Entrevista com irmã Élide Fogolari

A pouco mais de um mês da realização 4º Epascom Nacional, em Aparecida, a assessora da Comissão Episcopal Pastoral da Comunicação (CNBB) fala sobre vocação, comunicação eclesial e o Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil.

Brasília, (Zenit.org) Lilian da Paz | 486 visitas

Daqui a pouco mais de um mês, a arquidiocese de Aparecida, em São Paulo (Brasil), vai receber o 4º Encontro Nacional de Pastoral da Comunicação (Epascom). O encontro será realizado concomitantemente com o 2º Seminário de Jovens Comunicadores e contará com presenças ilustres, como a do padre jesuíta Antônio Spadaro, doutor em teologia, mestre em comunicação social e diretor da revista Civiltá Católica.

Duas pessoas estão à frente deste grandioso trabalho: Élide Fogolari, jornalista e irmã paulina, e padre Clóvis Andrade de Melo, responsável pela Rede de Informática da Igreja no Brasil (Riibra). Juntos com dom Dimas Lara Barbosa, dom Manoel Delson Pedreira da Cruz e o cardeal dom Orani João Tempesta, Élide e Clóvis integram, como assessores, a Comissão Episcopal Pastoral da Comunicação, pertencente à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O trabalho empreendido por esta equipe abrange toda a comunicação eclesial da Igreja no Brasil. Evidentemente, uma difícil e desafiante tarefa. Zenit conversou com a irmã Élide, desde 2007 na Comissão. Ela partilhou sobre a vocação à comunicação, o trabalho com a Pastoral da Comunicação (Pascom) brasileira e o mais novo presente da comunicação eclesial do país, o Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil.

Vocação e comunicação

Gaúcha do município de Tuparendi, Élide Maria Fogolari descobriu o chamado à consagração total a Deus quando ainda tinha quinze anos de idade. Tinha uma vida normal de jovem, mas sabia que, ao corresponder ao chamado de Deus, seria completamente feliz.

“O que mais me encantou na vocação paulina foi a tentativa de criação de uma nova mentalidade na sociedade, se baseando em sempre encontrar espaços para anunciar Jesus Cristo por meio da comunicação. A vocação mostrava que não poderíamos concordar com um sistema injusto, mas, ao mesmo tempo, deveríamos propor algo novo, sempre baseado em uma coerência de vida. A inspiração nessa missão é São Paulo, que falava de Jesus sem medo”, conta Élide.

Com o passar dos anos e já consagrada, a irmã desenvolveu diversos trabalhos na congregação: trabalhou nas livrarias Paulinas, fez curso de jornalismo e pós em comunicação, trabalhou como assessora de dom Hélder Câmara, nos anos 1960, e ajudou a criar o Serviço à Pastoral da Comunicação (Sepac), que procura capacitar agentes culturais e sociais na área da comunicação.

Esta experiência a ajudou a ver a comunicação de uma forma mais abrangente, que carrega no contexto a missão evangelizadora. “A comunicação gera comunhão. Se não há comunhão, ficamos somente na área da informação. O Papa entende bem o que é comunicação: se fazer semelhante ao próximo para criar a cultura do encontro, se inspirando na parábola do bom samaritano. Esse é um esforço que todos nós precisamos fazer. A comunicação inclui, não exclui”.

Sobre o cenário da comunicação eclesial no Brasil, irmã Élide visualiza três aspectos claros: existem as comunidades primitivas, civilizadas e avançadas.  À primeira pertencem as comunidades que ainda não descobriram o potencial da comunicação; na segunda estão aquelas que já descobriram o potencial, mas não formaram uma cultura de comunicação. Já da terceira fazem parte as comunidades e Igrejas locais que vivem a cultura de comunicação.

Esta cultura de comunicação é a própria cultura do encontro que leva à fraternidade, tão ressaltada pelo Santo Padre. Neste âmbito, os leigos têm um papel imprescindível: levar a cabo a ação evangelizadora proposta a partir do Concílio Vaticano II.

Dentro desta proposta cabe a contínua tarefa de sair de si e falar de Cristo ao mundo, para fora da Igreja. “Vimos o encontro do Papa com os líderes palestino e israelense. Francisco está nos dando uma lição ao cumprir aquele chamado de Jesus: Ide por todo o mundo e anunciai a boa nova. O ide está no imperativo. Mesmo com as dificuldades de ir ao encontro, temos que realizá-lo. Fomos chamados pra isso”, sublinha a paulina.  

Na tentativa de buscar esta ação evangelizadora e integração para melhorar a comunicação eclesial, a Comissão passou a desenvolver a plataforma Episcopo.net, voltada para os bispos da Igreja na América Latina e Caribe. Coordenada pelo padre Clóvis, a plataforma oferece salas virtuais de videoconferência para 22 conexões simultâneas, auditório virtual para 500 conexões, contas de e-mail e conteúdo episcopal.

O projeto criado pela Rede de Informática da América Latina (Riial), facilita a comunicação e quebra preconceitos provenientes da formação em comunicação analógica do episcopado latino americano.  

Diretório de Comunicação

Durante a 52ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, realizada em Aparecida no mês de maio, a Comissão Episcopal Pastoral da Comunicação lançou o Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. A dura tarefa de produção do documento foi gestada por 13 longos anos. A estrutura do diretório brasileiro foi inspirada no diretório italiano, até então o único produzido no mundo eclesial.  

Após inúmeras reuniões e tentativas de redações, os bispos aprovaram o texto que contém dez capítulos, cada um deles trazendo importantes reflexões e pistas de ação para concretização efetiva das propostas. Um dos pontos de destaque do diretório traz uma profunda meditação sobre a teologia da comunicação, no capítulo segundo.

O parágrafo 36 do diretório diz:

Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano se comunica não por uma exigência, mas por um dom natural; por uma vocação.

Neste contexto, da relação da Santíssima Trindade marcada na constituição comunitária do ser humano, uma outra parte deste capítulo do diretório afirma uma intensa realidade a respeito da espiritualidade do comunicador:

O comunicador é um místico, e o místico é um comunicador.

Sobre esta afirmação, irmã Élide, em lágrimas, diz: “Para sermos místicos, precisamos estar pautados em Jesus. Nós o encontramos no Evangelho e nas pessoas. A vida, paixão e morte de Jesus deve estar encarnada em nossas vidas, concretizada. Este é o caminho para o místico da comunicação – e não é um caminho fácil”.  

Educar para a comunicação

Outros dois pontos de destaque do diretório falam sobre Liturgia: plenitude da comunicação, no capítulo terceiro, e Educar para a comunicação, tema de todo o capítulo nono. A questão da liturgia traz meditações acerca da celebração da comunhão plena entre Deus e a humanidade, presente nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia.

A educação para a comunicação – mais conhecida como educomunicação – revela como a Igreja pode provocar debates que geram uma leitura crítica sobre a utilização e produção proveniente dos meios de comunicação social. Nesta esfera, a família e a juventude é tratada como prioridade.     

“Estamos inseridos em uma realidade de avalanche de informações. Nesse sentido precisamos nos dar conta que a produção vinda dos meios de comunicação não é tão inocente quanto parece. O conteúdo nos propõem a vivência de certas realidades que não condizem com o modelo de vida cristã”, explica Élide, que aponta o porquê de família e juventude serem prioridades nesta ação. “Precisamos provocar debates e fazer com que a família e os jovens possam discernir entre aquilo que é aceitável ou não. Nos momentos de aconchego do lar, a família pode estar mais vulnerável a receber como bom aquilo que é transmitido nos meios de comunicação. Os jovens, por outro lado, estão suscetíveis a tudo aquilo o que a sociedade convida. É preciso que haja um amadurecimento nestes dois campos”.    

Pastoral da Comunicação

O décimo e último capítulo do diretório aborda a Pastoral da Comunicação, que deve estar alicerçada em quatro eixos: formação, articulação, produção e espiritualidade. O intuito é demostrar que a Pascom não pode dissociar a pastoral e a comunicação, que juntas estimulam e conduzem à uma comunhão evangelizadora.

“Evangelizar é comunicar. Isso é Pascom e isso foi o que viveu Jesus. Estamos insistindo e persistindo para que a Pascom se radicalize nas comunidades em prol da criação de uma cultura de comunicação atual e concreta”, diz irmã Élide.    

O diretório traz ainda reflexões sobre a comunicação da Igreja em um mundo de mudanças, comunicação e vivência da fé, ética e comunicação, protagonismo dos leigos, Igreja e mídia (tradicionais e digitais) e políticas de comunicação (que fala sobre o papel da Igreja no relacionamento com os meios seculares).  

O documento pode ser adquirido nas Edições CNBB ou nas Paulinas Livraria.    

Para mais informações sobre o 4º Epascom, acesse: encontronacionalpascom.cnbb.org.br