Escutar a juventude

A justa preocupação dos pais e educadores não deve fechá-los às inquietações dos jovens

Madri, (Zenit.org) Felipe Arizmendi Esquivel | 467 visitas

Em um programa dominical de rádio que eu apresento, uma senhora me enviou esta mensagem: “Peço uma oração pelo meu filho, porque ele teve um relacionamento muito destrutivo e está sendo muito difícil para ele deixar essa mulher. Estou pedindo a Deus há anos pela conversão dele, mas parece que Deus não me escuta”.

Eu me pergunto quem é que não escuta quem: é Deus, é a mãe que não escuta o filho, é o filho que não escuta a mãe? A coisa mais difícil na vida é aprender a escutar. E isso que Deus nos deu só uma boca, mas duas orelhas!

Com frequência nos queixamos de que os jovens são instáveis, chegam tarde, são irresponsáveis, não são confiáveis para assumir cargos, se deixam levar pelas modas e pelos novos ares do mundo, etc. Não temos a vontade nem o tempo para dar carinho a eles e escutá-los com paciência e compreensão, para deixá-los abrir o coração conosco.

Em nossa diocese, preocupados com os sinais dos tempos que interpelam a nossa pastoral, dedicamos uma assembleia de uma semana ao fenômeno juvenil, dando a oportunidade para jovens de diversos contextos compartilharem a sua experiência de vida. Fomos impactados pelos seus questionamentos e desafiados a promover uma pastoral juvenil melhor, que vai se fortalecendo perceptivelmente. Dedicamos outras assembleias também à família, à pastoral da terra, às mudanças culturais, etc.

ILUMINAÇÃO

O papa Francisco nos recomendou no Brasil: “Vamos ajudar os jovens. Ofereçam os ouvidos para escutar os sonhos deles. Eles precisam ser escutados, para escutar as suas conquistas, escutar as suas dificuldades. É ficar sentado, escutando talvez o mesmo texto, mas com uma música diferente, com identidades diferentes. A paciência de escutar, é isso o que eu peço de todo o coração, no confessionário, na direção espiritual, no acompanhamento. Saibamos ‘perder tempo’ com eles. Semear custa e cansa, cansa muitíssimo. E é muito mais gratificante aproveitar a colheita; todos gostamos mais da colheita. Mas Jesus nos pede para semear a sério. Não poupemos esforços na formação dos jovens. Ajudar os nossos jovens a redescobrir o valor e a alegria da fé, a alegria de ser amados pessoalmente por Deus, isso é muito difícil, mas, quando um jovem entende isso, quando um jovem sente isso com a unção do Espírito Santo, esse fato de ser amado pessoalmente por Deus o acompanha durante toda a vida depois” (27 de julho de 2013).

Em entrevista a uma emissora brasileira, Francisco afirmou: “Um jovem que não protesta, eu não gosto, porque o jovem tem o sonho da utopia… Um jovem tem mais frescor, menos experiência da vida… Às vezes, a experiência da vida nos freia; o jovem tem mais frescor para dizer as suas coisas. Um jovem é essencialmente um inconformista, e isso é muito lindo. Temos que escutar os jovens; dar espaço de expressão para eles e cuidar deles, para que eles não sejam manipulados. Cuidado com a manipulação dos jovens! O jovem tem sempre que ser escutado. Numa família, um pai, uma mãe, que não escutam o filho jovem, eles o isolam, provocam tristeza na alma dele e não se enriquecem nem eles mesmos. Sempre temos que escutá-los e defendê-los de manipulações estranhas, de tipo ideológico, de tipo sociológico. Escutá-los, criar um clima de escuta”.

COMPROMISSOS

Pais de família e educadores: para não ficar só lamentando que a juventude está se perdendo, que ela trilha maus caminhos, que ela é incontrolável, aprendamos a escutar os jovens com respeito, com atenção, paciência e amor. Não é fácil, porque é preciso ter serenidade e humildade, já que às vezes eles esfregam falhas nossas na nossa cara que não gostamos de reconhecer. Alguns pais pensam que vão educar os filhos na base de gritos, violência e insultos, porque talvez seja isto o que eles viveram e sofreram. É contraproducente. Alguns filhos aguentam, mas outros se rebelam e vão embora de casa.

Agentes de pastoral: vamos colocar em prática os compromissos que fizemos na nossa assembleia. Fortalecer a estrutura diocesana de pastoral juvenil e a sua área respectiva. Ir ao encontro dos jovens e das jovens para escutá-los, começando por aquilo em que eles acreditam. Dentro da opção preferencial pelos pobres, priorizar os jovens. Criar um plano de formação levando em conta a palavra dos jovens.