Como Pontifício Conselho, estamos abertos e inseridos fortemente na sociedade; temos uma missão enormemente social: a saúde e a doença são de alcance universal. O Papa concordou imediatamente com que celebrássemos esta convocatória sobre o tema citado. As sociedades, que envelhecem, têm de estar atentas a muitos desses aspectos.

Por exemplo, a família está chamada em primeira pessoa a atender o doente idoso, que não a complica, mas a implica; e o doente, a esta idade, tem de ser muito bem acolhido, ser muito amado. Do contrário, outra enfermidade como a depressão – sublinhou – entra pela porta rapidamente. São temas que se debateram no âmbito internacional, como o aspecto psicológico do idoso enfermo – que percebe que a vida acaba, que vê desaparecer seus contemporâneos.

A questão religiosa também é muito importante. Pode haver quem a tenha descuidado, mas se a pessoa quer estar em paz com Deus ou quer aproximar-se da fé, desde a velhice também se pode encontrar essa visão superior e misericordiosa que converte. E outro ponto crucial analisado é a questão bioética, porque uma sociedade materialista pode estar vendo o idoso como um «estorvo» que não produz e ainda por cima consome.

O que é necessário para redescobrir o valor dos idosos?

–Dom Redrado: Precisamente mudar de valores. Naturalmente, uma sociedade materialista é a que produz. Contudo, o que tem que fazer é perceber mais o «ser» que o «fazer». Quando se tem juventude e saúde, deve-se responder também com o «fazer». Mas o «fazer» do ancião é diferente. Pensemos nos anciãos do Antigo Testamento: Abraão, que é um pai da fé que dá alegria, entusiasmo; Ana, uma mulher de grande devoção que espera o Salvador; Simeão, que abraça o Salvador...

Cada pessoa deve também aprender a valorizar a própria velhice?

–Dom Redrado: Como tantas coisas importantes na vida, não podemos vivê-las sem uma preparação anterior. Por minha parte, estou refletindo muito para, se o Senhor me der alguns anos a mais, vivê-los com serenidade, com entusiasmo. Em paz. Vivê-los não como uma pessoa inútil, mas útil; quando me aposente, tempo que quero desfrutar enormemente, tenho muitas coisas para fazer, se o Senhor me der força mental e física...

O horizonte de atuação de seu dicastério é amplo. Que prioridade tem atualmente?

–Dom Redrado: As pessoas que têm de atuar pastoralmente, e em primeiro lugar os bispos; isso porque é o bispo em sua diocese sucessor dos apóstolos; é a quem se deu o poder da missão de evangelizar, de santificar e de governar. Sempre encontramos Jesus com os enfermos; e os apóstolos também.

Insistimos desde o princípio em que cada Conferência Episcopal tenha um bispo responsável pela Pastoral da Saúde, que alente em cada país grupos de animação de pastoral da saúde, e isso se multiplicou enormemente.

Que momentos servem de referência para levar a cabo esta animação?

–Dom Redrado: Temos três datas privilegiadas, na Igreja, no campo da saúde: a Carta Apostólica «Savifici doloris» [sobre o sentido cristão do sofrimento humano], de João Paulo II, que deveríamos ler de joelhos, é de 11 de fevereiro de 1984. Um ano depois exatamente da instituição deste dicastério. E em 1992, a instituição do Dia Mundial do Enfermo.

O Dia Mundial do Enfermo, desde 1993, foi-se celebrando em uma nação diferente, a última em Seul (Coréia do Sul). Mas desde esta, o Papa indicou que a Jornada celebre-se da seguinte maneira: solenemente, a cada três anos; anualmente, no dia 11 de fevereiro no âmbito da Igreja local. A celebração solene trienal permite ajustarmos também à Jornada Mundial da Juventude -- todos os anos na Igreja local, a cada três anos solenemente --, igual ao Encontro Mundial das Famílias -- o último foi na cidade espanhola de Valência --. Assim, nos preparamos e exortamos a que a Jornada do Enfermo seja uma grande bênção na pastoral da saúde.

Que outros objetivos tem no momento o dicastério para a Pastoral da Saúde?

–Dom Redrado: Continua sendo muito importante a presença da Igreja junto aos enfermos da Aids, e ao lado de quantos estão em fase terminal. Não gostaria de encontrar-me no final da vida com alguém que não soubesse acompanhar. É necessário o acompanhamento de pessoas que entendam esse momento final e decisivo, porque nele pode mudar a vida de muitos enfermos.

Assim, outro desafio que se apresenta à pastoral da saúde, e que nosso dicastério está empenhado em levar adiante, é a formação dos que acompanham os enfermos: sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos preparados para estar nos serviços pastorais dos hospitais ou que desde a paróquia atendam os enfermos, porque não é fácil. Necessita-se de uma formação básica e também especializada. Para isso, estão nascendo centros de especialização em pastoral da saúde. E também se requer um voluntariado de acordo com esta realidade, porque não se pode ir atender o mundo dos enfermos simplesmente com boas intenções; trata-se de um âmbito complexo que requer preparação.

Outro desafio chave é a programação dos serviços pastorais, pois não devem existir apenas para responder a necessidades do momento. A equipe de pastoral da saúde de um hospital tem de estar integrada em todo o fazer do centro. E não se trata apenas de chegar aos enfermos, mas a todo o pessoal da saúde, insisto. E também é fundamental saber situar-se, que não é fácil em um mundo tão complexo como é o hospital, em uma medicina que cada vez está mais tecnificada, e saber alimentar outros valores, como é a humanização, e prestar atenção à bioética. Tudo pede formação. Fez-se muito, mas ainda fica muito por fazer.