"É próprio da juventude o ato de reivindicar"

Conversa com Pe. Hélio Luciano a respeito das ondas de protestos que invadem o Brasil

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 690 visitas

Filósofos, analistas, jornalistas, professores, peritos, bloqueiros, autoridades civís e religiosas, até a pessoa mais simples... todos, ou melhor, a grandíssima maioria dos brasileiros trazem em seus lábios, nesses momentos, as ondas de protestos que continuam invadindo o país.

Algo que começou de forma aparentemente simples, agora, vai tomando proporções incertas, e chegando até mesmo à cidades e povoados recôndidos da nossa nação.

Numa cidadezinha do interior do Sertão pernambucano, Tabira, há 300 km de Recife, interior de PE - conforme relatou hoje a ZENIT um morador da cidade, cuja identidade prefere não revelar - os habitantes (quase todos os moradores?) saíram às ruas para protestar no último fim de semana. "Admirável e exemplar a forma pacífica da manifestação, de repente por ser cidade do interior, onde é difícil manter segredo por mais de 24hs", disse o morador.

Portanto, nessa tentativa comum e lícita de compreender o que acontece com o Brasil, ZENIT conversou hoje com o sacerdote Pe. Hélio Luciano.

Publicamos hoje a primeira parte da entrevista. A segunda parte será publicada amanhã, terça-feira, dia 25 de junho.

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ZENIT: Qual é a sua impressão sobre os últimos acontecimentos no Brasil?

Pe. Hélio Luciano: Diante de uma realidade nova sempre existe certa insegurança em dizer o que está acontecendo e o que pode vir a acontecer. Não podemos negar que existe uma insatisfação geral, mas não consigo identificar se esta insatisfação tem algum objeto concreto. Não que não existam problemas reais – corrupção, miséria, populismo, violência, falta de saúde pública, copa do mundo, etc. – os problemas existem. Mas me refiro à concreta identificação dos mesmos e a propostas de soluções.

Em entrevista, o líder do movimento “Passe Livre” afirma que a única reivindicação em comum era a redução da tarifa do ônibus em São Paulo. No entanto, se existia um consenso em relação aos 20 centavos da tarifa de ônibus, não se pode entender o que reivindicavam os “#nãosãosó20centavos”.

Basta observar superficialmente as manifestações para encontrar cartazes contraditórios e, inclusive, alguns cartazes com pedidos “politicamente incorretos” dentro da sociedade atual (confesso que alguns me agradaram muito – ou “curti”, como talvez se deva dizer atualmente).

É próprio da juventude o ato de reivindicar – mas se faz necessário reivindicar algo. A simples crítica a tudo é o mesmo que nada criticar – não traz resultados. Podemos citar os movimentos similares que ocorreram nos últimos anos na Espanha, em Paris, em Nova York – todos movidos através das redes sociais (e por isso deixaram os governos atônitos, pois não conheciam a força destas redes), mas que não levaram a nada. Podemos ver também a chamada “primavera árabe”- que ainda não descobri se é verdadeira primavera – que ainda tendo derrubado regimes tirânicos, fora utilizado politicamente para colocar no lugar dos mesmos regimes ditatoriais e teocêntricos.

Também existe no Brasil uma nostalgia de revolução – crescemos com nossos pais falando da luta contra a ditadura, das “Diretas Já”, e alguns até vimos, ainda pequenos, os “Cara Pintada”. Até que ponto foram essas revoluções que mudaram o País? A Ditadura caiu por conta da pressão popular ou porque, afastado o risco de nos tornarmos comunistas, já não havia mais interesse internacional em que a mesma se mantivesse? As eleições diretas não foram consequência do fim da Ditadura? Os “Cara Pintada” não foram apenas marionetes nas mãos de quem queria destituir um Presidente corrupto (e qual deles até hoje não foi?). Além disso, os políticos de hoje, a quem criticamos com tanta avidez – não são exatamente aqueles que participaram de todos estes movimentos? Simplesmente entraram e se adaptaram perfeitamente ao sistema.

Não sei qual o nome que se dará a este movimento atual. Mas, independentemente do nome, se não se articularem, se não estudarem e encontrarem suas reais reivindicações, temo que venha a ser um pouco “mais do mesmo”. Serão nossos pseudo-heróis – feitos heróis pelo mesmo sistema midiático que mantém a corrupção no Brasil – serão nossos futuros políticos, com um grande risco de voltar a acontecer o mesmo, ou seja, também entrarem e também se adaptarem perfeitamente ao atual sistema que criticam.