Direitos Humanos e América Latina; Uma paróquia tradicional

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Por Elizabeth Lev

ROMA, 15 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Sessenta anos atrás, durante a sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas em dezembro de 1948, 48 nações votaram para aprovar a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Eleanor Roosevelt, que era a delegada americana para a Assembléia Geral e a presidente da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, declarou nessa ocasião: «A delegação dos Estados Unidos acredita que este é um bom documento, um grande documento, e estamos preparados a dar a ele todo nosso apoio».

Em 2 de maio passado, os Estados Unidos novamente prestaram homenagem à declaração. A Embaixada dos Estados Unidos na Santa Sé organizou uma conferência acadêmica na universidade Regina Apostolorum, a primeira de uma série de conferências celebrando os 25 anos das relações diplomáticas formais entre os Estados Unidos e a Santa Sé.

Em reconhecimento do papel decisivo desempenhado pelos diplomatas da América Latina no movimento internacional dos direitos humanos que surgiu após a Segunda Guerra Mundial, este primeiro evento foi dirigido ao tema: «América Latina e o Projeto Internacional dos Direitos Humanos: Ontem, Hoje e Amanhã». As embaixadas da Costa Rica e do Chile na Santa Sé foram as anfitriãs do fórum.

A primeira metade da conferência relembrou uma parte da história da Declaração Universal que foi esquecida – o fato de que a América Latina e as nações caribenhas, constituindo 20 dos 50 estados membros originais das NU, contribuíram em manter as referências aos direitos humanos na carta das Nações Unidas e na montagem da própria declaração.

Os conferencistas examinaram a gênese do documento através das lentes das contribuições essenciais da América Latina, cujas tradições do pensamento social católico têm grandemente enriquecido o entendimento da região em relação aos direitos humanos.

A conferência de abertura foi feita para uma sala lotada por Paolo Carozza, professor na Notre Dame Law School, que foi unanimemente eleito em março para a presidência da Comissão Inter-americana de Direitos Humanos.

Carozza traçou a tradição dos direitos humanos na América Latina de Bartolomé de las Casas, bispo do século 16 que lutou pela causa da justiça para os indígenas, através do desenvolvimento de uma aproximação distintiva que unia idéias da Europa e dos Estados Unidos com princípios do pensamento social católico.

A embaixadora dos Estados Unidos para a Santa Sé, Mary Ann Glendon, continuou a história na segunda conferência descrevendo as atividades de uma «grande geração» de diplomatas latino-americanos e caribenhos na jovem Organização das Nações Unidas, e a influência de seu modo de pensar sobre direitos e responsabilidades no processo que levou à aprovação da declaração.

A conferência tomou um formato diferente. As luzes diminuíram e uma tela de vídeo baixou na sala.

Mas nenhuma tela banal de PowerPoint surgiu. Acima das cabeças dos embaixadores reunidos passou material arquivado de Eleanor Roosevelt apresentando os membros originais da primeira Comissão de Direitos Humanos da ONU.

O vídeo, criado especialmente para a ocasião pela funcionária da Embaixada americana, Amy Roth, mostrava os rostos e as vozes de alguns dos principais responsáveis pela declaração.

Um deles foi Guy Pérez-Cisneros, um brilhante jovem diplomata cubano que teve um papel chave na fundação da ONU em 1945 e nos debates que levaram à aprovação final da declaração universal.

O que fez esse interlúdio particularmente comovente foi a presença do filho de Pérez-Cisneros, Pablo, vendo a imagem de seu pai enquanto ouvia sua fala apaixonada nessa tarde histórica de 10 de dezembro de 1948.

Imediatamente em seguida ao vídeo, o público ouviu lembranças pessoais sobre esses grandes diplomatas latino-americanos. Além de Pablo Pérez-Cisneros, o embaixador do Panamá Lawrence Chewning lembrou a memorável carreira de Ricardo J. Alfaro, e do embaixador chileno Pablo Carera Gaete prestou homenagem a Hernán Santa Cruz. Gaete foi secretário de Santa Cruz, que foi delegado na ONU e membro do comitê redator da declaração.

Toda conferência foi tocada por outros elementos incomuns. Durante o intervalo, trovadores equatorianos passavam pelo átrio, oferecendo um prazeiroso interlúdio entre a ocupada manhã e as sessões da tarde.

O local da conferência, a Universidade Regina Apostolorum, foi outra escolha inspirada. A universidade é dirigida pelos Legionários de Cristo, congregação fundada no México pelo padre Marcial Maciel em 1941, alguns anos antes da Declaração Universal.

Os seminaristas, muitos da América Latina, assistiram as conferências durante os intervalos em suas aulas. Os jovens rostos desses jovens homens, fascinados, alertas, deram um testemunho contemporâneo do enérgico ressurgimento da Igreja na América Latina.

Menos de um mês atrás quando Bento XVI se dirigiu às Nações Unidas durante sua visita aos Estados Unidos, ele lembrou ao corpo da assembléia que, «este documento foi o resultado da convergência de diferentes religiões e tradições culturais, todas elas motivadas pelo comum desejo de colocar a pessoa humana no coração das instituições, leis e dos trabalhos da sociedade».

Ao mesmo tempo, o Santo Padre afirmou, «os direitos reconhecidos e expostos na declaração aplicados a todos pela virtude da origem comum da pessoa, que permanece o ponto alto do projeto criativo de Deus para o mundo e para a história».

A tarde brilhou com conferências de Guzman Carriquiry, subsecretário do Pontifício Conselho para os Leigos, e María Sara Rodriguez Pinto da Universidade dos Andes, no Chile.

Suas falas foram focadas em como a visão católica da dignidade da pessoa humana foi tecida na declaração através dos esforços das delegações latino-americanas.

O dia encerrou com chave de ouro com Thomas Shannon, Secretário de Estado assistente para temas do hemisfério ocidental, falando sobre a situação atual na América Latina.

Shannon pintou um excitante quadro indicando que enquanto a atenção do mundo estava focada em outro lugar, muitos países da América Latina estão tomando a liderança novamente nas iniciativas para melhoria dos Direitos Humanos.

O sucesso do dia foi melhor refletido nas faces radiantes de numerosos embaixadores presentes, orgulhando-se das realizações de seus próprios países em moldar o que Eleanor Roosevelt chamou de «a Carta Magna de todos homens em todo lugar».

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Fraternidade de São Pedro

A semana passada trouxe notícias maravilhosas para os apreciadores do rito tradicional da Missa em Roma. A Diocese de Roma estabeleceu uma paróquia pessoa dirigida pela Fraternidade Sacerdotal de São Padre na Igreja da Santissima Trinità dei Pellegrini.

Isto não alegrou somente os amigos da fraternidade, mas de muitas maneiras foi um alívio para o antigo bairro de San Gregorio dei Muratori que era muito pequeno e estreito para as grandes multidões que se reunião para muitos de seus eventos litúrgicos.

No lançamento da carta apostólica de Bento XVI «Summorum Pontificum», o cardeal Camillo Ruini, vigário do Papa para Roma, propôs dar Trinità dei Pellegrini para a fraternidade.

No Domingo de Páscoa, o Santo Padre decertou a ereção da paróquia «em ordem a garantir um cuidado pastoral próprio para toda a comunidade de crença fiéis tradicionais residindo na mesma diocese».

Isto é um marco para a fraternidade; não foi somente o décimo apostolado que foi erigido como uma paróquia totalmente pessoal, mas também o primeiro a se estabelecer na Europa.

Falei com padre Joseph Kramer, da Fraternidade de São Pedro, que foi nomeado o primeiro pastor da Trinità dei Pallegrini, como também reitor da igreja, justamente após o anúncio oficial de 7 de maio.

O padre Kramer explicou que o apostolado da Fraternidade de São Pedro começou em Roma em 1988 sob os auspícios da comissão Ecclesia Dei com aprovação papal. Hoje existem 200 sacerdotes na fraternidade em dioceses de todo mundo, servindo os fiéis que são ligados à Missa e aos sacramentos pelo rito romano tradicional.

Falando sobre o que a nova paróquia significaria à fraternidade, o padre Kramer primeiro reflete «o grande sinal de confiança por parte da diocese, mas também envolve uma grande responsabilidade porque Roma sempre foi um exemplo para o resto da Igreja».

Continuando, ele expressou seu desejo que «a paróquia em Roma seja um bom exemplo não somente de serviço pastoral mas também de beleza e solenidade da forma extraordinária da Missa para muitos peregrinos que vêm a Roma».

Trinità dei Pellegrini foi lar da Fraternidade de Peregrinos e Convalescentes, uma instituição caritativa fundada por S. Felipe Neri para cuidar dos pobres e doentes, especialmente peregrinos. O padre Kramer também foi nomeado como capelão da fraternidade, e perguntei a ele como pretendem continuar o apostolado de S. Felipe Neri.

«S. Felipe parecer ter sido o primeiro a iniciar a devoção das Quarenta Horas aqui em Roma e nós certamente continuaremos com essa tradição na igreja», responde o padre Kramer, «mas também somos interessados na caridade prática para com os convalescentes em suas casas».

«Como S. Felipe que cuidou para que aqueles que tivessem sido deixados de lado por hospitais lotados no século 16, nós visitaremos e olharemos por aqueles que estão enfermos e confinados em casa», acrescentou o padre Kramer.

«Também, planejamos estabelecer um centro de acolhida para muitos estudantes peregrinos em Roma», disse o padre Kramer. «Existem novos programas universitários abrindo a todo tempo na cidade e nós queremos ser um ponto de referência espiritual para aqueles que vêm aqui não somente para estudar, mas para se aprofundar em sua fé».

Trinità foi construída em 1597 no despertar da reforma litúrgica tridentina, e o padre Kramer revela as diversas características que fazem a igreja ideal para a fraternidade.

«A visibilidade do altar e o alto, grande, bem-iluminado sacrário com a ampla borda do altar, seguindo as construções das grandes igrejas pós-Tridentinas como a de Gesù e a Chiesa Nuova», ele disse. «Enquanto existem capelas nos oito lados, não existe nave lateral e tudo foca no altar principal».

A igreja contem muitos tesouros artísticos também. Cavalier d’Arpino, o antigo empregador de Caravaggio, pintou a Virgem e os Santos para uma capela, enquanto «S. Gregório o grande libertador das almas do purgatório» de Baldassare Croce adorna outro.

Sobre o altar existe uma obra-prima pintada por Guido Reni no ápice de sua carreira. Reni produziu a Santíssima Trindade para o Jubileu de 1625, quando milhares de peregrinos visitariam a igreja.

O efeito cromático brilhante de azuis frios envolvendo Jesus crucificado na metade inferior da pintura dando caminho para dourados e laranjas quentes de Deus Pai sentado no Céu faz um estonteante pano de fundo para a Eucaristia.

Padre Kramer apontou que «a fraternidade segue os pensamentos do Santo Padre que a bela música sacra é uma importante parte participação orante na Missa», e conseqüentemente tem uma preocupação particular no retorno de finas tradições da música sacra.

Em 8 de junho, a abertura oficial da paróquia, podemos ver a arte, arquitetura e música reunidas para a liturgia que as inspirou.

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Elizabeth Lev ensina arte cristã e arquitetura no campus italiano da Universidade de Duquesne.