Egito: mulher copta assume a liderança do partido Al-Dostour

Hala Shukrallah vem lutando há anos pelos direitos das mulheres na família e na sociedade

Roma, (Zenit.org) Valentina Colombo | 371 visitas

"O importante é estar presente. Não importa se você é copta ou muçulmano, homem ou mulher, quando você acredita nos direitos dos cidadãos e tem uma visão de sociedade como um todo", declarou Hala Shukrallah em uma entrevista ao jornal egípcio Al-Ahram, depois de ser eleita para liderar o partido liberal Al-Dostour.

Apesar das palavras de Shukrallah, não é possível deixar de notar o caráter excepcional deste acontecimento: esta é a primeira vez na história da política egípcia que não apenas uma mulher, mas uma mulher copta, é eleita para dirigir um partido, com 107 de 204 votos, seguida por outra mulher, Gamila Ismail, com 57 votos, e pelo médico Hussam Abd Al Ghaffar, com 23. A vitória esmagadora a torna sucessora do fundador do partido, Mohammed El Baradei, que continuará sendo o Presidente de Honra.

O Al-Dostour nasceu em 28 de abril de 2012 com o lema "Pão, liberdade e justiça social" e com a intenção de atrair os liberais egípcios, com foco nos jovens e nos ativistas. Desde novembro de 2012, o partido se tornou membro da Frente de Salvação Nacional, uma coalizão polimórfica de ideias liberais que nasceu para se opor aos poderes desmesurados de Mohammed Morsi e da Irmandade Muçulmana.

Hala Shukrallah nasceu em 1954 e cresceu no Egito laico de Gamal Abd Al-Nasser, em que a cidadania prevalecia sobre a filiação religiosa. Tornou-se ativista política no movimento Al-Ahaly, estudou no Canadá e na Grã-Bretanha e terminou os estudos no próprio país natal, onde se dedica à atividade social e à promoção dos direitos humanos.

A conquista da nova presidente do Al-Dostour recorda a trajetória de Mona Mina, a primeira mulher, também ela copta, a se tornar presidente do Sindicato dos Médicos Egípcios, em dezembro passado. Ambas conquistaram o respeito e a confiança começando de baixo, ajudando e protegendo os cidadãos egípcios. Não por acaso, em uma das muitas entrevistas que deu nos últimos dias, Shukrallah reiterou seu desejo de continuar nessa direção: "Este partido se baseará na participação construída sobre o consenso. Vamos nos desenvolver nas várias províncias. Não seremos um partido com base no Cairo".

Esta afirmação confirma a lucidez dos seus objetivos: ela sabe que não existe consenso suficiente na população da capital e dos grandes centros urbanos. Shukrallah entende claramente que o terreno a conquistar é o das áreas rurais e das pequenas cidades. Não só isso: também está claro, para ela, que a frente liberal precisa se unir para encarar o que hoje parece ser o único binômio existente no Egito: o velho regime versus a Irmandade Muçulmana. Tendo em vista as próximas eleições presidenciais, a realizar-se nos próximos meses, Shukrallah afirma que o partido apoiará o candidato que propuser uma agenda e demonstrar uma visão democrática.

De suas palavras e da sua biografia, emerge uma mulher com ideias firmes e claras. São as mesmas características de Mona Mina, que, em 9 de fevereiro, chocou os egípcios ao anunciar a própria demissão do sindicato dos médicos denunciando o seguinte: "O sindicato precisa de um exército de pessoas unidas. Se este exército não existe ou está dividido e rachado por dentro em vez de agir com sinergia para vencer a nossa batalha, não vou ser eu quem o conduzirá nessa batalha".

Em 22 de fevereiro, porém, Mona Mina retirou a renúncia depois que a assembleia geral do sindicato reafirmou a sua confiança e unidade em torno a ela. Satisfeita, ela comentou: "Agora eu posso dizer que o exército está se formando. Eu retirei a minha renúncia para me juntar ao exército dos médicos, que precisa lutar batalhas de crucial importância".

Adicionando-se a tudo isso a importância dada à mulher pela nova constituição, pode-se dizer que os egípcios começam a ver a luz no fim do túnel. O artigo 53 da nova constituição do país afirma: "Todos os cidadãos são iguais perante a lei, têm direitos iguais, liberdade e deveres gerais, não sendo admitida a discriminação com base em religião, credo, sexo, origem, descendência, cor, língua [...] ou qualquer outro motivo". Não só isso: o artigo 11 dá um enorme passo adiante e confirma a vontade dos legisladores de superar as limitações impostas pela sharia: "O Estado tem o compromisso de garantir a igualdade entre mulheres e homens em todos os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, de acordo com os princípios estabelecidos pela constituição. O Estado envidará todos os esforços para garantir a adequada representação das mulheres nas assembleias, dentro dos limites estabelecidos por lei, de modo a garantir às mulheres o direito de assumir cargos públicos e administrativos de relevância no Estado e nas altas instâncias judiciárias, sem discriminação. O Estado se empenhará em proteger as mulheres contra todos os tipos de violência e em apoiá-las a fim de conciliarem a gestão da família e as exigências do trabalho, bem como em proteger e defender a maternidade, a infância, a mulher com família numerosa, a mulher idosa e a mulher em melhores situações".

E é certamente graças a mulheres como Mona Mina e Hala Shukrallah que a tinta da constituição egípcia poderá se transformar em passos concretos rumo à verdadeira igualdade, que também envolve o reconhecimento da autoridade feminina não só na família, mas, principalmente, na sociedade.