Encontros da Campanha da Fraternidade 2014

Reflexões do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist., Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Rio de Janeiro, (Zenit.org) Card. Dom Orani Tempesta, O.Cist. | 435 visitas

O tempo quaresmal, propício e salutar tempo de conversão, possibilita o caminho da verdadeira liberdade. Os exercícios quaresmais do jejum, da oração e da esmola nos abrem silenciosamente para o encontro com Aquele que é a plenitude da vida, com Aquele que é a luz e a vida de toda pessoa que vem a este mundo (Jo 1, 10). Jejum, muito mais do que uma privação, é esvaziamento, uma expropriação; tentativa de deixar-nos atingir pela graça da liberdade com que Cristo nos presenteou. O jejum abre o nosso ser para a receptividade da vida nova, da liberdade. A oração é a exposição de quem espera ser atingido pela misericórdia d’Aquele que nos amou primeiro e até o fim. (Jo 4,10). A esmola é o amor partilhado; é deixar-se tomar pela dinâmica da caridade; é sair de si mesmo; é deixar-se tocar pela presença do outro, especialmente do mais necessitado.

O período quaresmal convida os discípulos missionários a uma verdadeira conversão, para que o testemunho da liberdadeem Jesus Cristoseja edificante e sustente a Igreja em sua missão de anunciar o Evangelho. A conversão implica recomeçar a partir de Jesus Cristo. Então, tenhamos os olhos fitosem Jesus Cristo, que, na cruz se fez solidário aos que sofrem em nosso meio, especialmente com as injustiças. Nosso caminhar quaresmal não pode ser insensível a situações que atentam contra a dignidade da pessoa humana e seus direitos fundamentais, como o tráfico humano, tema da Campanha da Fraternidade deste ano.

No caminho de conversão quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos apresenta a Campanha da Fraternidade como itinerário de libertação pessoal, comunitário e social. Tráfico humano e fraternidade é o lema da Campanha para a Quaresma em 2014. O lema é inspirado na carta aos Gálatas: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (5,1).

O tráfico humano viola a grandeza de filhos, destrói a imagem de Deus, cerceia a liberdade daqueles que foram resgatados por Cristo. As comunidades, as família, as pessoas certamente buscarão superar a globalização da indiferença em relação ao tráfico humano.

O tráfico humano é um crime que atenta contra a dignidade da pessoa humana, já que explora o filho e a filha de Deus, limita suas liberdades, despreza sua honra, agride seu amor próprio, ameaça e subtrai sua vida, quer seja da mulher, da criança, do adolescente, do trabalhador ou da trabalhadora – de cidadãs e cidadãos que, fragilizados por sua condição socioeconômica e/ou por suas escolhas, tornam-se alvo fácil para as ações criminosas de traficantes.

Quanto ao tráfico humano, o Papa Francisco se referiu assim a essa prática: “o tráfico de pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas! O tráfico humano é uma das questões sociais mais graves da atualidade. Não há país livre do tráfico de pessoas, seja como ponto de origem do crime, seja como destino dos traficados".

O Concílio Ecumênico Vaticano II trata do tema na Gaudium et Spes nº 27: “a escravidão, a prostituição, o mercado de mulheres e de jovens, ou ainda as ignominiosas condições de trabalho, com as quais os trabalhadores tratados como simples instrumentos de ganho, e não como pessoas livres e responsáveis” são “infames”, prejudicam a civilização humana, desonram aqueles que assim se comportam” e ofendem grandemente a honra do Criador”.

Com esta Campanha da Fraternidade, a Igreja Católica se une a essas iniciativas no intuito de potencializá-las e suscitar, em suas comunidades, reflexões e ações de combate a esta chaga social, de superação de situações de vulnerabilidade ao tráfico, de prevenção, proteção e inserção, observando-se o respeito à dignidade  do ser humano e o implemento dos direitos humanos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais no convívio familiar, comunitário e social. No entanto, a superação do silêncio das pessoas em situação de tráfico requer a valorização da palavra, da voz e da experiência vivenciada pelas vítimas, da nossa escuta qualificada e ativa, enquanto irmãos e irmãs em Cristo.

Dessa maneira, a Campanha da Fraternidade nos convida a fazer uma reflexão sobre o tema da Quaresma e sobre o tráfico humano. Assim, a proposta é que façamos a reflexão sobre este tema em nossas paróquias, nos grupos de reflexão, nos círculos bíblicos, nas pequenas comunidades e em nossas casas, acompanhando o livro de encontro da CF 2014. É vivendo, intensamente, estes encontros, nas nossas casas, com grupos de reflexão, saindo em procissão com a Via Sacra pelas ruas de nossa cidade do Rio de Janeiro que iremos conscientizar a sociedade da necessidade de superar o tráfico humano e todas as situações que atentam contra a vida humana, a liberdade de ir e de vir, e a prisão que muitos vivem iludidos pelas paixões desordenadas!

Que estes encontros sejam momentos de verdadeira e autêntica partilha e fraternidade, apanágios do amor e do perdão que todos devemos não só viver, mas testemunhar!

† Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ.