Egito: primavera árabe se transforma em outono bárbaro

Manifestação copta é violentamente reprimida

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Por Robert Cheaib

ROMA, sexta-feira, 14 de outubro de 2011 (ZENIT.org) – Até o domingo passado, continuava brilhando nos olhos da juventude a imagem dos egípcios, muçulmanos e cristãos unidos num grito despertado pelos desejos mais nobres: liberdade, justiça e a esperança de um futuro melhor.

Até o domingo passado. Porque a imagem de carros blindados esmagando de modo bárbaro os manifestantes paralisados afoga o sonho e abre os olhos para um horizonte que escurece a primavera árabe. O sonho, cujos protagonistas eram os muçulmanos e os cristãos do Egito, reunidos como um só povo na praça Tahrir, se desvanece sob a máquina da violência e se transforma em pesadelo, com um cenário imprevisível.

Uma manifestação pacífica terminou com cenas de violência inaudita descritas pelo jornal saudita Al-Hayat como “o acontecimento mais sanguinário depois da revolução de 25 de janeiro, que levou à queda da ditadura de Hosni Mubarak”. O número das vítimas, segundo o Ministério da Saúde egípcio, é de 24 mortos e 212 feridos.

Tudo começou no domingo 9 de outubro, com um protesto dos cristãos coptas, indignados com o ataque recente contra uma igreja em Assuan, no sul do país. Os manifestantes repudiavam o silêncio das autoridades. Os coptas pediam a renúncia do governador da província de Assuan, Mustafa As-Sayyed, acusando-o de causar o ataque. As-Sayyed declarou, segundo o jornal Tariq Al-Akhbar, que a igreja era ilegal, porque o edifício tinha sido transformado em igreja através da manipulação de autorizações. Os extremistas, com base nessas declarações, incendiaram o lugar de culto cristão.

No dia seguinte ao ataque, As-Sayyed, em vez de condenar a violência, afirmou que “não houve ataque algum porque em Assuan não existem igrejas”, segundo o site cristão Coptreal. Tais declarações fomentaram a indignação copta que levou ao protesto. Os manifestantes partiram do bairro de Shabra rumo à sede da televisão nacional, pedindo a tutela do estado para os lugares de culto cristão e a paridade de direitos para todos os cidadãos. Os manifestantes pediam também a renúncia de As-Sayyed, acusando-o de apoio aos extremistas islâmicos. A multidão, constituída também por muçulmanos que apoiam os direitos dos cristãos, deplorava ainda a linha parcial adotada pela televisão estatal, que incentiva sentimentos anticristãos.

Durante a manifestação, alguns vândalos começaram a jogar pedras e a disparar contra a multidão. Os coptas responderam com mais pedras. As forças da ordem e o exército agiram então com violência, reprimindo os manifestantes inclusive com veículos blindados. Um sacerdote copta, o padre Daoud, declarou ter visto um carro blindado arrastar cinco manifestantes.

A situação degenerou em caos, com o exército e a polícia disparando gases lacrimogêneos e balas de borracha contra os manifestantes, que revidaram jogando tudo o que estivesse ao seu alcance. A televisão estatal declarou que os manifestantes conseguiram queimar alguns carros da polícia.

O exército está impondo toque de recolher desde a manhã da segunda-feira, 10 de outubro.

A France Press informou sobre os feridos e os mortos no hospital copta do Cairo, relatando ter visto diversos cadáveres totalmente desfigurados. O Al-Hayat relata que, à noite, um grupo de muçulmanos pacíficos marchou até o hospital copta manifestando solidariedade aos cristãos.

Reação da Igreja copta

Em comunicado a Zenit, o Conselho dos Patriarcas e bispos católicos do Egito comentou os acontecimentos, pedindo ao conselho militar e ao governo egípcio que “assumam suas responsabilidades nacionais e gerenciem a situação custodiando a justiça e tutelando a dignidade de todos os cidadãos, sem discriminações”.

Os prelados egípcios católicos afirmaram ainda que a Igreja católica no Egito “eleva suas orações a Deus para proteger o Egito e seu povo” e assegura a oração pelas vítimas dos últimos episódios de violência.

O Egito foi cenário de crescentes tensões inter-religiosas nos últimos meses. Diversas igrejas cristãs foram alvo de ataques terroristas. As novas autoridades mudaram algumas leis discriminatórias que impunham severas restrições à construção de lugares de culto cristãos, mas enfrentam grande resistência de correntes fundamentalistas que aspiram ao poder presidencial nas eleições deste novembro.