Doutrina da Igreja sobre o homem, “luz para o mundo moderno”

Entrevista com o professor de antropologia Juan Luis Lorda

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Por Patricia Navas 

NAVARRA, quarta-feira, 14 de julho de 2010 (ZENIT.org) – Mostrar o que realmente é a pessoa humana é “luz para o mundo moderno”, um dos principais desafios da Igreja hoje, o fundamento de seu diálogo como mundo e um aspecto básico da nova evangelização.

É o que explica o professor de antropologia teológica e antropologia cristã na Universidade de Navarra, Juan Luis Lorda, nesta entrevista concedida a ZENIT.

ZENIT: Que é a antropologia teológica e quais são seus grandes temas?

Juan Luis Lorda: A antropologia teológica é o estudo teológico do homem. Quer dizer, o que sabemos do homem partindo da revelação de Deus, tal como o que contemplou a rica tradição de pensamento cristão, que também possui uma enorme experiência humana.

Esses grandes temas são: que o homem é um ser feito para Deus, que está destinado a se identificar com Cristo, que tem uma dignidade particular que é o fundamento da moral, que há uma realidade do pecado na história humana e em cada pessoa, que há uma salvação e renovação em Cristo: isso é a graça.

ZENIT: Que lugar ocupa a antropologia no diálogo da Igreja com a modernidade?

Juan Luis Lorda: A antropologia é a base do diálogo da Igreja com a modernidade. João Paulo II disse, já em seu primeiro discurso ao iniciar seu pontificado, que a apresentação atual do cristianismo tem a ver com a ideia do homem.

A antiga apologética cristã, a defesa, converte-se em uma apresentação do cristianismo, que responde aos desejos mais profundos da pessoa. Deve mostrar que Cristo revela o homem ao homem.

Os cristãos têm uma ideia muito elevada do que é o homem, de sua dignidade, de sua realização, de seu chamado a ser filho de Deus e viver fraternalmente na dignidade do mistério da vida e da família.

Tudo isso é luz no mundo. A modernidade tem uma ideia do homem como indivíduo livre depositário de direitos. Isto é verdade e também uma conquista histórica.

Ao mesmo tempo, se pararmos aí, é pobre. Porque a liberdade tem a ver com a verdade e está destinada à realização do homem. Uma liberdade egoísta como um fim em si mesma é uma espécie de curto-circuito vital.

Além disso, a ênfase moderna nos próprios direitos dá lugar a uma mentalidade egoísta e põe em segundo plano as obrigações e deveres em que a pessoa realiza sua vocação social e, em particular, sua vocação ao amor.

O verdadeiro amor, paradoxalmente, é entrega, doação, uma perda voluntária de liberdade. Mas nele a pessoa a pessoa e tira o melhor de si.

A entrega no matrimônio em família, na amizade sem interesse na vida social, na vida da Igreja são grandes horizontes da realização da pessoa.

Todas estas são grandes contribuições cristãs, luzes para o mundo moderno. E não devemos nos esquecer da doutrina cristã sobre o mal e o pecado.

A modernidade nasceu com uma espécie de otimismo ingênuo: acredita que pode vencer o mal dentro de nós mesmos, e fora só com a razão e a educação. Mas os cristãos sabem que é necessária a graça de Deus e o amor.

ZENIT: O senhor publicou durante o curso o manual Antropologia Teológica, que já esgotou na primeira edição. Por que escreveu este livro?

Juan Luis Lorda: É um manual que forma parte de uma coleção da Faculdade Teológica da Universidade de Navarra. Esta coleção pretende abordar todas as matérias que são estudadas na teologia.

Há 20 anos, ensinei esta matéria na faculdade; por isso me encarregaram. Custou-me muito tempo fazê-lo porque, de certa forma, esta matéria é nova na teologia. Desde meados do século XX se quis reunir o que a teologia diz sobre o homem em uma única matéria.

Já existem alguns anuais de antropologia teológica, mas a maioria ensaística. Levei 13 anos elaborando, durante esse tempo escrevi vários livros preparatórios: uma antropologia bíblica, um ensaio que se chama Para uma ideia cristã do homem e um tratado sobre a Graça.

ZENIT: Qual é a contribuição mais original?

Juan Luis Lorda: Parece-me que é novidade a síntese geral e a ordenação da matéria. O tema central do livro é o mistério pascal, que é a máxima revelação de Deus em Cristo e serve para centrar muito bem todo o discurso cristão sobre a graça.

Temos de levar em conta que, no século XX, houve duas grandes contribuições para a antropologia teológica: a Constituição Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, e o pontificado de João Paulo II, que foi muito fecundo.

João Paulo II aprofundou o fundamento da moral na antropologia; tanto nos aspectos de moral fundamental, como na dignidade do homem e o sentido da vida, como nos de moral sexual e os da moral social.

Além disso, pensava que a ideia cristã sobre o homem era um caminho de evangelização.

O livro possui duas partes: a apresentação da ideia cristã do homem e a transformação em Cristo pela graça.

Ele presta muita atenção à teologia patrística e aos exponentes principais do pensamento cristão antigo, o que é importante para o ecumenismo. Faz um esforço de compreender bem as posições para superar mal-entendidos.

Também inclui aspectos pontuais da doutrina da graça que formam parte da experiência cristã, a sabedoria cristã adquirida por meio da história.

ZENIT: Um dos temas que o manual explora é a dignidade da sexualidade humana. O senhor destaca no livro que “com sua fecundidade, o homem transmite a imagem de Deus” e que “esta é a razão pela qual a sexualidade humana está regida por leis morais tão graves”. Como se pode transmitir esta mensagem na sociedade ocidental atual?

Juan Luis Lorda: É um bonito desafio e um dever. Os cristãos tem uma ideia muito elevada do que é o homem, do que é a vida e, por isso mesmo, da sexualidade, da fecundidade humana, do matrimônio e da família. Também do celibato.

Sabemos que tudo isto responde ao desejo de Deus e isso nos dá muita segurança. A moral sexual cristã se apoia também na própria evidência natural da sexualidade, na realidade do amor conjugal e da família como comunidade natural humana. É o livro da natureza, que Deus também escreveu. É a verdadeira ecologia humana.

Em contrapartida, a revolução sexual que o Ocidente viveu baseia-se em uma grande quimera antiecológica: que o homem pode mudar a si próprio como quiser; e especialmente, a sexualidade.

Não deixa de ser curioso que a cultura ocidental seja tão ecológica e tão naturalista quando se trata da alimentação, e, pelo contrário, quer ensinar as crianças que o sexo é algo que depende totalmente da liberdade pessoal.

Nós sabemos que não é assim: que é uma fundação biológica com uma ordem natural, que tem uma relação profunda com o amor conjugal, que tem a dignidade de transmitir a vida humana, que funda a família.

Por isso, é uma realidade que merece o máximo respeito. Dizia um sensato autor, Sheed, que a vida é sagrada, por isso o matrimônio é sagrado e o exercício da sexualidade humana também tem algo de sagrado.

Em tudo se exerce a dignidade da pessoa. Isso explica a moral sexual cristã que não é repressiva do sexo, mas que, realmente, o considera algo maravilhoso.

ZENIT: Nesse ponto de seu livro, afirma que estamos experimentando um “retrocesso cultural”. Ao que isso se refere?

Juan Luis Lorda: À perda do valor da família nas sociedades ocidentais. É um espaço de suicídio e talvez não seja a primeira vez que é produzido na história.

Na cultura política está se impondo um liberalismo libertário. Inclusive a esquerda acolhe este discurso, depois de que, com a queda dos regimes comunistas, desapareceu a teoria econômica e social socialista.

O liberalismo clássico tinha duas vertentes: um liberalismo econômico, que pretendia eliminar as barreiras e fronteiras com a produção industrial e o comércio; e um liberalismo político, que protege e aumenta as liberdades políticas das pessoas.

A partir de 1968 chegou um novo liberalismo sexual. Esse é o liberalismo libertário. A defesa do sexo usado de qualquer forma. Isso afetou profundamente a família, que é a base da civilização.

ZENIT: Em que medida a antropologia cristã está envolvida atualmente na nossa cultura?

Juan Luis Lorda: O cristianismo forma parte, e muito importante, de nossa cultura. Não gosto quando se fala do atrito entre Igreja e mundo moderno, porque a Igreja ou os cristãos formam parte do mundo moderno.

Não só porque vivemos nele, mas também porque muitas das grandes ideias do mundo moderno estão enraizadas no cristianismo.

O famoso lema da Revolução francesa, “liberdade, igualdade, fraternidade”, expressa ideiais cristãos.

Nós, cristãos, cremos na existência real da liberdade, na qual todos os homens são iguais e em que somos irmãos porque somos filhos de Deus. Mas uma grande parte da cultura moderna atual não acredita nisso. O materialismo científico não acredita, por exemplo, na liberdade. E a biologia não acredita na igualdade ou na fraternidade. A evolução das espécies funciona porque não há igualdade e porque o mais forte se impõe.

Uma grande parte da cultura moderna já não é capaz de sustentar seus fundamentos, porque não acredita neles. Menos ainda acredita no valor ou dignidade da vida humana.

A extensão do aborto é uma prova que se impõe na utilidade sobre o valor: faço o que quero ou o que me convém, acima do que é valioso, do que devo, do que é bom.

No fundo, muitos defendem que o homem, cada homem, é somente um pouco de matéria casualmente organizada. Nós acreditamos que é um grande valor.

Os cristãos são os grandes humanistas da cultura moderna, ainda que não sejamos os únicos, porque muita gente com sentido comum e com sentido da beleza ou da justiça compartilha estas convicções.

ZENIT: Como aborda as questões da bioética como a clonagem ou o transhumanismo na compreensão tradicional do que é o homem?

Juan Luis Lorda: Parece-me que não tratam de entender melhor o homem, mas que querem usá-lo. Não focam no tema da dignidade humana, mas da utilidade. Por isso, não lhes importa gerar milhares de embriões humanos e deixá-los em refrigeradores com alguma finalidade posterior ou até mesmo para testes cosméticos.

É missão de todos, mas especialmente das pessoas mais comprometidas, defender diante disto a dignidade humana. Não é só coisa de cristãos. Como dissemos, compartilhamos estes valores com muitos que acreditam na existência da justiça, beleza, do amor humano e da dignidade humana.

ZENIT: Como a Igreja enfrenta o desafio de manter e aprofundar o conceito de “pessoa humana” no futuro?

Juan Luis Lorda: Pode-se dizer que a Igreja é a grande defensora da dignidade humana. Graças a Deus, compartilhamos esta preocupação com muitos homens de boa vontade.

Nós acreditamos que a dignidade humana se baseia em que o homem é imagem de Deus. Nem todos sabem, mas percebem de alguma forma ao ver as manifestações da bondade humana: inteligência, moral, sentido estético... com isso alcançam compreender algo da dignidade humana.

Diante disso, nós encontramos pessoas que têm uma mentalidade materialista, que acreditam que o homem é uma acumulação de matéria e, portanto, é a mesma coisa destruir um monte de areia ou uma pessoa, praticamente.

Também há pessoas que sacrificam tudo para sua utilidade, a sua conveniência. Isso é a essência da imoralidade. Por isso, não respeitam a dignidade, nem de sua pessoa nem de nada.