Dom Celli no Seminário para Bispos do Brasil

Conferência pronunciada no dia 12 de julho no Rio de Janeiro

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RIO DE JANEIRO, quarta-feira, 20 de julho de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos a conferência de presidente do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, Dom Claudio Maria Celli, no 1º Seminário de Comunicação para Bispos do Brasil, realizado no Rio de Janeiro na semana passada. Dom Celli falou sobre o tema: "Comunicação e evangelização no contexto das transformações culturais provocadas pelas novas tecnologias".

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Eminentíssimos senhores Cardeais, irmãos bispos, meus caros amigos, 

Para mim é uma grande alegria e satisfação estar presente nesta ocasião em que inauguramos o primeiro seminário de comunicação para os bispos do Brasil, que tem como tema “comunicação e evangelização no contexto das transformações culturais provocadas pelas novas tecnologias”.

Durante todo ano de 2010 recebemos no Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais a visita de quase todos os bispos do Brasil que foram a Roma para realizar a Visita Ad Limina às tumbas dos apóstolos Pedro e Paulo.

Pude reconhecer sua realidade por meio do diálogo sincero e aberto com cada um dos grupos de bispos que foram até nosso Dicastério; sem dúvida o Brasil é um país continental e têm experiências e iniciativas de Evangelização muito variadas como consequência de um contexto social e cultural distintos ainda que se trate de uma só nação. 

É admirável a atividade de muitos pastores que com poucos meios de comunicação logram grandes resultados; também existem no Brasil grandes organizações e muitos profissionais que, de certa forma, são um exemplo concreto de como fazer comunicação dentro da Igreja.

Este seminário de bispos nasce do encontro direto e pessoal com os próprios bispos; por um lado é consequência direta da primeira experiência que tivemos em Roma no ano 2008, quando convocamos, durante três dias, todos os bispos presidentes das Comissões de Comunicação das Conferências Episcopais para realizar, precisamente, um seminário de formação e reflexão sobre os desafios da comunicação; e que, graças a Deus, foi muito apreciado e de muita utilidade para os senhores bispos. Por outro lado, este seminário de bispos brasileiros é uma resposta concreta à sintonia que se instaurou entre a Comissão Episcopal de Comunicação da Conferência Episcopal Brasileira e entre o Dicastério da Santa Sé, à qual o Papa encomendou a animação da comunicação na Igreja Universal.

A formação dos agentes de pastoral é uma prioridade para este Dicastério desde que o Santo Padre solicitou-me este serviço há quase cinco anos.

Ao iniciar este primeiro seminário sobre comunicação para os bispos do Brasil, desejo sublinhar a importância da comunicação no ministério dos bispos e da sua transversalidade na ação pastoral da Igreja. É imperativo superar uma visão meramente instrumental dos meios de comunicação – descartar a ideia de que os meios são meros autofalantes que seu uso sequer leva em conta uma perspectiva crítica por parte dos destinatários – e reconhecer que a própria cultura é transformada por causa do surgimento de novas formas de comunicar por meio das novas tecnologias. Com efeito, elas criam novas linguagens e novas formas de relacionamento entre as pessoas e, ao mesmo tempo, abrem horizontes e desafios à missão evangelizadora de cada um dos  batizados.

Não tenho medo de dizer que se a Igreja não tiver consciência das mudanças culturais provocadas também pelo sistema de comunicação que conhecemos atualmente, ela encontrará, num futuro próximo, muitas dificuldades para evangelizar.

Um dos grandes desafios para levar adiante nossa missão Evangelizadora, ratificada pela Conferência de Aparecida, é o desafio da linguagem, poissó poderemos dialogar com o mundo se encontrarmos espaços de entendimento comum e que permitam compreender e escutar o homem e a mulher de hoje que, em muitos casos, encontram-se profundamente isolados, sozinhos.

Como pastores temos que continuar promovendo espaços de diálogo respeitoso, no qual a comunicação seja isenta de agressividade. E isso é necessário mesmo dentro da própria Igreja pois, caso contrário, prejudicaria o reflexo da busca pela Verdade; entretanto, tendo claro aquilo que nos ensina a Doutrina Social da Igreja, “o respeito às opiniões alheias, – algo essencial em uma democracia — não implica na falta de certeza sobre as próprias convicções, caso contrário não seria postura de um cristão. É o perigo do fundamentalismo e do fanatismo. Se não existe uma verdade última que dê sentido às decisões fundamentais de nossa vida e a seu sentido mais profundo, os cidadãos podem ser utilizados como meros instrumentos pelo poder do mais forte” [1].

Por outro lado, perguntemo-nos como uma criança ou um adolescente muda sua visão sobre a realidade e sobre a cultura quando a internet, os jogos eletrônicos, a realidade virtual, as redes sociais ou os celulares são parte comum ao dia a dia deles. Não há dúvidas, pois, que há mudanças não só na linguagem das novas gerações, senão no contexto cultural e antropológico. 

Entretanto, diante dessas transformações provocadas pelas novas tecnologias, nossa missão é a mesma. Para usar as palavras do Beato João Paulo II diríamos que somos chamados a concretizar a Nova Evangelização, nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão; cumprindo, neste novo contexto social e cultural, a tarefa que Nosso Senhor deu aos apóstolos e por eles a todos os pastores da Igreja: “apascenta minhas ovelhas” (cf. Jo. 21,15-19), “Ide por todo o mundo e anunciai a Boa Nova a toda a criatura” (Mc 16,15).

É certo que, em muitos lugares do Brasil, ainda existem comunidades vítimas da exclusão e da pobreza, também digital, e que tantas das situações expressadas sobre as novas tecnologias de comunicação, aparentemente não encontrem eco; sobretudo em contextos onde as novas tecnologias da comunicação não são acessíveis; entretanto devemos estar atentos e percebermos que as novas gerações e muitíssimos jovens já trilham o caminho digital pois estão cercados por essa cultura.

De toda forma, é muito necessário valorizar mais uma vez o serviço prestado pelos meios de comunicação tradicionais como as rádios católicas, os jornais e boletins. Pensemos que o número de rádios católicos do Brasil é muito maior se comparado com o número de rádios católicas de todo continente africano. Contudo, aquilo que, sem dúvidas, caracteriza positivamente essa realidade no Brasil é a capacidade que se tem, aqui, para realizar “associações” e “redes” pelas quais se coordena o serviço à comunidade unindo esforços e experiências. Como já mencionei no início, o serviço de Evangelização e promoção humana ao qual se ocupam redes de televisão distintas, é exemplar pois é feito com alto grau de profissionalismo. 

Entretanto, essas iniciativas de comunicação dentro da Igreja necessitam adequação às novas características culturais que estão em movimento contínuo provocadas pelas novas tecnologias.  Portanto nossa linguagem se adequará aos novos idiomas que nascem dentro da cultura digital; de certo modo o desafio é aprender novas formas de falar de Deus ainda que os pilares do Anúncio do Evangelho e o signo de comunicação permaneçam imutáveis. Não se trata de fazer proselitismo ou conceber os meios de comunicação como autofalantes; senão de serem sinais da busca de Deus e do encontro entre Deus e a humanidade.

"… a cultura moderna, assenta-se, todavia, antes dos conteúdos, no próprio feito da existência de novas formas de comunicar que utilizam novas linguagens, serve-se de novas técnicas e cria novas atitudes psicológicas. Tudo isso desafia a Igreja, chamada a anunciar o Evangelho à toda humanidade do terceiro milênio, conservando seu conteúdo inalterável, mas fazendo com que ele também seja compreensível graças aos instrumentos e modalidades afins à mentalidade e à cultura de hoje [2]".

Assim a atitude dos Pastores de uma Igreja Mãe e Mestra será tornar-se diáconos desta cultura, ou como nos recordou o Santo Padre Bento XVI, alentar “os responsáveis pelos processos comunicativos, de todos os níveis, a promover uma cultura de respeito pela dignidade e promover o valor da pessoa, um diálogo arraigado na busca sincera da verdade, da amizade que não é um fim em si mesma, senão capaz de desenvolver os dons de cada um para colocá-los ao serviço da comunidade humana. Deste modo, a Igreja exerce o que poderíamos definir como uma “diaconia da cultura” no atual “continente digital”, percorrendo seus caminhos para anunciar o Evangelho, única Palavra que pode salvar o homem” [3]

Divido com vocês  – e lhes proponho -  três pontos de referência:

- diálogo.

- o mistério da existência: daqui nascem as grandes perguntas sobre o sentido da vida, o amor, o mal, a dor, a verdade, a comunhão.

. o mistério do ser: não apenas do ser humano.

Quero concluir dizendo que esta foi minha experiência pessoal quando cheguei ao Pontifício Conselho para as Comunicações, assim que visitei vários continentes e tornei-me testemunha do entusiasmo com o qual tantos agentes pastorais da comunicação intentam evangeliza; ao conversar com tantos bispos que nem sempre encontram um caminho fácil para fazer escutar a voz dos sem voz; especialmente, ao constatar em primeira pessoa o serviço e a necessidade da comunicação que é realizada na Igreja Católica; pouco a pouco também eu fui entendendo que a comunicação não é somente um problema dos meios, mas de uma visão transversal da própria missão da Igreja, e da atualidade para viver a comunicação e ser comunicação. Com essa motivação iniciamos, hoje, - com entusiasmo e esperança – este primeiro seminário para os bispos do Brasil.

Dom Claudio Maria Celli

Notas:

1. Centesimus annus, 46; Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 407.

2. Palavras do Papa Bento XVI ao receber os participantes na assembleia plenária do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais   29-10-2009

3. idem.