Dom Marchetto: diálogo é «motor da integração dos migrantes»

Intervenção na Universidade de San Diego (Califórnia)

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Por Roberta Sciamplicotti

SAN DIEGO, quinta-feira, 29 de janeiro de 2009 (ZENIT.org).- O diálogo é o «motor» da integração dos imigrantes nas sociedades de acolhida: assim afirmou na terça-feira passada Dom Agostino Marchetto, secretário do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes. 

O prelado interveio na Universidade de San Diego (Califórnia) sobre o tema «Religião, migração e identidade nacional», sublinhando que as migrações constituem «um dramático sinal de nossa época atormentada», «um vasto fenômeno que algumas instituições e governos querem controlar ou inclusive deter, porque não se dão conta de que se trata de um componente estrutural da realidade sócio-econômica e política da sociedade atual». 

Por isso, explicou, «é inútil tentar eliminar o fenômeno»; é necessário, ao contrário, «enfrentá-lo e concentrar todos os esforços em responder aos desafios que apresenta; e identificar os benefícios que pode oferecer», usando em primeiro lugar o instrumento do diálogo. 

Quando as pessoas migram, explicou o arcebispo, «levam consigo não só a capacidade de trabalhar e de produzir, mas também suas características pessoais, o trato, a educação, as convicções, as convenções sociais, os costumes, as tradições, as crenças, a religião, ou seja, todos os elementos estáveis e duradouros, e também os mutáveis e contingentes, que caracterizam uma cultura». 

O contraste que se verifica quando os imigrantes chegam a um país de cultura e tradição diferentes «pode desorientar, sobretudo porque o imigrante se vê diferente da maioria». 

Por esta razão, observou Dom Marchetto, «a Igreja Católica sublinhou a necessidade de preparar as pessoas para a migração, através de programas pré-migratórios de formação e instrução, para que sejam capazes de enfrentar esta situação». 

Imigrantes e sociedade de acolhida

Em um ambiente novo, os imigrantes buscam geralmente companhia e segurança em quem procede de sua própria nação e cultura, mas «se não se abrem lentamente à vida e à cultura da sociedade de acolhida, rejeitando o que crêem que põe em perigo sua identidade, podem adotar uma postura fechada, que leva à formação de guetos com seus compatriotas e, infelizmente, à sua marginalização». 

No outro extremo se situa a adoção in toto da cultura do país de acolhida, «sem sequer avaliar suas consequências sobre o próprio estilo de vida». 

«Tendo desatendido ou inconscientemente suprimido a própria identidade cultural», os imigrantes «se convertem quase em uma ‘cópia’ dos residentes locais, privando a sociedade de acolhida da contribuição enriquecedora que sua cultura teria podido oferecer-lhes». 

Frente a estas duas alternativas extremas, a melhor solução para a relação entre os imigrantes e a população do país de acolhida é «a via de uma autêntica integração, com um olhar aberto que rejeite considerar só as diferenças entre imigrantes e locais», e que esteja preparada para acolher as contribuições positivas de todos.

O «motor» deste processo, constatou Dom Marchetto, é o diálogo, porque a verdadeira integração acontece quando se verifica uma interação entre imigrantes e população local «no âmbito não só sócio-econômico, mas também cultural». 

«Quando se reconhece a contribuição positiva do imigrante para a sociedade de acolhida, através de sua cultura e de seus talentos, o próprio imigrante está mais motivado para chegar a um alto grau de interação com a população local, e isso leva a uma integração cultural saudável», revelou. 

O resultado deste diálogo, acrescenta o prelado, é «um enriquecimento recíproco das culturas, e a sociedade se transforma em um mosaico no qual cada cultura tem seu próprio lugar para compor um único desenho, que se torna mais belo à medida que aumenta a multiplicidade cultural». 

Cultura e religião

Em sua intervenção, Dom Marchetto sublinhou também a existência de «um forte vínculo cultural entre cultura e religião, como se pode ver pelo fato de que, para algumas religiõe,s a identidade religiosa e a cultura coincidem». 

«Na realidade – admitiu –, as migrações internacionais se converteram em uma preciosa oportunidade não só para o diálogo entre as culturas, mas também para o inter-religioso», porque alguns países com antigas raízes cristãs hospedam agora a sociedades multiculturais. 

Neste contexto, é necessário garantir a todos a liberdade religiosa, como expressa o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. «Se a sociedade quer beneficiar-se das migrações internacionais – advertiu o arcebispo –, deve respeitar a liberdade dos imigrantes de professar, praticar e também de mudar sua própria religião.»

Deste ponto de vista, o prelado recordou o princípio da reciprocidade, que deve ser entendido «não só como uma atitude para fazer reclamações, mas como uma relação baseada no respeito recíproco e na justiça em questões jurídicas e religiosas». 

A reciprocidade, observou, «é também uma atitude do coração e do espírito, que nos permite viver juntos com os mesmos direitos e deveres». 

Só deste modo, concluiu, poderemos ser conscientes do que o Papa Bento XVI fala em sua Mensagem para a Jornada Mundial da Paz 2009, ou seja, que «todos somos partícipes de um único projeto divino, o da vocação a constituir uma única família, na qual todos – indivíduos, povos e nações – regulem seu comportamento com os princípios da fraternidade e da responsabilidade».