Doutrina Social da Igreja: inspiração para empreendedores

Entrevista com o presidente da fundação Centesimus Annus-Pro Pontifice

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Nieves San Martín

MADRI, sexta-feira, 16 de novembro de 2012 (ZENIT.org) - A Fundação Centesimus Annus-Pro Pontifice nasceu da carta homônima do beato João Paulo II, de 1º de maio de 1991. A referência indica a ideia inspiradora e o objetivo: uma especial adesão aos ensinamentos pontifícios na área social e um convicto apoio às numerosas iniciativas de caridade do santo padre. Seu presidente, Domingo Sugranyes Bickel, afirma que a doutrina social da Igreja é uma inspiração fecunda para empreendedores e profissionais.

Em entrevista exclusiva concedida a ZENIT, Sugranyes Bickel explica as iniciativas da fundação, seus beneficiários e suas atividades formativas, entre as quais um curso online em italianosobre a doutrina social da Igreja.

Domingo Sugranyes Bickel, de nacionalidade espanhola, nasceu em Friburgo, na Suíça, onde estudou ciências econômicas e políticas. Casado, tem três filhos e reside em Madri. Pertence desde 1969 à UNIAPAC (International Christian Union of Business Executives), da qual foi secretário geral entre 1974 e 1981 e presidente de 1997 até 2000.

ZENIT:A ideia original da fundação é mobilizar empreendedores e profissionais de todos os campos da atividade social ou somente da área econômica?

Domingo Sugranyes: A Fundação Centesimus Annus-Pro Pontifice,em sua faceta de debate e formação, é um lugar de encontro, de diálogo e de oração para profissionais do mundo econômico que queiram refletir sobre a sua atividade do ponto de vista da fé e manifestar explicitamente o seu vínculo com a sé apostólica, como fonte inspiradora de mensagens mais atuais do que nunca no contexto econômico difícil de hoje.

Cito Bento XVI na Caritas in Veritate: “O desenvolvimento dos povos é considerado com frequência como um problema de engenharia financeira, de abertura de mercados, de diminuição de impostos, de investimentos produtivos, de reformas institucionais... Mas deveríamos nos perguntar por que as decisões de tipo técnico vêm funcionando até agora só até certo ponto. A causa é muito mais profunda... O desenvolvimento é impossível sem homens retos, sem operadores econômicos e agentes políticos que sintam com força, em sua consciência, o chamamento ao bem comum” (n. 71).

Esta mensagem é dirigida a “todos os homens de boa vontade” e, em primeiro lugar, aos seguidores de Jesus Cristo. É preciso um diálogo profundo, sereno, mas concreto, que não tema os aprofundamentos: existem aspectos éticos em qualquer tema técnico. É isto o que esta fundação promove, com a participação ativa de profissionais, em contato com sacerdotes, filósofos e teólogos morais, e também com economistas teóricos. Não entramos em outros campos, como a bioética, por exemplo. Mas entramos na área da família e da educação, sempre do ponto de vista econômico.

ZENIT:Qual é o alcance atual da Centesimus Annusna promoção de projetos de ação direta com beneficiários concretos?

Domingo Sugranyes: A fundação tem membros em dez países. Os encontros, os grupos de trabalho e os cursos são abertos tanto a membros quanto a qualquer pessoa interessada. Também lançamos um Prêmio Internacional para recompensar obras significativas de aprofundamento, de aplicação e de difusão da doutrina social da Igreja, que será concedido pela primeira vez em 2013. A seleção está sendo feita por um júri muito qualificado, presidido pelo cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique. Outra faceta da fundação é a angariação de fundos para obras de caridade do santo padre e para sustentar iniciativas da Santa Sé.

ZENIT:Que atividades de educação formal e não formal, na doutrina social da Igreja, são promovidas pela fundação?

Domingo Sugranyes: Para a formação contínua dos membros e simpatizantes da fundação, reunimos grupos diocesanos com um padre que os assiste e ajuda a refletir e percorrer o caminho espiritual proposto pela doutrina social. Como atividades formais, a fundação vem organizando cursos em italiano para profissionais leigos, em parceria com a Pontifícia Universidade Lateranense (duração de dois anos, com um fim de semana por mês), além de cursos de doutrina social para sacerdotes. Nos Estados Unidos há cursos parecidos em inglês, em parceria com a Catholic University of America, de Washington.

Também inauguramos, este ano, um novo instrumento de formação, muito necessário para atingir um público mais amplo: é um curso a distância (e-learning). Em todas estas atividades, procuramos o caminho participativo: partindo das raízes na fé, tentamos refletir sobre diversos aspectos da atividade econômica para descobrir onde e como a doutrina social pode orientar a atividade, em um sentido ou em outro.

 ZENIT:Qual é a sua projeção nos países de língua espanhola?

Domingo Sugranyes: Na Espanha existem capítulos diocesanos da fundação em Barcelona, Madri, Málaga e Valência, e esperamos criar outros. Temos o projeto de um encontro com o maior eco público possível no segundo semestre do próximo ano, possivelmente em Valência. Na América, por enquanto, só existem contatos pessoais isolados. É importante notar que a fundação não pretende competir com nenhum movimento existente, muito menos substituí-lo. O nosso trabalho é basicamente de formação, para todo tipo de profissionais, não exclusivamente para empresários e altos executivos, e pode ser perfeitamente complementar a outras iniciativas.

ZENIT:Pode detalhar mais sobre o sistema dee-learning?

Domingo Sugranyes: O nosso curso online está disponível desde o começo de novembro, com inscrições abertas para a versão em italiano. O participante pode entrar quando quiser. A inscrição é feita pela internet com cartão de crédito. São 350 euros para todo o curso. O curso tem doze módulos formativos, num mínimo de 12 meses, com interação obrigatória e tutoria. Quando o participante envia seu feed-back, começa o módulo seguinte, no final de cada mês. Os módulos contêm um texto básico breve, indicações bibliográficas e perguntas que o participante é convidado a responder. O curso pode ser feito de forma individual, é claro, mas pode servir também como roteiro para um trabalho em grupo. No conteúdo, nós trabalhamos em primeiro lugar com dom Sergio Lanza, professor de filosofia e inspirador de gerações de estudantes da Pontifícia Universidade Lateranense e da Università Cattolica del Sacro Cuore. Ele faleceu faz poucos meses. O caminho procura ser indutivo e participativo: parte-se de uma reflexão pessoal de fé e vai-se percorrendo uma série de aspectos diversos da vida e das instituições econômicas, como a família, a empresa e o risco, o trabalho e a tecnologia, a responsabilidade social, a propriedade privada e o mercado, a interdependência global e os mercados emergentes... Até desembocar nos princípios da doutrina que, nessa altura, devem ser vistos como inspiração fecunda e não como enunciados teóricos ou genéricos. Cada capítulo foi preparado por um especialista, tudo sob a coordenação do professor Flavio Felice, da Lateranense. Nos próximos meses vamos continuar trabalhando para fazer adaptações do curso em inglês e possivelmente em espanhol.