É preciso acabar com a lógica do 11 de setembro

Andrea Riccardi analisa a situação no Oriente Médio

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Sergio Mora

ROMA, quinta-feira, 19 de abril de 2012 (ZENIT.org) - “Temos que parar de pensar que os muçulmanos querem incendiar e destruir tudo. Se esta é a vulgata, eu lamento, mas está errada”, afirmou o ministro italiano para a Cooperação, Andrea Riccardi, em conferência sobre a primavera árabe, nesta segunda-feira (16) na Associação da Imprensa Estrangeira na Itália.

O ministro recordou a importância de respeitar o mosaico das minorias e a necessidade da aderência da política às diversas realidades existentes, mas também de acabar com a “lógica do 11 de setembro”, que provocou guerras e apoios a regimes autoritários como alternativa aos governos teocráticos ou radicais.

Riccardi recordou que o Líbano teve uma democracia associativa muito antes da primavera árabe, falou do seu atual momento de dificuldade e ressaltou que a situação da Síria pesa sobre os países da região, além de destacar a importância das minorias cristãs, não somente no Líbano, como elemento primário do pluralismo democrático.

A “lógica do 11 de setembro” chega ao fim

“2011 foi o ano da mudança para o sul do Mediterrâneo”, opina o fundador da comunidade de Santo Egídio. A mudança começou no fim de 2010, na Tunísia, dez anos depois do 11 de setembro, um fato que “gerou uma hipótese de leitura geopolítica de choque entre o ocidente e o islã e que determinou ações e iniciativas políticas e visões culturais”.

“Eu acho”, prosseguiu o ministro, “que aquela visão se esgotou nestes dez anos”. Daí a necessidade de levar a democracia ao mundo árabe através de caminhos alternativos ao apoio a regimes autoritários, vistos antes como a única opção para evitar o caos, a teocracia e o islamismo radical.

“Quanto à liberdade religiosa, o êxodo dos cristãos é um fato tristíssimo, que dura desde sempre e que se acelerou com a crise. A saída dos coptas, por exemplo, nos preocupa muito. A força e a resistência do Líbano é importante para os cristãos, que são uma garantia de pluralismo”.

O Líbano, democracia antes da primavera árabe

O ministro afirmou que o Líbano “hospeda 400.000 refugiados palestinos e esteve muitas vezes no centro das crises, adoecendo pelas crises dos seus vizinhos”.

O fundador da comunidade de Santo Egídio prosseguiu: “Tive a percepção de que a situação síria tem uma influência fortíssima no panorama libanês”, já que “a coalizão hoje no poder está bem preocupada com a crise do regime de Assad”.

“Todas as autoridades religiosas que encontrei, o patriarca maronita, com seu papel particular, todos os líderes religiosos, com matizes diversos, me manifestaram a sua preocupação com o fim do regime de Assad, temendo um cenário como o iraquiano na Síria e uma consequente crise para os cristãos. Eu tenho que dizer que nem todos os cristãos pensam dessa maneira, e consideram esta opção imprudente ou errada, porque significa unir-se a um mundo que está terminando”.

Por que esta atitude dos cristãos? “Porque eles temem uma democracia da maioria, dos islâmicos, uma democracia que reduza o peso que eles têm”. O ministro recordou também que “o Líbano, graças à sua democracia associada, dá mais garantias à liberdade dos cristãos” porque está em um “processo de democracia avançado”.

Síria e Assad

A emergência síria é uma situação complexa em que o “regime das minorias”, como Riccardi define o regime de Assad, “está sendo sacudido por esta revolta”, motivo pelo qual o ministro deseja que o plano do mediador da ONU e da Liga Árabe na Síria, Kofi Annan, “seja aplicado de maneira profunda e radical”.

O futuro político do islamismo

Riccardi acredita que “é necessário levar em consideração cada realidade, pois todas as desembocaduras são possíveis, dado o desafio das eleições no Egito e da transição do regime de Assad”.

O mosaico das minorias

“Pessoalmente, estou convencido de que a presença das minorias cristãs é um elemento primário de pluralismo democrático. A Síria é um mosaico de minorias, mas o Egito também; a Tunísia um pouco menos; mas também é plural o território turco, o iraquiano e as minorias cristãs no Golfo”.

Tunísia

O ministro italiano considera que o caso tunisiano “talvez seja o processo democrático mais significativo e com mais garantias, mesmo não se tratando só de fatos políticos ou das garantias que os islâmicos podem dar, e sim de uma situação econômica incrível, com 800.000 desempregados”.

Quanto à situação do Sahel, Níger, Burkina Faso e Guiné, o ministro disse que “é necessário apoiar os países que têm uma política democrática e equilibrada nessa região, uma política laica”. E se mostrou convicto de que é necessária uma relação com os governos, mas também com os partidos políticos e com as autoridades religiosas.

Para concluir, o ministro afirmou que a política mais coerente é aquela que permite fazer “uma leitura adequada da complexidade” específica de cada país.