Dom Kondrusiewicz: a Igreja não pode dormir

Arcebispo de Minsk pede que não cedamos ao secularismo

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MINSK, terça-feira, 24 de agosto de 2010 (ZENIT.org) - Hoje as pessoas buscam a fé; portanto, a Igreja não pode dormir! Deveria responder a tempo a esta demanda, antes de que seja tarde demais. Este é o pensamento de Dom Tadeusz Kondrusiewicz, arcebispo de Minsk-Mohilev (Belarus, antiga Bielorrússia - N. do T.), em uma entrevista concedida à agência católica KAI e à qual ZENIT teve acesso.    

Ainda que a Igreja em Belarus esteja prosperando nestes 20 anos, desde que se restaurou a liberdade religiosa, agora os fiéis devem estar atentos frente aos ventos do secularismo, segundo o prelado.

ZENIT: A Igreja em Belarus precisa de ajuda de fora?

Dom Kondrusiewicz: Sim, especialmente agora que estamos recebendo muitas autorizações para erigir templos, em primeiro lugar na arquidiocese de Minsk-Mohilev. Também precisamos de ajuda, porque ainda não temos sacerdotes suficientes. Há 20 anos, haveria cerca de 60 sacerdotes nascidos em Belarus, mas hoje seu número chega a 290. Em geral, temos 460 sacerdotes e ainda um terço deles vem de fora. A mesma situação ocorre com as religiosas.

ZENIT: Como o senhor concebe a piedade dos fiéis de Belarus 20 anos depois de terem recebido a liberdade religiosa?

Dom Kondrusiewicz: Nos primeiros anos, houve uma explosão religiosa. Hoje, temos de cuidar e desenvolver o que já alcançamos. Podemos ver que as correntes do secularismo estão chegando também a nós, ainda que talvez não tão fortes como no Ocidente...

O problema é que em Minsk só existem 4 santuários católicos. Este número é muito pequeno, é preciso construir mais templos. Temos 8 lugares para a construção de novas igrejas, 4 capelas já foram construídas.

Recentemente, nos dias 1º e 2 de julho, a cidade de Braslaw acolheu festividades em honra da Mãe de Deus de Budslaw, com participação de milhares de pessoas, o que acontece muito raramente neste país. Durante 5 dias, um grupo de peregrinos da catedral de Minsk esteve viajando até o lugar; os de Baranavichy demoraram mais ainda. Para eles, não foi somente um tempo de oração e meditação, mas também um testemunho para os outros.

As peregrinações estavam muito bem organizadas, a polícia ia na frente e também havia ambulâncias. O que é impressionante é o grande interesse dos jovens que, por um lado, estão vivendo sua própria vida, sendo o grupo mais submetido às correntes secularizadoras, enquanto, por outro lado, estão buscando a espiritualidade. Nos dias 31 de julho e 1º de agosto, também a cidade de Ivyanets organizou uma reunião de oração para os jovens.

Neste ano, a procissão de Corpus Christi em Minsk, organizada ao longo das ruas mais centrais da capital, reuniu cerca de 12 mil pessoas.

Hoje, as pessoas estão em busca da fé e por isso a Igreja não pode dormir: deve dar uma resposta a esta demanda ao seu devido tempo; do contrário, será tarde demais.

Pode-se observar que os que frequentam a Igreja, que participam dos serviços de maneira regular, têm uma fé forte, que está crescendo, porque estão buscando respostas a numerosas perguntas propostas pelo mundo moderno. Pode-se ver que as pessoas leem a Sagrada Escritura. Em muitas paróquias da arquidiocese, organizam cursos de Bíblia, que têm grande popularidade entre os paroquianos.

Nota-se que a fé das pessoas não é superficial. O que me deixa maravilhado é que não se baseia somente no conhecimento obtido nos livros, mas também na tradição. Eu sou partidário da combinação do velho e do novo. O "velho" é extremamente importante. Devido a uma oração tão simples como o terço, as pessoas conservaram a fé e a transmitiram às seguintes gerações. Eu mesmo aprendi a fé dessa forma. Na minha época, não havia catequistas. Uma idosa reunia as pessoas e lhes ensinava. E eu via que meus pais participavam das orações. Ainda que não houvesse nenhum sacerdote, aos domingos íamos à igreja. Não havia ninguém perto para celebrar uma Missa, mas rezávamos as ladainhas, o terço, a via sacra.

É isso que acho insuficiente nos dias de hoje. Os pais não levam seus filhos à Igreja. Uma vez vi com que satisfação uns pais levavam seus filhos, num domingo de manhã, ao Palácio de Esportes para jogar hockey. É um esporte que está na moda, já que o presidente gosta. Mas... os pais levam seus filhos à igreja com a mesma alegria? Infelizmente, nem sempre.

ZENIT: Durante a visita passada do Patriarca Kirill à Ucrânia, observou-se que ia tomar o título de Patriarca de Kiev, o que demonstra que a Igreja Ortodoxa Russa não é somente russa, mas tem um caráter universal, como a Igreja Católica Romana. Estas tendências são percebidas em Belarus?

Dom Kondrusiewicz: Muitos meios de comunicação falaram disso. Além do mais, há muitas interpretações. Mas será que o próprio Patriarca disse algo ao respeito? Eu pessoalmente não ouvi estas palavras. Inclusive fiz uma declaração de que ele não tinha esta intenção.

É um fato conhecido que há 15 igrejas ortodoxas independentes que se reconhecem mutuamente. Por exemplo, o Patriarcado de Constantinopla não está limitado somente pela Turquia; a maior parte dos seus crentes mora nos Estados Unidos. Sua jurisdição é onde vivem seus seguidores...

Em Belarus, não há problemas com isso, eu pelo menos não ouvi nada a respeito. Belarus é uma república tranquila. As relações com a Igreja Ortodoxa são muito boas e construtivas, a ajuda mútua se exerce em muitos âmbitos, organizam conjuntamente conferências, programas de caridade.

ZENIT: No ano passado, o Patriarca Kirill visitou Belarus. Quais são as probabilidades de que Bento XVI faça o mesmo?

Dom Kondrusiewicz: Não se sabe nada sobre isso. O presidente e a Conferência de Bispos Católicos enviaram seus convites. Temos de esperar a resposta da Santa Sé. O Papa disse: "Se o Senhor abre as portas para mim, vou atravessá-las". Temos de orar para que estas portas se abram.

ZENIT: Talvez isso tenha a ver com a concordata com o Vaticano... Em que fase estão os trabalhos sobre o documento?

Dom Kondrusiewicz: Estão trabalhando neste documento atualmente. Não posso dizer nada mais porque está fora da minha competência. Esta tarefa é da responsabilidade do núncio apostólico. Esperamos que este acordo seja feito. Não importa se aqui a questão tem a ver com a concordata. Deve ser um acordo entre Belarus e a Santa Sé.

[Entrevista proporcionada pela Conferência Episcopal de Belarus]