Entusiasmo entre os jovens da prisão onde o papa Francisco celebrará a Quinta-feira Santa

Entrevista com o capelão: As pessoas querem ver gestos. Muitos desses jovens são de outras religiões.

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 1145 visitas

O Papa Francisco vai celebrar a Missa da Quinta-feira Santa, na prisão para menores ‘Casal de Marmo’, localizada na periferia de Roma. Bento XVI esteve ali no início de seu pontificado. Agora, é a vez do Papa Francisco. Eles ficaram surpresos, porque muitos são de outras religiões, disse padre Gaetano Greco à Zenit, durante entrevista no Centro de Recuperação ‘Borgo Amigo’.

Padre Gaetano, capelão da prisão Casal del Marmo, é da família franciscana dos terciários capuchinhos de Nossa Senhora das Dores, ou dos padres "Amigonianos" porque seu fundador foi o bispo Dom Luis Amigo, de Valência, Espanha.

Mesmo sendo de San Giovanni Rotondo, terra de Padre Pio, o capelão escolheu outra ordem: a dos Amigonianos, cujo carisma é a reablitação dos jovens. Pe Gaetano se apaixonou por esta vocação.

Padre Gaetano  frequentou o seminário, fez noviciado na Espanha, em Albacete, e foi ordenado sacerdote em Roma; trabalhou durante vários anos na Sardenha, em uma casa de recuperação. Desde 1981 é capelão da prisão ‘Casal de Marmo’. Prisão, no sentido pleno da palavra.

ZENIT:Bento XVI já visitou a prisão, certo?

Pe Gaetano: Bento XVI celebrou em 2007, foi uma experiência extraordinária. Os jovens o viram de perto. Bento XVI se comoveu quando os encontrou, e saudava com um ‘aperto de mãos’, olhava nos olhos. Foi um dia de primavera e de luz.  Preparamos a sua visita durante um mês.

Agora Francisco ...

Pe Gaetano: Agora o Papa Francisco vem nos encontrar, e isso está agitando meio mundo. Os jovens aguardam com entusiasmo o Papa. Ele celebrará como costumava fazerem Buenos Aires, num lugar de sofrimento, de pobres. Na prisão, eu passei muito tempo com os jovens lendo somente o evangelho, e dali se abre um mundo inteiro.

ZENIT:O que vocês estão organizando para a visita?

Pe Gaetano: Com o Papa Francisco  não temos necessidade de preparar nada, porque ele quer ajoelhar-se no chão. O que fica marcado nas pessoas são as coisas simples. Você pode até fazer um discurso maravilhoso, mas as pessoas simples querem ver os gestos, como pagar o hotel, isso permanece impresso, ou quando um Papa sai do carro para cumprimentar as pessoas sem medo de ser baleado.

ZENIT:O que provoca mais impacto nestes jovens?

Pe Gaetano: Quando eles chegam aqui, eles acham que os religiosos têm um belo apartamento, e são surpreendidos porque vivemos como eles. E o que fazemos, fazemos junto com eles. Considerá-los doentes é um erro. Sim, mas pela falta de cuidado que eles nunca tiveram, pelo vazio, pelo pouco afeto, porque a maioria das pessoas que disseram que os queriam bem, os abandonaram, ou, os traíram, os fizeram sofrer. E encontrar alguém que gratuitamente coloca a disposição deles a própria vida e tudo o que tem, é a coisa mais bonita que poderia ter acontecido para eles.

ZENIT:Vamos falar sobre os jovens detentos. Como é decidida a prisão ou as medidas alternativas?

Pe Gaetano: Segundo a lei italiana atual, os jovens antes de  ir para a cadeia vão para um Centro de Pronto Atendimento , onde o magistrado no prazo de 72 horas, auxiliado por uma equipe formada por um assistente social, um educador e um psicólogo, deve determinar se vai para prisão ou entra nas medidas alternativas, tais como comunidades para reabilitação, etc. Aqueles que não respeitam as medidas alternativas ou em casos mais graves acabam na prisão.

ZENIT:Até que idade eles permanecem na prisão juvenil?

Pe Gaetano: Cumprindo algumas penas pode ser até 21 anos. Mas o que cometeu crime até 18 anos e depois vai para o presídio para adultos.

ZENIT:Qual é a situação desses jovens?

Pe Gaetano: Há um forte sentimento de revolta e de violência, e também um desejo de redimir-se. Especialmente o jovem que cometeu um crime grave. Os crimes mais comuns são contra o patrimônio e o uso de substâncias tóxicas.

ZENIT:Quem caiu nas drogas, encontra aqui uma saída?

Pe Gaetano: Na cadeia há um centro médico. Verificamos a recuperação psicofísica dos jovens que, muitas vezes, chegam aqui em péssimas condições sanitárias. Este é um serviço muito positivo. Em seguida, direcionamos para uma equipe de educadores, para ajudar, escutar, e tentar entender seus problemas, e depois os acompanhamos até uma situação positiva.

ZENIT:É diversa a possibilidade de recuperação dos jovens em relação aos adultos?

Pe Gaetano:Sim, por duas razões: porque eles são mais jovens e querem voltar o mais rápido possível à liberdade, e a grande vantagem é que eles são poucos em relação a grande massa de detentos.

ZENIT: Quantos jovens estão em Casal de Marmo? E o que disseram quando souberam que o Papa estava chegando?

Pe Gaetano: Um total de 48. Um pequeno grupo de nove mulheres e dois grupos de homens. A maioria é muçulmana.  Outro grupo, uma minoria de italianos, são ortodoxos.  Ao anúncio de que o papa viria a Casal de Marmo na Quinta-feira Santa, todos entenderam que era importante. Um jovem Napolitano disse: "Eu finalmente vou apertar a mão de alguém importante”.

ZENIT: Quais são as fases que eles devem percorrer?

Pe Gaetano: A primeira é com ele mesmo, um forte trabalho no sentido de responsabilidade, porque não há grades. Nesta primeira fase permanecem dentro da comunidade, onde não estão de férias, e requer um recomeçar. É necessário um bom acolhimento, porque a primeira coisa é o ambiente. Eles podem abrir a geladeira, falar com o professor a qualquer momento do dia, e devem ajudar na vida ordinária da casa. Há uma cozinheira e outra senhora que cuida das roupas, o resto, fazem os jovens. Como em uma família.

ZENIT: Como é a vida aqui?

Pe Gaetano: Esta é uma comunidade religiosa aberta,  compartilhamos a vida com os jovens, são cinco religiosos e 11 homens. Criamos oportunidades de trabalho para os jovens, acompanhados pelos educadores.

ZENIT: Daqui saem algumas vocações? Como é mantido?

Pe Gaetano: Vocações, não, às vezes há alguma esperança. Mas entre eles é bastante complicado, porque o grande sonho deles é ganhar dinheiro e os monges não têm dinheiro.

Para os jovens que são confiados pelos serviços sociais, é dado um subsídio diário para cobrir as despesas, através do Centro de Justiça para menores. E depois, há a ajuda da Igreja, com verbas destinadas do ‘8 por mil’ para instituições de caridade, na Itália.

ZENIT: Se o jovem quiser, é possível se recuperar na prisão juvenil?

Pe Gaetano: Sim, é possível. Embora uma coisa seja dizer e outra coisa é fazer. Muitos tiveram dinheiro fácil em suas mãos, e quando começam a trabalhar vêm que seu primeiro salário será muito, muito baixo.

ZENIT:Qual é a espiritualidade seguida?

Pe Gaetano: De São Francisco e a do Bom Pastor. No aspecto religioso, mantenho firmes os meus princípios, mas dou a eles a liberdade. Por exemplo, celebro a Missa e, algumas vezes, eles me pedem para participar. Mas é uma escolha livre. Há também a paróquia nas proximidades, onde eles podem ir para rezar e estar com os sacerdotes.

ZENIT:Como é a reintegração?

Pe Gaetano: É uma comunidade voltada para o exterior. Um dos problemas negativos da prisão e das instituições em geral, se não estivermos atentos, é que as pessoas se acomodam. E isso diminui a capacidade de iniciativa do individuo, porque tudo se torna direito e não dever. E o que ele encontra aqui deve deixá-lo melhor do que o que  ele encontrou.

ZENIT: Onde estão os padres Amigonianos?

Pe Gaetano: Em muitos países, especialmente na América Latina. Com grande atenção a esta realidade, embora também com algumas experiências de escolas privadas e até mesmo uma universidade de formação em pedagogia na Colômbia, psicologia para religiosos, aberta também para os jovens.

ZENIT: Como prevenir o problema das drogas entre os jovens?

Pe Gaetano: A grande dificuldade da juventude não é apenas o capricho. Existem elementos destrutivos que fazem parte de uma situação cultural, como o uso de substâncias tóxicas. Começam “fazendo-se de bobos”, buscando a transgressão. É difícil não encontrar, numa festa de adolescentes, alguém que não tenha levado isso. Falamos sobre drogas e as suas dificuldades, mas precisamos fazê-los entender a história da transgressão, que é possível se divertir de forma consciente.  Quando alguém transgride, perde a consciência da festa.