É permitido partir a hóstia antes da Consagração?

Responde o padre Edward McNamara, L.C., professor de Teologia e diretor espiritual

Roma, (Zenit.org) Pe. Edward McNamara, L.C. | 2429 visitas

Um leitor de língua italiana enviou a seguinte pergunta para o Pe. Edward McNamara:

Pode-se fazer a “Fractio Panis” antes da consagração? - M.M., Itália

Eis a resposta dada pelo padre McNamara:

A instrução Redemptionis Sacramentum aborda no número 55 º esta questão de forma sucinta.

Diz assim: "Em alguns lugares se tem difundido o abuso de que o sacerdote parte a hóstia no momento da consagração, durante a celebração da santa Missa. Este abuso se realiza contra a tradição da Igreja e seja reprovado e corrigido com urgência"

Mais claro do que isso não é possível.

As origens deste abuso parecem ser de uma interpretação literal e um pouco dramática das palavras da instituição da consagração: “Ele tomou o pão, o partiu...”.

Isso poderia ser sintomático da nossa sociedade televisiva, na qual a imagem visiva predomina sobre o significado mais profundo. Então, alguns sacerdotes, muitas vezes de boa fé, se deixam levar e adotam um modo mais dramático ou até mesmo teatral de celebrar a Missa.

Assim, alguns se comportam como se recitassem o papel de Cristo, imitando as suas palavras e gestos.

Esse fenômeno, no entanto, poderia também ser indicativo de uma falta de formação e de uma compreensão errônea do papel ministerial do agir do sacerdote in Persona Christi e do conteúdo teológico das palavras da consagração, como forma do sacramento.

Claro que, se alguém quiser ser totalmente coerente com esta visão, deveria então logicamente distribuir a Comunhão logo depois de ter pronunciado as palavras “o deu aos seus discípulos” e assim por diante..

Até onde eu sei, ninguém ainda fez isso.

Em certo sentido, as outras partes da Oração Eucarística explicam o que é o conteúdo dentro da narração da instituição como o ponto culminante do mistério pascal de Cristo, da sua morte e ressurreição, o fulcro da história da salvação.

Durante a celebração cada elemento da consagração fica mais claro e, de certa forma, também se faz presente.

Durante o ofertório, a Igreja toma o pão e vinho, e dá graças e louvor ao Pai.

Antes da consagração, a Igreja invoca também o Espírito Santo para que intervenha como fez na encarnação de Cristo e em sua vida.

A oração imediatamente após a consagração, muitas vezes chamada de Anamnese (ou seja, "memória"), porque começa com uma frase do estilo “Pai, lembrando a morte e ressurreição...”, é de certa forma a Missa que se auto define, explicando o significado do mandamento dado por Cristo aos apóstolos “fazei isso em memória de mim”.

Esta oração mostra que o sacerdote, na consagração, está dizendo e fazendo mais do que simplesmente repetir as palavras e gestos de Cristo.

O que é lembrado e tornado presente através da história é a morte, ressurreição e ascensão para a glória de Cristo.

O mandamento de “fazer isso” significa também imitar na nossa vida a atitude de amor e total autodoação que Cristo manifestou no seu sacrifício.

Em seguida, as Orações eucarísticas normalmente invocam o Espírito Santo, para que nós possamos obter os frutos da celebração, antes de mais nada de estarmos unidos na caridade e de interceder junto a Cristo por todos aqueles que, vivos e mortos, têm necessidade da nossa oração. Isso acontece de tal forma que o objetivo geral da Eucaristia seja alcançado quando estamos unidos com os santos do céu.

Finalmente, na doxologia, reconhecemos que tudo isso é feito por, com e em Cristo, na unidade do Espírito Santo, para a honra e glória do Pai, assim como Cristo ofereceu continuamente tudo ao Pai.

Tudo isso poderia parecer uma digressão, que nos afasta do nosso tema inicial. Mas não é assim. Queremos demonstrar de fato que até que a oração eucarística não termine, o pleno significado do gesto de partir e distribuir é deturpado e não plenamente compreendido.

O gesto não é o partir e o distribuir um pedaço de pão, mas o Corpo do Senhor sacrificado, ressuscitado e ascendido na glória.

Não é uma participação a uma simples refeição, mas ao eterno sacrifício de Cristo, do qual brota a nossa salvação.

Talvez eu esteja me concentrando muito sobre o que poderia parecer um simples gesto prático, apesar de estar presente desde o início do cristianismo. Mas eu acredito que muitos desses gestos obedeçam a uma lógica interna e não podem ser adulterados sem riscos.

* Os leitores podem enviar perguntas para liturgia.zenit@zenit.org. Pede-se gentilmente de mencionar a palavra “Liturgia” no campo do assunto. O texto deveria incluir as iniciais, o nome da cidade e estado, província ou nação. Padre McNamara poderá responder somente a uma pequena seleção das várias perguntas que nos chegam.