Dom Marchetto: “na terra há espaço para todos”

Secretário do dicastério para os migrantes falou sobre "Caritas in Veritate"

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Por Roberta Sciamplicotti

VICENZA, quinta-feira, 8 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Na terra há espaço para todos, sublinhou o arcebispo Agostino Marchetto, secretário do Conselho para os Migrantes e Itinerantes, ao intervir nesta segunda-feira em Vicenza (Itália), sobre o tema “A encíclica Caritas in Veritate e a pastoral dos migrantes”, por ocasião do encontro promovido pela Fundação Migrantes diocesana.

Na encíclica, recordou Dom Marchetto, o Papa se refere às causas que induzem milhões de homens e mulheres a migrar, como “a extrema insegurança de vida, que é consequência da carência de alimentação”, a questão da água, da agricultura, do meio ambiente, da energia, da busca de um trabalho digno.

Outra causa de migração é a globalização que “contribuiu em grande medida” a fazer regiões inteiras saírem do subdesenvolvimento”, mas que, como escreveu o Papa, pode também “contribuir para criar riscos de danos desconhecidos até agora e de novas divisões na família humana”.

A sociedade, cada vez mais globalizada, se aproxima mas não faz irmãos. Por isso, explicou o arcebispo, é “necessário que esta maior proximidade entre as pessoas, hoje, transforme-se em verdadeira comunhão, se se quer chegar ao autêntico desenvolvimento dos povos”, que depende sobretudo do reconhecer ser uma só família.

Como afirma o pontífice (n. 50), “há espaço para todos nesta terra nossa: nela, toda a família humana deve encontrar os recursos necessários para viver dignamente, com a ajuda da própria natureza, dom de Deus a seus filhos, e com o empenho do próprio trabalho e da própria criatividade”.

A relação entre migrações e desenvolvimento, reconheceu Dom Marchetto, é “bastante complexa”, porque “não é linear a relação causa-efeito entre os dois termos do binômio”.

Se por um lado, explicou, “se considera que a falta de desenvolvimento na terra de origem gera migrações, porque ali é difícil assegurar uma vida digna, ou inclusive satisfazer as fundamentais necessidades de sobrevivência, para si e para a família”, por outro, “a migração pode também gerar uma falta de desenvolvimento, que se faz muito difícil se o país originário é privado dos melhores recursos humanos, aptos para dar uma contribuição significativa à produção local e aos processos relacionados com ela”.

O prelado recordou as diversas situações dos migrantes, muitos dos quais estão “altamente qualificados e são competentes”, situação que provoca nos países menos desenvolvidos a chamada fuga de cérebros.

“O que dizer daqueles que fugiram de sua terra natal por causa de guerras, violências ou perseguições por motivos políticos, étnicos, religiosos ou por suas convicções? Ou de quem se afastou de catástrofes ambientais naturais ou provocadas pelo homem?”, perguntou.

Viver em uma sociedade diferente da própria é “um verdadeiro desafio para o imigrante”, que se encontra frente às dificuldades materiais cotidianas e a uma “questão candente, que poderia inclusive desorientar: a integração”.

“Quando se fala de integração, significa que o imigrante deve adaptar-se ao modelo de vida local, até converter-se em uma cópia do autóctono, descuidando das próprias legítimas raízes culturais?”, perguntou Dom Marchetto, sublinhando que se assim fosse “seria assimilado e não integrado”.

A assimilação, constatou, representa um empobrecimento também das sociedades de acolhida, “porque a contribuição cultural e humana do imigrante à sociedade que o acolhe e é desse modo minimizada se não anulada”.

Se os migrantes devem “sem dúvida” dar “os passos necessários para ser incluídos socialmente no lugar de destino”, este processo deve contudo “respeitar a herança cultural que cada um leva consigo”.

A integração, concluiu Dom Marchetto, não é “um caminho de sentido único, não é caminho a percorrer sozinho pelo imigrante, mas também pela sociedade de chegada, que, em contato com ele, descobre sua ‘riqueza’, acolhendo os valores da cultura”. 

Ambas partes devem portanto estar dispostas a empenhar-se, “já que o diálogo é motor da integração e isto pressupõe uma relação recíproca”. 

Só deste modo, como recordou o Papa em sua encíclica, se poderá “dar forma de unidade e de paz à cidade do homem e fazê-la em alguma medida antecipação prefiguradora da cidade sem barreiras de Deus”.