Edith Stein e a psicologia - Teoria e pesquisa

Livro organizado por Miguel Mahfoud e Marina Massimi. Prefácio de Angela Ales Bello

São Paulo, (Zenit.org) Juvenal Savian Filho | 2051 visitas

Se há algo que entusiasma os filósofos, é a articulação entre teoria e práxis, numa mútua fecundação em que o trabalho do pensamento ilumina a ação, e a ação, por sua vez, nutre e testa o pensamento. Na obra O problema da empatia, Edith Stein esclarece que, embora se fale de “sentimentos empatizados”, a análise fenomenológica da empatia não deve ser confundida com uma investigação genético-psicológica do processo empático, pois uma investigação desse tipo já pressupõe aquilo que procura descrever. A análise fenomenológica, ao contrário, deve investigar justamente aquilo que é pressuposto nas explicações genético-psicológicas, ou seja, o fenômeno na sua essência pura, livre de todos os elementos contingentes que o determinarão no seu devir histórico. Com base nessa distinção metodológica, Edith concebe a tensão positiva que caracteriza a relação entre a fenomenologia e a psicologia: a psicologia, concebida idealmente, deve partir da fenomenologia, ou seja, deve oferecer sua abordagem específica para os fenômenos investigados pela fenomenologia, ao mesmo tempo em que esta não pode ingerir na esfera de competência da psicologia. Tensão, portanto, sem antagonismo, fazendo vibrar os acordes próprios de cada abordagem, na composição de uma mesma melodia.

Um exemplo vivo desse procedimento concebido por Edith Stein é o trabalho realizado já há algum tempo por pesquisadores brasileiros, num trabalho interdisciplinar que conseguiu a proeza de articular diferentes instituições de pesquisa num âmbito muito além do mero debate intelectual. Esse grupo de pesquisadores não é pequeno, e se foi formando com lucidez e coragem em torno dos professores Miguel Mahfoud, do Departamento de Psicologia da UFMG, e Marina Massimi, do Departamento de Psicologia da USP de Ribeirão Preto. Em relação direta com Angela Ales Bello e Jacinta Turollo Garcia, Miguel e Marina abriram os ouvidos de seus departamentos para as ideias fenomenológicas, permitiram que essas ideias fossem gestadas em suas mentes e procederam a uma síntese prática em que fenomenologia, pesquisa e clínica entrelaçam-se e dão origem a uma forma concreta e nova de vincular teoria e práxis. Para este resenhista, vindo de um ambiente, digamos, eminentemente teórico, foi uma agradável surpresa conhecer o trabalho em psicologia feito pelos professores Miguel e Marina. Já conhecia o trabalho dos professores Gilberto Safra e Andrés Antunez, ambos do Instituto de Psicologia da USP, e Tommy Akira Goto, da Universidade Federal de Uberlândia. Quando ampliei meu contato e vi que a palheta de trabalhos tinha muito mais cores, foi encanto puro.

O livro Edith Stein e a psicologia – Teoria e pesquisa, organizado por Miguel Mahfoud e Marina Massimi, é a expressão cabal de um trabalho steiniano. Os próprios organizadores, na Introdução, assumem que o método fenomenológico permite apreender os fenômenos psicológicos em sua especificidade, sem reduzi-los às dimensões só corporal ou só espiritual, evitando também todo psicologismo. Além disso, seguem Edith exatamente no tocante ao fato de que a fenomenologia oferece conceitos operacionais para apreensão do fenômeno humano unitário. Como lembra Angela Ales Bello em seu instigante prefácio, “a estrutura do livro faria Edith Stein ficar cheia de alegria: ela teria visto realizado o seu projeto por parte de quem trabalha no âmbito da psicologia. Idealmente, o livro pertence a ela”.

Com efeito, a estrutura do livro segue um movimento steiniano: há três partes, sendo que a primeira estabelece fenomenologicamente os fundamentos da psicologia; a segunda trata da formação da pessoa; a terceira analisa casos compreendidos à luz do método fenomenológico. A primeira parte é de uma riqueza teórica inestimável. Parte de uma apresentação do nascimento da psicologia científica em sua relação com a concepção de psicologia de Husserl, passa pela concepção da psicologia como ciência da subjetividade e chega às apropriações steinianas do pensamento aristotélico-tomista. A segunda parte é um híbrido de teoria e prática, concentrando-se na formação da pessoa humana e analisando o modo como algumas experiências de Edith Stein possuem homologias com experiências de outros autores, como Martin Buber, Karol Wojtyla e Luigi Giussani; nesse sentido, essa parte articula a primeira e a terceira. A terceira, por sua vez, é mais, digamos, “prática”, explorando casos ligados à experiência religiosa, educativa, da prática da luta, da elaboração pessoal da tradição e mesmo da metodologia da entrevista como acesso às vivências. O leitor, ao final do livro, dá-se ainda mais conta do porquê do percurso, pois as experiências analisadas na terceira parte remetem à primeira, à fundamentação teórica, fechando um ciclo virtuoso em que o sentido que se revela no fim mostra ser o mesmo que agia desde o começo.

Para concluir, vale dizer uma palavra sobre a importância do trabalho expresso no livro: no contexto acadêmico não é comum que filósofos trabalhem em conjunto com psicólogos, nem que psicólogos estudem filosofia. Infelizmente, foi-se o tempo em que se tentavam sínteses entre pensamentos filosóficos e práticas clínicas. Gente como Lacan leitor de Hegel é algo quase inexistente nesses tempos de hegemonia do positivismo científico inclusive nas ciências humanas. Na Alemanha, Axel Honneth tem falado de Winnicott, mas não exatamente na tensão metodológica concebida por Edith Stein. No Brasil, há o trabalho de Zeljko Loparic, que lê a escola inglesa de psicanálise com lentes heideggerianas. O trabalho do grupo que se formou em torno de Miguel Mahfoud e Marina Massimi, pondo em movimento o pensamento de Edith Stein, é, portanto, de forte significação para o contexto atual. Concretiza um ideal de pesquisa, seja na academia seja na clínica, que merece ser fortalecido e divulgado.