Espanha: congresso Católicos e Vida Pública pede coerência e testemunho cristão aos políticos

Ex-embaixador socialista afirma que nenhum partido político pode fazer da Igreja um inimigo a combater e que denunciar os atuais acordos do Estado espanhol com a Santa Sé evidencia uma ausência total de propostas

Madri, (Zenit.org) Ivan de Vargas | 312 visitas

Terminou neste domingo o XV Congresso Católicos e Vida Pública, que, com o título “Espanha: razões para a esperança”, foi celebrado durante o fim de semana na Universidade CEU San Pablo, em Madri.

O evento é um encontro anual imperdível para o catolicismo social no país. Organizado pela Associação Católica de Publicitários e pela Fundação Universitária San Pablo CEU, o congresso teve a participação de especialistas e profissionais de prestígio do mundo político, econômico e social, que aprofundaram no tema proposto da perspectiva da fé e através dos valores cristãos.

Durante a conferência de encerramento, o ex-embaixador da Espanha perante a Santa Sé e membro do partido socialista (PSOE), Francisco Vázquez, reconheceu que fazer polêmica sobre os acordos vigentes ente Igreja e Estado, como pretende o seu partido, “é uma coisa fora de lugar”. Essa intenção “evidencia as carências ideológicas de quem propõe esse passo para trás e a sua ausência total de propostas”, enfatizou.

Para o embaixador, não há fundamento para denunciar tais acordos, dado que, “na Espanha de hoje, a Igreja não tem nenhuma situação de privilégio”. Os acordos, complementou, não estabelecem “nada diferente dos tratados e acordos que a Igreja mantém com uma parte dos 180 países que têm relações diplomáticas com ela”. Não é compreensível, portanto, a pretensão de “fazer da Igreja um inimigo a combater”. O embaixador ainda lamentou que "aqueles que agem assim fechem as portas para a presença de cristãos nas suas fileiras”.

Outro dos temas abordados foi a coerência que se espera do político no tocante às suas ideias e crenças. Neste ponto, o palestrante pediu que o debate público seja construído sobre a premissa do respeito a essas convicções, destacando que “é preciso que prevaleça nas questões fundamentais a necessária irrenunciabilidade aos ditames morais da nossa consciência”, âmbito em que emerge com singular importância o da crença na “natureza transcendental da vida” e na sua “defesa desde a concepção até a morte”.

Perguntado sobre o papel dos católicos na Espanha, o embaixador considerou necessário “agir de acordo com os mandamentos evangélicos e seguir as diretrizes estabelecidas pela doutrina moral e social da Igreja”. Ele advertiu também que “é preciso contar com situações que nos obrigarão a não ter medo de ser dissidentes quando a verdade de outros é estabelecida contra os nossos princípios”. Nesses casos, “temos que nadar contra a corrente”.

Por outro lado, ele ressaltou que é verdade que “a doutrina da Igreja nos dá as respostas”, mas “os complexos, no mais das vezes, nos levam a ficar em silêncio” ou “a ter vergonha de nos identificar como cristãos”.

Diante dos parlamentares que abarrotavam a aula magna do CEU, Francisco Vázquez incidiu sobre os três princípios de conduta que são irrenunciáveis nesta época de crise: “a participação na vida pública, a congruência entre conduta e consciência e o testemunho permanente da condição de católico”. E concluiu afirmando que, hoje em dia, “participação, congruência e testemunho” são necessários, “por mais dissabores que possam provocar”.

Depois da conferência do ex-embaixador perante a Santa Sé, o presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE) e arcebispo de Madri, cardeal Antonio Maria Rouco Varela, fez breves considerações a respeito do título desta edição: “Espanha: razões para a esperança”. Uma das questões que, a seu modo de ver, ainda permanecem abertas é a da “unidade do político católico na sua ação política”. Não se trata de intrometer-se na unidade de critério dentro dos partidos, explicou o cardeal Rouco, mas da necessidade de coerência de critério quanto a temas “básicos”, como “o bem comum e o Estado”.

O purpurado recordou ainda o papel essencial que cabe ao católico na vida pública: o de “purificar a razão” por meio da fé, libertando-a do “peso da mentira que é o ‘não’ a Deus”.

Junto com o cardeal arcebispo de Madri, fizeram parte da mesa da cerimônia de encerramento o presidente da Associação Católica de Publicitários (ACdP), Carlos Romero, o bispo auxiliar de Madri, dom Fidel Herráez, o vice-presidente da Fundação Universitária San Pablo CEU, Manuel de Soroa, e o diretor do congresso Católicos e Vida Pública, Rafael Ortega.