Dom João Braz de Aviz: "Tem muita autoridade dentro da Igreja que é dominação. Eu sou testemunha disso".

Trechos da entrevista que o cardeal Dom João concedeu à revista Cidade Nova no mês de Setembro desse ano

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 2045 visitas

De uma cidadezinha de oito mil habitantes, Mafra, SC, o Cardeal Dom João Braz de Aviz atualmente é o brasileiro que exerce o mais alto cargo na Cúria Romana, como Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.

No mês de Setembro desse ano o prelado concedeu uma entrevista à revista Cidade Nova na qual tratou vários temas, dentre os quais a situação da Igreja, o Papa Francisco, a reforma da cúria, a formação católica, entre outros.

Escolha do Papa Francisco

Sobre a eleição do Cardeal Bergoglio ao pontificado, o prelado disse à Cidade Nova que foram os cardeais que escolheram o Papa, mas “acima de tudo é o espírito de Deus que trabalha nos bastidores”.

Justamente nesse momento em que “precisamos uma Igreja muito próxima do povo”, Deus enviou “um papa que nos diga que a misericórdia de Deus vem antes do juízo, porque a misericórdia nos salva”.

Sem fazer nenhuma comparação com o Papa Bento XVI, que "deixou um patrimônio enorme de doutrina muito clara", disse, com esse Papa, nesse “sentido a figura do Papa muda bastante”, porque Francisco é “simples, despojado, simplifica as estruturas: não as destrói e nem as rejeita, mas simplifica”.

Por exemplo – afirmou Dom João - antes “para chegarmos ao Papa era preciso passar por 14 pessoas”. Agora é “tudo muito rápido, direto”. E continuou: “Eu estou me acostumando a receber bilhetes do Papa: ‘Querido irmão, sobre isso não sei como se faz, me ajude!’. Ou ele nos telefona. Assim ele acompanha todos os problemas diretamente. Isso foi uma das coisas que nós, cardeais, pedimos ao Santo Padre: que essa relação fosse direta”, explicou o prelado.

Reformas da cúria

“As mudanças já começaram. Agora estamos consultando muitas pessoas para essa reforma”, disse. O Papa está muito atento ao Instituto para as Obras de Religião (IOR).

“Um outro pedido dos cardeais foi que a Secretaria de Estado pudesse voltar à sua identidade original”, no sentido de ajudar “o Santo Padre em muitas questões”, mas sem ter “uma ingerência muito forte dentro das congregações romanas, porque esvazia a autoridade de quem está ali e esse é um problema que nós sentimos muito”. Nesse sentido o cardeal disse que é possível que os órgãos sejam simplificados.

Igreja do Brasil

O prelado falou também à revista Cidade Nova que é a primeira vez que ouviu o Papa dizer que o brasileiros não devem uniformizar tudo na CNBB. “Vocês, brasileiros, têm uma riqueza tão grande no povo, o Brasil tem regiões tão bonitas... Vocês não podem uniformizar tudo numa única linha da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) em Brasília. É preciso que haja uma coordenação da Igreja, mas também é preciso que cresça a diversidade das regiões. Ou seja, façam as duas realidades caminharem juntas”. Tema esse que, de acordo com o prelado, será ainda muito discutido na próxima Assembleia Geral da CNBB.

JMJ

Comentando a vinda do Papa à JMJ, Dom João destacou que o Papa se comportou no Brasil “de uma maneira tão próxima, que agente quase pensou que ele era brasileiro”. Um dos pontos que mais tocou o cardeal foi quando o Papa disse que “neste momento não podemos ficar pensando em matéria de doutrina aqui, está certo ou errado”. É a imagem do campo de batalha, onde o mais importante é salvar vidas.

Igreja como família, homem/mulher, autoridade e imaturidade

A Igreja tem que se “tornar uma família de irmãos, por enquanto ainda está formada de classes e isso não é bom, porque a Igreja não é assim. Jesus não pregou classes, Jesus pregou essa comunhão profunda entre nós”.

“Acho também que deveria melhorar muito a relação homem/mulher. Uma moral muito estreita, muito dura, acabou fazendo a mulher desconhecer o homem e o homem desconhecer a mulher. Nós não nos conheceremos: ou nos oprimimos, nos exaltamos, ou nos usamos. Nós deveríamos nos complementar, porque a Bíblia diz que Deus criou o homem e a mulher, não criou nem só mulher e nem só homem”.

“Autoridade e obediência, a meu ver, estão entre as grandes coisas que irão mudar e se adaptar. Não tem que mudar o valor da obediência e nem da autoridade, tem que mudar o modo de ser feito, porque tem muita autoridade dentro da Igreja que é dominação. Eu sou testemunha disso. A autoridade não pode colocar uma pessoa acima da outra, autoridade só pode ser de irmãos que têm missões diferentes, mas são irmãos. Quem manda e quem obedece está no mesmo nível”.

“Nós não podemos passar um verniz de místico, espiritual, em cima da imaturidade humana. Tem que ter maturidade, tender ao amadurecimento como fruto da fé, porque se nós não formos competentes em desenvolver todos os valores verdadeiramente humanos, masculinos e femininos integrados, será muito difícil que possamos integrar uma dimensão de fé”.