Encontro da verdade com a beleza, face gratificante da arte

Patriarca de Lisboa falou sobre sua trajetória como leitor

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Por Alexandre Ribeiro

LISBOA, quinta-feira, 23 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- O Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, confessou que vivenciar o encontro da verdade com a beleza, por meio da arte, «proporcionou uma das páginas mais gratificantes» da sua caminhada.

D. José Policarpo proferiu essa terça-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, uma conferência intitulada «Literatura e o drama da Palavra», onde falou de sua trajetória como leitor e da importância da literatura na formação humana.

Na literatura, «confrontei-me com questões fundamentais sobre o sentido da vida, entre as quais a da existência de Deus ganhou uma centralidade inevitável, porque decisiva», afirmou o cardeal.

Após destacar leituras em diferentes campos da literatura, D. José recordou que chegou um momento em que ele procurou «narrativas de experiências espirituais, em que a busca do absoluto fosse o centro do enredo, o rosto do drama e a resposta de salvação».

«Eu precisava de escutar aqueles e aquelas que viveram um drama semelhante ao meu e que através de todas as palavras, buscavam a Palavra», confessou.

«Já não me lembro por onde comecei, mas guardo no meu coração aqueles e aquelas que se tornaram meus irmãos, companheiros fortes na aventura da descoberta da vida.»

«Agostinho de Hipona, nas suas “Confissões”, Teresa de Lisieux, na “História de uma alma”, Isabel da Trindade, Charles Foucault, sobretudo através da pena de René Voyaume e, já mais tarde, Edith Stein, que me ajudou a fazer a reconciliação entre a Filosofia e a Fé», afirmou o cardeal.

«Eram textos fortes, de grande qualidade literária, que sublinhavam a centralidade envolvente do amor e me revelavam corações inquietos na busca da luz definitiva.»

D. José falou que, «se no Céu houver notícia do que se passa conosco que ainda peregrinamos neste mundo, Teresa de Lisieux, “la petite Thèrése” sabe a influência decisiva que teve na minha vida».

Segundo o cardeal, neste tempo em que ele tentou «construir a narrativa da minha vida através das narrativas desses autores, procurei completar as intuições mais belas com a beleza da poesia». 

«Descobri que a beleza pode exprimir o drama e a densidade da existência e que a etapa final da nossa caminhada é sempre a atração da beleza.»

D. José Policarpo cita «alguns desses poetas que visitei e a quem procurei escutar»: Antero de Quental, Florbela Espanca, José Régio, Fernando Pessoa, Sofia de Mello Breyner, Miguel Torga. 

«Percebi que tantas vezes o poeta, na sua palavra, se transcende a si mesmo, exprimindo o recôndito do que não quer ser, mas deseja ser.»

«Todos eles, crentes ou descrentes, acabam por tocar pontos altos da sua poesia na evocação do sagrado, sobretudo na beleza com que cantam Maria, a Mãe de Jesus», afirmou. 

«Acabei por vir a tocar, pessoalmente, esta experiência de, na nossa palavra, nos transcendermos a nós mesmos, o que nos põe o problema de saber onde está a nossa verdade, no que já somos, ou no que desejamos ser.»

«Tocar de perto este encontro da verdade com a beleza proporcionou uma das páginas mais gratificantes da minha caminhada, o contato com a arte», confessa.

«Fiz esta experiência de leitor de uma forma viva e apaixonada. E quando, de memória, recordo algum desses textos lidos, não tenho a certeza do que recordo mais: se o que o autor me disse, ou o que eu percebi de mim mesmo e do meu caminho lendo esse texto.» 

«É por isso que é apaixonante revisitar, de vez em quando, esses textos marcantes, que foram na nossa vida, marcos perenes na busca de um ideal», afirmou.

Segundo o patriarca de Lisboa, «quando se fez um longo percurso na compreensão de si mesmo em diálogo com a palavra dos outros, sobretudo quando o aspecto fulcral dessa busca é a procura de Deus e da Sua importância decisiva na vida humana, é espontâneo acabar por dar-se uma centralidade irrecusável à Bíblia, expressão da dramatização radical da Palavra».

A palavra da Bíblia, de acordo com o cardeal Policarpo, pretende «dizer-nos Deus e o que Deus tem para nos dizer, o que desencadeia no leitor a busca do acolhimento de Deus e descoberta da própria vida, à luz do que Deus procura dizer-nos acerca de nós e do conjunto da história da humanidade».

«Ao procurar dizer-nos Deus, apresenta-no-l’O como potência criadora, como Palavra, como Espírito de amor. Intuímos que Deus é Palavra e é amor e que a sua potência criadora se realiza através da Palavra e do amor.»

«Que Deus é Palavra, tornou-se radicalmente claro em Jesus Cristo, a Palavra feita Homem», afirma o patriarca.