Educação, alimento e saúde são menos acessíveis que armas

Denunciou Dom Migliore, observador vaticano na ONU

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Por Roberta Sciamplicotti

NOVA YORK, sexta-feira, 9 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Os povos do mundo inteiro “querem ver um mundo no qual a educação, o alimento, a assistência sanitária e a água limpa sejam mais acessíveis que as armas ilícitas”.

Este foi o forte apelo lançado pelo arcebispo Celestino Migliore, observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, intervindo nesta quinta-feira em Nova York, na 64ª Assembleia Geral, por ocasião do debate sobre o desarmamento e a segurança internacional.

“A sociedade civil, as organizações humanitárias internacionais, os indivíduos e sobretudo os que sofrem os conflitos armados e a violência, esperam de nós resultados tangíveis e convincentes, na esperança de ver um mundo livre das armas nucleares, com severos controles sobre o comércio de armas, que hoje está estreitamente ligado aos mercados ilícitos e provoca sérios danos à humanidade”, disse aos presentes.

Os dados, sublinhou, ainda não são tranquilizadores. Em 2008, ano em que se produziu a gravíssima crise financeira que atingiu o mundo inteiro, os gastos militares, ao invés de diminuírem, aumentaram 4%, tornando ainda mais difícil o alcance dos Objetivos do Milênio, que, entre outras coisas, propunham a diminuição da pobreza pela metade até 2015.

“Será que as pessoas podem esperar mudanças mais concretas e valentes por parte dos seus líderes?”, perguntou o prelado.

“A resposta está em nossas mãos e mostrará a determinação da comunidade internacional em buscar a paz e a segurança mundiais, baseadas na promoção do desenvolvimento humano integral”, afirmou.

Dom Migliore recordou que o artigo 26 da Carta das Nações Unidas declara que o gasto excessivo em armamento desvia os recursos humanos e econômicos de objetivos fundamentais.

O principal papel das iniciativas de desarmamento, afirmou, é o de “reduzir os gastos militares através do controle das armas e o desarmamento”.

Perguntando-se pelas “alternativas a estes gastos militares excessivos que, ao mesmo tempo, não diminuam a segurança”, o observador vaticano respondeu que uma delas é o “reforço do multilateralismo”.

Neste sentido, reconheceu que assistimos a “um novo clima político por parte dos principais protagonistas do desarmamento”, que se une ao alcance de objetivos como a adoção de uma nova convenção sobre as bombas cluster e renovados empenhos por um mundo mais livre de minas.

Nesta perspectiva, a delegação vaticana sublinhou o empenho da Santa Sé em levar adiante os trabalhos sobre um Tratado para o Comércio de Armas, que seja um instrumento vinculante para a importação, exportação e transferência de armas.

“As armas não podem ser consideradas como qualquer bem no mercado global, regional ou nacional, e seu excessivo armazenamento ou seu comércio indiscriminado – sobretudo nas regiões afetadas por conflitos – não podem ser moralmente justificados de forma alguma”, declarou.

Se, por um lado, a Santa Sé sublinha a necessidade de “políticas nacionais e acordos militares para reduzir os arsenais militares”, por outro, exorta a não esquecer “muitas questões ainda não resolvidas”, referindo-se concretamente ao fato de que, após 13 anos, o tratado para a proibição de experimentos nucleares não tenha entrado em vigor ainda, faltando novas ratificações, além dos “obstáculos persistentes” que dificultam as negociações sobre um Tratado para a abolição do material físsil.

“Muitas questões sobre o desarmamento esperam ainda uma solução definitiva – concluiu Dom Migliore. Unamos os esforços e a boa vontade, para garantir a segurança internacional e organismos multilaterais eficazes.”