É importante revalorizar os Padres da Igreja

Entrevista com o bispo espanhol Raúl Berzosa

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Por Miriam Díez i Bosch

ROMA, segunda-feira, 7 de julho de 2008 (ZENIT.org).- «É importante revalorizar a verdadeira e genuína antropologia cristã a partir do que supõe a encarnação de Jesus Cristo: somos corpo; somos alma; somos dualidade inseparável de carne e espírito.»

Foi o que explicou Dom Raúl Berzosa nos exercícios espirituais aos bispos espanhóis deste ano; e agora, a editora Montecarmelo publicou o retiro sob o título «Orar con San Ireneo» («Orar com Santo Irineu»). Nesta obra, o bispo auxiliar de Oviedo (norte da Espanha) reforça a importância de recuperar os Padres da Igreja como «bússola» para devolver ao cristianismo sua essência e não deixá-lo cair em manipulações.

O senhor propõe uma volta «às fontes genuínas da Tradição», agora que estamos numa época de «ultramodernidade», em que o relato cristão parece perder-se em um «novo neopaganismo». O que um padre da Igreja como Santo Irineu oferece neste contexto?

–Dom Berzosa: Ele oferece pelo menos 3 realidades: primeiro, os Padres da Igreja recordam que a Igreja primitiva também vivia em uma situação de paganismo e soube proclamar o cristianismo com frescor e com obras. E foi digna de confiança.

Segundo, os Padres da Igreja são como a bússola certeira, doutrinal e moral, para não perder-nos, em cada época histórica, em modas e em formas de vivência pseudocristã.

E terceiro, os Padres da Igreja nos mostram, como nos recordou o Papa Bento XVI, que o cristianismo não é teoria, ideologia, utopia ou boas intenções, mas vida e testemunho de pessoas realizadas. Os Padres são o cristianismo feito «vida e realidade». E mostram que o cristianismo realiza a pessoa e faz que as pessoas vivam em plenitude.

O cristianismo está deixando de ser vivido em sua essência e o senhor sugere que se recupere o tema da «unção da carne pelo Espírito». Como poderia se expressar isso em palavras compreensíveis para os jovens?

–Dom Berzosa: Seria recuperar o enorme valor de cada um de nós e da humanidade em seu conjunto: fomos pensados, amados e queridos a partir do Homem Jesus. E nossa meta é abraçar com nossa carne o próprio Deus, vê-lo com nossos olhos e senti-lo com nosso coração. Em outras palavras, tornar realidade o que afirmamos: Jesus, o Filho de Deus, é a verdade que dá plenitude à nossa inteligência; a beleza que dá plenitude ao nosso coração; e a bondade que torna nossas obras boas.

E quem faz «o milagre» de que possamos abraçar (e ver, sentir) Deus é o Espírito Santo, o mesmo que trabalhou por dentro a parte humana de Jesus, até fazer que todo um Deus «se acostumasse» a viver em carne humana, e «divinizasse e transformasse» essa mesma carne para torná-la digna de viver «para sempre em Deus Uno e Trino».

Em resumo, ser cristão não é senão experimentar em nosso ser, em tudo o que somos e como somos, o mesmo que Jesus experimentou em sua humanidade, graças ao Espírito: desde a encarnação até a ressurreição. O cristianismo diviniza, leva à plenitude, glorifica.

A carne dá a entender a grandeza e dignidade da criatura humana. Por que, no entanto, vê-se o cristianismo como inimigo da carne, ainda hoje?

–Dom Berzosa: Porque o cristianismo se contaminou por doutrinas gnósticas e platônicas na antiguidade, onde se via um dualismo entre espírito e carne e todo o âmbito sexual era desprezado; e por doutrinas materialistas (o homem seria uma máquina física) e espiritualistas (seria necessário libertar-se do corpo e crescer só em níveis de consciência superiores) na modernidade.

É importante revalorizar a verdadeira e genuína antropologia cristã a partir do que supõe a encarnação de Jesus Cristo: somos corpo; somos alma; somos dualidade inseparável de carne e espírito; somos espírito encarnado; somos carne espiritualizada. Com isso superaremos monismos (materialismos e espiritualistas) e dualismos (separação entre matéria e espírito).

O Papa Bento XVI voltou a recordar o que significa redescobrir e revalorizar todo o criado mediante um triplo movimento: o cristianismo, em todo o criado, encarna-se (assume-o), purifica-o (redime-o) e o eleva (até «divinizá-lo» e torná-lo digno de Deus, especialmente a pessoa humana). Pode haver algo mais belo e que valha mais a pena?...