Em nossas mãos

Reflexões de Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Belo Horizonte, (Zenit.org) Dom Walmor Oliveira de Azevedo | 772 visitas

Neste Domingo da Divina Misericórdia, o segundo do tempo pascal, iniciaremos a construção da Catedral Cristo Rei, uma obra em nossas mãos. Na verdade, a construção já começou há um bom tempo. Basta olhar o caminho até aqui percorrido e as muitas conquistas alcançadas. No próximo domingo, iniciaremos a execução da obra, que se desdobrará em muitas fases. Conforme a dinâmica própria da construção de uma igreja, esse momento importante envolve cada um, por ser uma obra de todos. Para chegarmos a esta etapa decisiva, muitos passos foram dados, amadurecidos e vividos no tempo e na história da Arquidiocese de Belo Horizonte, hoje com seus 92 anos.

Reverente é a memória de dom Antônio dos Santos Cabral, primeiro arcebispo da nova capital mineira, que aqui chegou para instalar a nova diocese. Com a capital nova, um caminho novo e tudo por começar. E começou com arrojo e abnegação missionária, reconheça-se, dotando esse caminho com preciosidades, das paróquias criadas, os religiosos e religiosas convidados, o apoio à educação católica, particularmente com a criação da Universidade Católica, com uma singular presença na comunicação do seu tempo, a instituição do Santuário Arquidiocesano da Adoração Perpétua, pérola da Arquidiocese, na igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, por ele escolhida como a catedral provisória e, particularmente, o cuidado especial com os mais pobres.

Dom Antônio desenhou um horizonte largo e trilhou um caminho de riquezas incontestáveis, deixando uma herança que pediu e, certamente, pedirá, de seus sucessores uma coragem de gingantes na fé e uma simplicidade evangélica própria de quem deposita confiança incondicional em Deus. O que dom Cabral plantou, nessa história da Arquidiocese de Belo Horizonte, tem florescido graças ao desvelo corajoso e confiante de seus sucessores, de leigos e leigas, padres, religiosos, bispos e em diálogo e cooperação com segmentos diferentes, construtores da sociedade pluralista.  Uma sociedade que em Minas Gerais tem uma história de riquezas incontáveis, com homens e mulheres marcados pela força da fé e apreço aos valores da família, da solidariedade e da cultura.

Neste conjunto de feitos e fatos, eventos e conquistas, lutas e sacrifícios, está sempre no horizonte o compromisso de fidelidade ao projeto de Jesus Cristo, missão dada a Ele pelo Pai e por Ele dada à sua Igreja, com a escolha dos seus apóstolos, numa ininterrupta tradição. Entre desdobramentos que se tornaram passos novos, proféticos e novas respostas ao longo do tempo, permaneceu aqui o projeto da Catedral Cristo Rei, até iniciada por dom Cabral, não continuada pelas vicissitudes do tempo e das circunstâncias. Certamente, por desígnio de Deus Providente, ficou como legado e tarefa a essa geração das primeiras décadas do terceiro milênio, como oportunidade única de um exercício de solidariedade e comunhão.

As muitas etapas até aqui vividas e trabalhadas para a construção da Catedral Cristo Rei, incluindo debates e discernimentos, aquisições e doações, formação de consensos e entendimentos, providências concretas vencendo burocracias e respeitando legalidades, claridade a respeito do instrumento que se terá para servir mais e melhor, prepararam este histórico dia 7 de abril, Domingo da Divina Misericórdia. Será o momento em que se iniciam novas fases, que se sucederão dando forma à edificação, na medida do exercício de solidariedade, apoio e comunhão efetiva de todos. A Catedral Cristo Rei será um grande centro de irradiação da fé e do sentido de transcendência, valores que sustentam a cultura que permanece e a sociedade que se quer justa e fraterna.

Ao longo dessa caminhada rumo à Catedral, cada vez mais pessoas compreendem a importância da obra e vislumbram o que acontecerá no coração desta igreja-mãe. Em primeiro lugar, uma ação evangelizadora profética e encarnada, que articula e fortalece a rede de comunidades de fé, entendidas como lugar do acolhimento fraterno e da escuta da Palavra de Deus, transformando vidas e criando, pelos valores do Evangelho, as convicções necessárias que geram conversões, engajam cidadãos solidários e justos.

Esse coração de serviços a partir do Evangelho significará o fortalecimento de uma Igreja, como indica e quer o Papa Francisco, não autocentrada, mas capaz de dialogar com todos, articular-se com o diferente, ser cada vez mais servidora dos pobres e sofredores, em cooperação. Lá estará o conjunto das obras sociais da Arquidiocese no seu Vicariato Episcopal para Ação Social e Política, que se articula e incentiva o desenvolvimento de tantas outras iniciativas, de diversas paróquias e instituições, pequenas e grandes, de muitos lugares. Também será lugar dedicado à expansão da Rede Catedral de Comunicação Católica, para fazer, como recomenda Jesus, seu Evangelho proclamado. Espaço importante para a arte e a cultura, com o inteligente projeto do Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte, bem como da educação, sendo coerente com a tradição da Arquidiocese de formação integral.

A Catedral Cristo Rei será a Casa do Povo de Deus, isto é, de todos. Um espelho maior do que deve ser cada comunidade, em diálogo, cooperação e amor. Conto com a participação efetiva de cada um, em profunda comunhão e simplicidade, neste caminho bonito que levará à edificação da Catedral Cristo Rei, uma obra em nossas mãos.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte