Egito: clima tenso na convivência entre cristãos e muçulmanos

O tabu das uniões mistas incendeia os protestos contra os coptas

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ROMA, quinta-feira, 10 de março de 2011 (ZENIT.org) - A convivência entre a maioria muçulmana e a numerosa minoria copta continua sendo precária no Egito. De fato, basta pouco para acender o pavio e fazer estourar graves violências.

Um exemplo disso foi o assalto de uma multidão de 4 mil muçulmanos, na noite de 4 para 5 de março, à comunidade copta (quase 12 mil pessoas), na aldeia do Sol, nas proximidades de Atfih, na margem direita do Nilo, ao sul da capital, Cairo.

Como informaram no sábado as agências AsiaNews e AINA (Assyrian International News Agency), o balanço do ataque é grave: ao menos dois mortos, quatro desaparecidos (um sacerdote – padre Yosha – e três diáconos) e a igreja local incendiada.

Enquanto algumas fontes sustentam que os quatro desaparecidos teriam morrido no incêndio à igreja, outros dizem que teriam sido tomados como reféns dos muçulmanos. Segundo o ativista Ramy Kamel, da organização Katibatibia, que se colocou em contato com a emissora copta Hope Sat (com sede nos EUA), nenhum dos quatro responde às ligações aos telefones celulares.

O que desencadeou o episódio foi uma relação afetiva entre um homem cristão de 40 anos, Ashraf Iskander, e uma mulher muçulmana. Segundo os familiares da mulher, a relação lançava “desonra” sobre a família, e portanto ela e o homem deviam ser mortos. Mas ao término de uma reunião de reconciliação entre as duas famílias, o pai tinha perdoado a filha, uma decisão que levou um primo da mulher a matar seu tio. Por vingança, um irmão da mulher matou depois o primo.

A comunidade muçulmana lançou a culpa desse derramamento de sangue nos cristãos e invadiu o povoado, voltando-se em particular contra a igreja de São Menas e São Jorge. Gritando “Allahu akbar” (Deus é grande), a multidão quis explodir dentro do edifício algumas bombas de gás e destruiu as cruzes e cúpulas. Segundo testemunhas, a multidão impediu a chegada do corpo de bombeiros e barrou a polícia.

O ativista copta Wagih Yacoub referiu que durante o assalto, os agressores invadiram casas de famílias coptas e as intimaram a deixar o povoado. Algumas famílias aterrorizadas – afirma a fonte – encontraram refúgio entre seus próprios vizinhos muçulmanos.

Nos últimos anos, a violência sectária tem imposto uma dura prova à convivência secular entre muçulmanos e coptas no Egito. No dia 6 de janeiro de 2010, na vigília do Natal copta, um ataque na localidade de Nag Hammadi causou a morte de seis cristãos e um agente de segurança muçulmano.

Duríssimo também foi o balanço do atentado suicida perpetrado na igreja dos Santos (Al-Qiddissine), em Alexandria, pouco depois da meia-noite do dia 1º de janeiro, e que deixou quase 30 mortos.

Na aldeia de Shotb, em Assiut (Alto Egito), foi assassinado há menos de duas semanas um sacerdote ortodoxo copta, padre Daoud Boutros, ao que tudo indica, por um extremista islâmico.

Por sua parte, o exército egípcio colocou em marcha recentemente várias investidas contra mosteiros coptas, para destruir os muros e as valas que os monges tinham construído para se defender dos crescentes ataques de bandos, fruto da insegurança geral que domina o país após a “revolução de 25 de janeiro”, que concluiu com a queda do presidente Mubarak.

No dia 24 de fevereiro, foi danificado o mosteiro de São Bishoy, na região de Wadi el-Natroun, noroeste do Cairo. No dia 21 de fevereiro, os militares derrubaram um recinto do mosteiro de São Makarios, em Alexandria. No dia 20, a investida fora contra o mosteiro de São Paulo, no Mar Vermelho.

Apesar das demonstrações de solidariedade entre cristãos e muçulmanos por ocasião da recente revolta contra o regime de Mubarak, os coptas sentem-se cada vez mais marginalizados e cidadãos de segunda classe em seu país.

Segundo um informe governamental, o Egito tem 93 mil mesquitas e apenas 2 mil igrejas. Para os 6-10 milhões de cristãos, obter tais permissões para construir uma nova igreja, realizar trabalhos de manutenção normais ou – como no caso dos mosteiros – erigir um recinto de proteção, torna-se muito difícil.

Outro ponto complicado é a questão dos documentos de identidade, que indicam a pertença religiosa do portador, um detalhe que pode transformar a vida dos convertidos ao cristianismo em um inferno. Conseguir mudar a religião nos documentos oficiais é quase impossível ou exige longas batalhas judiciais. Isso significa que, no caso do homem, não pode sequer se casar se não for com uma muçulmana. Além disso, as mulheres muçulmanas não podem se casar com homens não muçulmanos. Precisamente este tabu estava na origem do último episódio de violência anticristã no Egito.

Nesse domingo, 6 de março, algumas centenas de cristãos se manifestaram diante da sede da televisão e da rádio estatal, no coração do Cairo, para protestar contra o assalto à aldeia do Sol e para pedir proteção adequada para a minoria cristã.

O bispo de Gizeh, Dom Anba Theodosius, definiu os responsáveis pelo ataque como “delinquentes e proscritos” que tentam criar divisão (Deutsche Presse-Agentur). Por sua parte, o chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas – que governa atualmente o país –, Mohamed Hussein Tantawi, prometeu que a igreja queimada será reconstruída antes da Páscoa (Al-Masry Al-Youm, 7 de março).

(Por Paul de Maeyer)