Discurso de Bento durante visita à Biblioteca Apostólica Vaticana

E ao Arquivo Secreto Vaticano

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CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 3 de julho de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos o discurso de Bento XVI por ocasião de sua visita à Biblioteca Apostólica Vaticana e ao Arquivo Secreto Vaticano, dia 25 de junho.




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Senhor Cardeal
Venerados Irmãos no Episcopado
e no Sacerdócio
Queridos irmãos e irmãs!


Aceitei com alegria o convite que me foi feito pelo Senhor Cardeal Jean-Louis Tauran, Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana, para visitar a Biblioteca Apostólica Vaticana e o Arquivo Secreto Vaticano. Estas duas instituições, devido ao importante serviço que prestam à Sé Apostólica e ao mundo da cultura, merecem bem da parte do Papa uma atenção particular. É com prazer que venho portanto visitar-vos e ao agradecer o caloroso acolhimento, dirijo a todos vós a minha saudação cordial. Saúdo em primeiro lugar o Senhor Cardeal Jean-Louis Tauran, agradecendo-lhe as palavras que me dirigiu e os sentimentos que expressou em vosso nome. Com igual afecto saúdo o Bispo, D. Raffaele Farina, e o Prefeito do Arquivo Secreto Vaticano, Padre Sergio Pagano, assim como vós aqui presentes e quantos, com diversas funções, prestam a sua colaboração na Biblioteca e no Arquivo. O vosso, queridos amigos, não é simplesmente um trabalho mas, como dizia há pouco, é um serviço singular que prestais à Igreja e, de modo especial, ao Papa.

Todos sabem, de resto, que a Biblioteca Vaticana, a qual como anunciou o Cardeal Tauran se prepara para enfrentar ingentes trabalhos de restauro, não por acaso tem o nome de "Apostólica" porque é uma Instituição considerada desde a sua fundação como a "Biblioteca do Papa", de sua pertença directa. Também em tempos recentes o Servo de Deus João Paulo II quis recordar este vínculo que liga a Biblioteca Apostólica ao Sucessor de Pedro, vínculo que põe em evidência a sua missão peculiar, já ressaltada pelo Papa Sisto IV: "Ad decorem militantis Ecclesiae et fidei augmentum Para decoro da Igreja militante e para a difusão da fé". Fazia-lhe eco outro meu predecessor, o papa Nicolau V, o qual indicava a sua finalidade com as palavras: "Pro communi doctorum virorum commodo para a utilidade e o interesse comum dos homens de ciência". Ao longo dos séculos a Biblioteca Vaticana assimilou e aperfeiçoou esta sua missão com uma característica inconfundível, até ser hoje uma casa acolhedora de ciência, de cultura e de humanidade, que abre as portas a estudiosos provenientes de todas as partes do mundo, sem distinção de proveniência, religião e cultura. Queridos amigos, compete a vós, que trabalhais aqui quotidianamente, guardar a síntese entre cultura e fé que transparece dos documentos preciosos e dos tesouros que conserva, dos muros que os circundam, dos Museus que lhe estão próximos e da maravilhosa Basílica que se vê luminosa das vossas janelas.

Conheço muito bem o trabalho que é desempenhado, com humilde e quase escondido compromisso quotidiano, no Arquivo Secreto, meta de tantos pesquisadores provenientes do mundo inteiro: nos manuscritos, menos solenes dos ricos códigos da Biblioteca Apostólica, mas não menos relevantes por interesse histórico, eles procuram as raízes de tantas Instituições eclesiásticas e civis, estudando a história dos tempos distantes e mais recentes, podem traçar os contornos de figuras ilustres da Igreja e das civilizações, e fazer conhecer melhor a obra multiforme dos Pontífices Romanos e de tantos Pastores. Ao Arquivo Vaticano, aberto à consulta dos doutos pela sábia clarividência de Leão XIII em 1881, fizeram referência gerações inteiras de historiadores, aliás as mesmas Nações europeias, que, para favorecer as averiguações num tão antigo e rico scrinium da Igreja de Roma, fundaram na Cidade eterna específicos Institutos culturais. Dirigimo-nos ao Arquivo Secreto hoje não só para pesquisas eruditas, também em si mesmas meritórias e digníssimas, relativas a períodos distantes de nós, mas também para interesses relativos a épocas e tempos que nos são próximos, e também muito recentes. Disto são prova os primeiros frutos que a recente abertura aos estudiosos a partir do pontificado de Pio XI, por mim decidida em Junho de 2006, produziu até hoje. Pesquisas, estudos e publicações podem por vezes fazer nascer, ao lado de um interesse fundamentalmente histórico, também algumas polémicas. Em relação a isto não podem deixar de louvar a atitude de serviço abnegado e imparcial que o Arquivo Secreto Vaticano prestou, mantendo-se distante de estéreis e com frequência também débeis visões históricas parciais e oferecendo aos pesquisadores, sem impedimentos ou preconceitos, o material documentário em sua posse, organizado com seriedade e competência.

De várias partes chegam ao Arquivo Secreto, como também à Biblioteca Apostólica, sinais de apreço e de estima da parte de Institutos culturais e de privados estudiosos de diversas Nações. Isto parece-me que seja o melhor reconhecimento que as duas Instituições podem desejar. E gostaria de garantir a ambas, aos seus Superiores e a todo o Pessoal, nos diversos graus dos orgânicos, a minha gratidão e proximidade. Confesso que, quando completei setenta anos de idade, desejava tanto que o amado João Paulo II me tivesse concedido dedicar-me ao estudo e à pesquisa de interessantes documentos e achados por vós conservados com solicitude, verdadeiras obras-primas que nos ajudam a repercorrer a história da humanidade e do Cristianismo. Nos seus desígnios providenciais o Senhor estabeleceu programas para a minha pessoa e eis-me hoje entre vós não como um apaixonado estudioso de textos antigos, mas como Pastor chamado a encorajar todos os fiéis a cooperar na salvação do mundo, realizando cada qual a vontade de Deus onde Ele nos destina para trabalhar.

Para vós, queridos amigos, trata-se de realizar a vossa vocação cristã em contacto com ricos testemunhos de cultura, de ciência e de espiritualidade, usando os vossos dias e, no fim, grande parte da vossa vida para o estudo, publicações, serviço ao público e, em particular, para os Organismos da Cúria Romana. Para esta vossa multíplice actividade servis-vos das técnicas mais avançadas na informática, na catalogação, no restauro, na fotografia e, em geral, em tudo o que diz respeito à tutela e à fruição do riquíssimo património que conservais. Ao elogiar-vos pelo vosso empenho, exorto-vos a considerar sempre este vosso trabalho como uma verdadeira missão a ser desempenhada com paixão e paciência, gentileza e espírito de fé. Preocupai-vos por oferecer sempre uma imagem acolhedora da Sé Apostólica, conscientes de que a mensagem evangélica passa também através do vosso coerente testemunho cristão.

Agora, sinto-me feliz, na conclusão deste nosso encontro, de anunciar a nomeação do Senhor Cardeal Jean-Louis Tauran para Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso.

No seu lugar, como Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana, nomeei D. Raffaele Farina, promovendo-o ao mesmo tempo à dignidade de Arcebispo. Para o desempenho do cargo de Prefeito da Biblioteca Apostólica Vaticana chamei o Rev.mo Mons. Cesare Pasini, até agora Vice-Prefeito da Veneranda Biblioteca Ambrosiana. Apresento a cada um deles desde já os votos de um proveitoso desempenho das novas funções.

Agradeço mais uma vez a todos vós pelo precioso serviço que desempenhais na Biblioteca Apostólica e no Arquivo Vaticano e, ao garantir a minha recordação na oração, concedo de coração a cada um com especial afecto a minha Bênção, que de bom grado faço extensiva às respectivas famílias e às pessoas queridas.

[Tradução distribuída pela Santa Sé © Copyright 2007
Libreria Editrice Vaticana]