Emigração de cristãos do Oriente Médio, catástrofe para Islã

Entrevista com o conselheiro do mufti da República do Líbano

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CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 25 de outubro de 2010 (ZENIT.org) - A emigração cristã do Oriente Médio é um drama para os próprios muçulmanos da região.    

É o que reconhece nesta entrevista a ZENIT Muhammad al-Sammak, conselheiro político e religioso do mufti da República do Líbano, enviado especial à assembleia do Sínodo dos Bispos, evento encerrado pelo Papa nesse domingo.

Al-Sammak recordou nessa reunião episcopal que há um documento, com frequência esquecido, que ratifica o dever religioso de todo muçulmano de ser protetor dos cristãos e de seus lugares de culto "até o dia da ressurreição".

ZENIT: Isso que o senhor afirma representa a opinião de todos os muçulmanos sunitas no Oriente Médio ou só de uma parte?

Muhammad al-Sammak: Minha posição, exposta na intervenção sinodal, representa a doutrina islâmica, e sou um muçulmanos comprometido, seja falando no Vaticano ou em Meca. O que disse é fiel ao ensinamento islâmico, e não creio que um verdadeiro muçulmano crente possa se afastar dessa posição. Portanto, antes de preparar este discurso, fiz uma série de consultas com o primeiro ministro libanês, com a Associação Mundial da Dawa Islâmica, assim como com o conselho geral da iniciativa do rei Abdallah para o diálogo entre as culturas e as religiões, dado que a Arábia Saudita é a primeira referência no mundo islâmico. Por este motivo, creio que o texto expressa o parecer do mundo islâmico em geral.

ZENIT: Em seu discurso ao sínodo, o senhor afirmou: "facilitar a emigração dos cristãos significa obrigá-los a emigrar. 

Muhammad al-Sammak: Está claro que o texto de minha intervenção é um convite não só a alentar os cristãos a permanecer em seus países de origem, mas também a ajudá-los a alcançar este objetivo. E a ajuda não só deveria proceder de instituições como o Vaticano ou o Sínodo dos Bispos. Deveria vir também das autoridades políticas locais e das sociedade civis em que eles formam parte. Há uma responsabilidade comum islâmico-cristã. A meu ver, os cristãos deveriam renunciar à ideia de emigrar do Oriente Médio. Por outro lado, os muçulmanos deveriam se dar conta de que a emigração cristã constitui verdadeiramente uma catástrofe em primeiro lugar para eles. Portanto, é um dever cívico dos muçulmanos oferecer sua contribuição para que a presença cristã no Oriente Médio volte a ser o que foi com o passar dos séculos: berço da religião, da cultura e da civilização.

ZENIT: Que posição os cristãos devem tomar como presença social e política no Líbano, perante as divisões internas no Islã entre sunitas e xiitas?

Muhammad al-Sammak: Os cristãos no Líbano não são meros espectadores, nem um elemento exterior para a reconciliação dos elementos internos à estrutura nacional. O Líbano, em sua origem, nasce como resposta à necessidade cristã. A constituição da nação libanesa aconteceu em 1920, como resposta a essa necessidade particular. O papel dos cristãos no Líbano não se pode reduzir à reconciliação entre as forças políticas ou religiosas. O papel cristão é fundador e essencial. Não é possível, portanto, imaginar que os cristãos sejam espectadores ou conselheiros passivos. A nação os afeta em cada uma de suas dimensões. Temos de deixar bem claro que grande parte do sofrimento cristão no Oriente Médio deve-se à diminuição do papel cristão no Líbano, que se reflete negativamente no espírito dos cristãos do resto da região. Favorecer a presença cristã no Oriente Médio deve começar necessariamente pelo Líbano, que é a nação-mensagem da convivência civil entre muçulmanos e cristãos.

ZENIT: Há visões no Islã do Oriente Médio que veem nos cristãos um legado das cruzadas, a quem se deve eliminar...

Muhammad al-Sammak: Este tema exige uma longa explicação, que não é possível no momento. Mas comecemos com os dados históricos. O Cristianismo é mais antigo que o Islã no Oriente. Há igrejas que ainda estão em pé e que foram construídas muito antes do profeta Maomé e da chegada do Islã. Basta citar um episódio, documentado, que narra a visita ao profeta por parte de uma tribo cristã em Najran, na península arábica. Os enviados chegaram para descobrir a nova religião. O profeta os acolheu em sua casa, que é o segundo lugar mais sagrado do Islã, onde hoje é a mesquita de Medina. Ele estiveram com o profeta durante todo um dia, comendo juntos, e quando chegou a hora da véspera, o profeta os convidou para rezar em sua casa, mas eles preferiram rezar fora. O resultado do encontro foi um documento chamado "o pacto de Najran". Este afeta todos os muçulmanos e os compromete religiosamente até o dia da ressurreição. O dever dos muçulmanos é respeitar os cristãos e proteger e tutelar seus lugares de culto. O pacto proíbe o muçulmano de construir uma casa ou mesquita com pedras utilizadas precedentemente em igrejas cristãs. Há outros temas interessantes que incluí em um estudo de quinze pontos que todo muçulmano deve levar em conta. Portanto, quando alguém diz que os cristãos são um acréscimo, algo novo no Oriente Médio, eu pergunto: como podem ser, se sua religião é mais antiga que a dos muçulmanos, como o documentam os próprios escritos sagrados da tradição islâmica?

Diz-se que os cristãos no Oriente Médio são uma herança das Cruzadas. Como podem ser, se eles mesmo foram vítimas dessas cruzadas, começando pelo saque de Constantinopla ou pelas costas ocidentais do Mediterrâneo. Essas afirmações de facções do Islã não são mais que suposições baseadas em dados errados. Ademais, há outro problema: alguns muçulmanos veem o Ocidente como se se tratasse da cristandade. Isso não é verdade. Sei muito bem que o falecido Papa João Paulo II invocou com tenacidade as raízes cristãs da Europa na constituição unificada da União Europeia. Mas o texto final se redigiu sem a mínima referência a essas raízes. Portanto, não é justo lança a culpa no Cristianismo pelas opções do Ocidente. Esses problemas não são conhecidos por muitos muçulmanos, que chegam a conclusões erradas baseando-se em pressupostos equivocados. Por isso, é fundamental difundir uma cultura correta para corrigir esses preconceitos.

ZENIT: Que os senhores têm feito para evitar a emigração cristã?

Muhammad al-Sammak: Na medida de nossas possibilidades, tentamos sensibilizar os muçulmanos sobre a grave perda que há com a emigração dos cristãos do Oriente Médio. Por causa desse êxodo, o Oriente Médio perde sua identidade, sua pluralidade, o espírito de tolerância e de respeito recíproco. Inclusive no âmbito da prática religiosa, o muçulmano precisa do cristão, para praticar os valores morais de sua fé, como a tolerância e o respeito. Portanto, a emigração é um dano para o tecido do Oriente, debilitando nossas sociedades e levando-as a um perigoso precipício.

Ademais, se os cristãos emigram, a imagem que transmitimos é que os muçulmanos são intolerantes com os cristãos no Oriente Médio. Para os ocidentais, seria normal deduzir que os muçulmanos não sabem e não podem conviver com os demais e, portanto, como podem conviver conosco? Isso se refletiria de maneira sumamente negativa nos 500 milhões de muçulmanos que vivem em sociedades que não são muçulmanas. Qual seria seu destino? Portanto, é uma vantagem para os muçulmanos preservar a presença cristã no Oriente Médio.

ZENIT: É possível dogmaticamente para uma religião como o Islã, que se considera "religião de Estado" (D īn wa dunya), aceitar a ideia de nação civil e pluralista?

Muhammad al-Sammak: Essa não é uma questão nova para o Islã. No Líbano, o falecido imame Mohammad Shams el-Din tinha proposto em sua época o projeto de Estado civil, quer dizer, a ideia de uma nação crente, na qual o Estado respeite a pluralidade dos credos, assim como a não-crença. A fé, de fato, é uma questão de consciência, é a relação entre Deus e o homem, e Deus julga cada um. O Alcorão diz: "não há que obrigar ninguém a crer", "não pode haver fé com coerção". Baseando-nos neste princípio, podemos construir o conceito de Estado civil. O Estado deve respeitar a religião, os ritos religiosos, convertendo-se ao mesmo tempo em uma nação para todos. Disso já se falou em muitos encontros muçulmanos, de modo que é uma questão sobre a qual se pode discutir.

ZENIT: Que avaliação faz do diálogo inter-religioso?

Muhammad al-Sammak: Primeiramente, não há alternativa ao diálogo. Quando alguém diz: "o diálogo é inútil", eu pergunto: "qual é a alternativa?" Este é um ponto fundamental. Dialogar é a arte de encontrar a verdadeira opinião do outro. Eu não possuo a verdade. O fato de começar a dialogar com o outro significa que eu confesso que não tenho o monopólio da verdade, mas que estou em sua busca. Significa também que poderia encontrá-la na opinião ou na visão do outro. Por isso, respeito o outro e respeito sua visão. Este conceito de diálogo estende pontes de reciprocidade, distinguindo-se do respeito mútuo.

Para nós, o diálogo não é só algo teórico. Não desperdiçamos nenhuma oportunidade de chegar às pessoas, através de centros culturais, publicações, transmissões de televisão, entrevistas, encontros. Organizamos também encontros em que reunimos jovens muçulmanos e cristãos, trabalhando juntos, escutando-nos uns aos outros, vendo como cada um reza e como vive sua vida e sua fé. Nestes encontros temáticos tocamos temas muito atuais, como a liberdade de consciência, os direitos de cidadania, a liberdade religiosa. Mas tudo isso não é suficiente. O trabalho deve ser mais amplo, mas isso é o que podemos fazer e cremos que é urgente difundir esta cultura em todos os setores da sociedade.

[Por Tony Assaf e Robert Cheaib]