Espanha: novo diretor territorial da Legião de Cristo

Em entrevista, o padre Carlos Zancajo fala sobre passado, presente e futuro

Roma, (Zenit.org) Redacao | 318 visitas

O padre José Carlos Zancajo Sastre, LC, é o novo diretor territorial da Legião de Cristo e do movimento Regnum Christi na Espanha. Ele assumirá o cargo em 15 de outubro, ao terminar o mandato do padre Jesús María Delgado.

Natural da cidade espanhola de Ávila, Zancajo tem 76 anos e viveu os últimos 30 na Venezuela, onde impulsionou o Regnum Christi e toda a sua obra educativa e apostólica. Licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de Valencia e em Filosofia e Teologia pela Universidade Pontifícia Gregoriana, é capelão e professor na Universidade Metropolitana de Caracas. Foi eleito para participar do último Capítulo Geral da congregação, em janeiro deste ano. Sua nomeação como novo diretor territorial da Espanha, bem como a dos seus quatro conselheiros, aconteceu depois das consultas preceptivas.

O anúncio da nomeação foi feito pelo novo diretor geral da Legião de Cristo, padre Eduardo Robles Gil, em carta enviada nesta semana à congregação. No texto, Robles Gil também agradece ao padre Delgado pelo seu trabalho e comunica que ele será destinado a vários projetos na sede da Diretoria Geral, em Roma.

Acompanhe a entrevista com o pe. José Carlos Zancajo Sastre.

1. Depois de tudo o que o senhor viveu, pe. Carlos, ainda acredita em Deus?

Pe. Carlos: “Creio, Senhor, mas aumentai minha fé”!

2. E na Igreja?

Pe. Carlos: “Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica”. Eu nasci nela, vivo nela e é nela que eu quero morrer, com o auxílio divino.

3. O que é a Legião de Cristo para o senhor?

Pe. Carlos: A Legião é a mãe da minha vocação sacerdotal, caminho da minha santificação, instrumento do meu apostolado. Minha família espiritual.

4. E o movimento Regnum Christi?

Pe. Carlos: É a “Igreja em miniatura”, o campo e o método para o meu apostolado.

5. Depois de praticamente a vida toda fora da Espanha, o senhor volta para a sua terra. O que está sentindo?

Pe. Carlos: Eu me sinto um pouco perdido. A Espanha deve ser outra, muito diferente da que eu conheci há 40 anos. É a “terra prometida” desconhecida, para onde Deus me leva agora que eu não sou mais tão jovem. Assusta um pouco.

6. O senhor ainda tem família na Espanha? Já a visitou?

Pe. Carlos: Eu tenho a minha mãe, idosa, quatro irmãs, nove sobrinhos, cunhados… Meu pai e meu irmão já morreram. Faz três anos que não vejo a minha família. Espero vê-los logo, se Deus quiser.

7. O senhor entrou na Legião aos 11 anos. Se lembra de como era a sua relação com Deus naquele tempo?

Pe. Carlos: Me lembro! Era uma relação espontânea, intensa, alegre. Muita eucaristia, muita devoção à Virgem Maria, muito amor às almas.

8. Como foi que Deus lhe disse “Quero que você seja sacerdote”?

Pe. Carlos: Pouco a pouco. Deus não me falou no ouvido, mas através dos acontecimentos, das experiências da vida, dos contatos humanos. Ele me falou pouco a pouco, sim, mas com muita clareza. E algumas experiências inefáveis de Deus ratificaram [o chamado].

9. E como o senhor respondeu?

Pe. Carlos: Também foi pouco a pouco... A descoberta dos problemas e das necessidades dos homens, da Igreja… Era um apelo crescente para fazer alguma coisa e não passar de lado, com indiferença. O sacerdócio na Legião de Cristo foi a minha resposta.

10. O senhor volta [à Espanha] como diretor territorial da Legião de Cristo e do Regnum Christi. Quais vão ser os seus principais objetivos?

Pe. Carlos: Viver as diretrizes do Capítulo Geral com todos os meus irmãos, legionários e membros do Regnum Christi. Eu espero que todos nós estejamos de acordo nisso e que Deus nos dê humildade e generosidade.

11. Por que aceitou esta missão? Como lhe propuseram e o que o senhor pensou no momento?

Pe. Carlos: Eu aceitei por obediência. Propuseram a queima-roupa, por e-mail. Achei que tinha que haver opções melhores do que eu, mas eu não questiono as ordens dos meus superiores legítimos: “oboedientia et pax”.

12. O senhor participou do Capítulo Geral da Legião de Cristo. O que ele significou, pessoalmente?

Pe. Carlos: O capítulo, para mim, foi uma graça de iluminação e de renovação pessoal. Eu cheguei com medo do desconhecido, porque fazia 30 anos que estava na periferia, e pela turbulência institucional que nós atravessamos. Mas saí contente por ter participado e saí decidido a viver de acordo com as suas inspirações e diretrizes, que a Igreja ratificou.

13. O que o senhor acha da autonomia da vida consagrada no Regnum Christi?

Pe. Carlos: Nós falamos muito no capítulo sobre esta realidade nova. É um fato que o ramo consagrado atingiu a maturidade para organizar a própria vida. O ponto difícil é harmonizar várias e diversas autonomias, do Regnum Christi, dos Legionários de Cristo, dos consagrados e consagradas, ao lidar com as realidades apostólicas, espirituais e materiais que nós compartilhamos. O Espírito Santo irá nos dando as soluções corretas se nós formos dóceis às suas verdadeiras e provadas inspirações.

14. Como o senhor considera que os leigos não consagrados podem contribuir no Regnum Christi?

Pe. Carlos: Cada um tem uma vocação dentro do Corpo Místico de Cristo, conforme os desígnios de Deus, em que todos nós somos importantes. A Igreja disse: “É a hora dos leigos”, ou seja, o trabalho de evangelizar é responsabilidade deles também, como era nos primeiros séculos, antes que se formasse um clero onipresente. Por isso, ou os leigos católicos assumem os seus compromissos batismais ou a obra redentora de Cristo não chegará a milhões de pessoas que tanto precisam.

15. Como vai ser a transição com o pe. Jesús María?

Pe. Carlos: Tem que haver uma transição, porque eu sou neófito nessas questões de governo e desconheço o terreno onde vou trabalhar. Eu confio totalmente no pe. Jesús María para organizar essa transição. Tive a oportunidade de conhecê-lo durante o capítulo. Agora ele tem que desenhar essa passagem da sua rica experiência para a minha completa ignorância. E já se sabe: “O discípulo raramente supera o mestre”. Aviso.

16. Na Espanha, o Regnum Christi tem 7 colégios e 1 universidade. O que o Regnum Christi oferece à educação? Qual é a essência das obras educativas?

Pe. Carlos: O essencial é que, além de prestar um serviço específico educativo de qualidade, elas sejam evangelizadoras, favoreçam o conhecimento e a experiência de Cristo Salvador. E o Regnum Christi é isso mesmo: pessoas de qualidade humana e profissional, com um testemunho pessoal da salvação que Jesus Cristo nos dá e que nós queremos compartilhar com o maior número possível de pessoas, por amor de caridade.

17. O senhor é professor na Cátedra de Ética da Universidade Metropolitana de Caracas. Quais são os frutos desse trabalho?

Pe. Carlos: Ajudar a pensar antes de tomar decisões. Ponderar, antecipar e assumir as consequências da nossa liberdade. Eu sou socrático, maiêutico.

18. Como o senhor experimentou o carisma do Regnum Christi? Como o explicaria?

Pe. Carlos: Tema complexo! Os carismas de Deus são para ajudar a Igreja e a humanidade. O concílio Vaticano II e os grandes papas do século XX destacaram que, apesar de tanto progresso material, o mundo se apaga e morre por falta da presença viva de Jesus Cristo, nosso Deus e Salvador. Os jovens, as famílias, a atividade econômica e cultural, em todas as suas vertentes, padecem de imediatismo e de muito egoísmo. Nós presenciamos uma recaída geral no neopaganismo. Podemos sentir o mesmo desassossego interior agudo de São Paulo, ao percorrer a cidade cheia de ídolos, que deixam os homens frustrados e enganados. O que fazer? O mesmo que São Paulo: “O amor de Cristo nos urge. Ai de mim se não evangelizar! Porque não existe outro nome em que possamos encontrar a salvação senão o Nome bendito do Senhor Jesus”. Como fazer? Nós temos que ser eficientes sem medo, porque os recursos são escassos para uma tarefa tão ingente. Temos que nos concentrar em alguns programas e obras de maior alcance e incidência, segundo as circunstâncias; despertar responsabilidade evangélica e liderança em qualquer pessoa, porque “a messe é muita e os operários são poucos”. E ser santos hoje, acima de tudo. Em resumo: urgência, eficácia, zelo ardente no serviço apostólico.

19. O que é o futuro?

Pe. Carlos: O que Deus me amará.

20. E o passado?

Pe. Carlos: O que Deus me amou.

21. O senhor foi o diretor da primeira equipe de consagrados do Regnum Christi. O que o senhor conheceu dessa vocação durante aquele tempo?

Pe. Carlos: Era a fundação. Quase nada estava definido, a não ser algumas poucas coisas: aqueles jovens tinham que ter uma excelente formação profissional e espiritual e depois teriam que ser capazes de exercer uma liderança notável no seu meio, precisamente pela força da sua consagração a Jesus Cristo e pela sua excelente preparação.

22. Naquela equipe, aliás, estavam o pe. Álvaro Corcuera [diretor geral até este ano] e o [novo diretor geral] pe. Eduardo...

Pe. Carlos: Pois é. Nós tentávamos ser uma família. Eu dava a formação espiritual. E alguns chutes no futebol, quando o meu time perdia... Mas eles organizavam o seu próprio apostolado, os seus estudos profissionais, o seu trabalho. Eu vivi feliz com eles e guardo lembranças que até hoje me entusiasmam. Era um grupo excepcional, a meu modo de ver.

23. Quem é o pe. Marcial Maciel para o senhor? O senhor o conheceu pessoalmente? O passado está superado ou essa sombra ficará para sempre sobre nós?

Pe. Carlos: Para mim, ele é e será sempre o fundador da Legião de Cristo e do Regnum Christi. Eu o conheci muito de perto entre os anos 1974 e 1981. Para mim, ele nunca deu o menor mau exemplo. Pelo contrário, ele foi, para mim, um grande estímulo para ser um bom sacerdote, cheio de zelo apostólico e apaixonado por Jesus Cristo. Para mim foi uma tragédia inexplicável tudo o que se descobriu depois. Como disse Bento XVI, “é uma figura enigmática”. O que aconteceu não pode nunca ser apagado. Faço meu o que foi dito pelo Capítulo Geral: ao ponderar a gravidade do mal e o escândalo causado, nós nos descobrimos sob o olhar misericordioso de Deus, que, com a sua providência, continua guiando os nossos passos. Unindo-nos a Jesus Cristo, esperamos redimir a nossa história dolorosa e vencer com o bem as consequências do mal. Só assim poderemos encontrar sentido evangélico no que aconteceu e construir o nosso futuro sobre os fundamentos sólidos da confiança em Deus, da fidelidade à Igreja e da verdade. Os acontecimentos desses anos vão marcar a identidade e a vida da nossa congregação. À luz da Providência divina, podemos acolher, enfrentar e transformar isso num elo para uma nova etapa da nossa história.

24. O senhor lê? Ouve música? Algum hobby?

Pe. Carlos: Eu gosto muito de ler. Muito. Especialmente boas biografias, história e temas de atualidade. Não leio muita ficção porque não tenho tempo suficiente. A música me descansa e me anima, a clássica, a clássica popular… Apesar de que a minha surdez não me ajuda muito para apreciar os matizes. Eu sinto. Sempre gostei do campo, da natureza, porque é um livro aberto que fala do Criador. Eu sou filho de agricultores e fico fascinado com o “desenho inteligente” que aparece em toda a Criação.

25. Depois de 30 anos na Venezuela, o que o senhor leva e o que o senhor deixa?

Pe. Carlos: “Um milhão de amigos” e algumas boas obras materiais e espirituais. Trago as angústias de um país maravilhoso que não consegue achar o caminho da modernização e do progresso para todos e ensaia fórmulas fracassadas que o atrasam. Deus assista a Venezuela com bons dirigentes, que é disso que ela mais precisa. Como dizia o Mio Cid: “Que bom vassalo seria se tivesse bom senhor”!

26. O senhor é um grande conhecedor de Santa Teresa de Jesus?

Pe. Carlos. Ela é um bom exemplo da soberana eleição divina e de resposta generosa. Conheço todas as obras dela. De São João da Cruz também. São grandes mestres de vida espiritual, de amor a Jesus Cristo: “Nada te turbe, nada te espante, a paciência tudo alcança, só Deus basta. Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”. Eles são um presente de Deus para a Espanha.

27. Uma mensagem para todos os membros do Regnum Christi da Espanha, padre.

Pe. Carlos: O que João Paulo II nos disse: “Se vocês forem o que têm que ser, atearão fogo ao mundo inteiro”.

28. O senhor é feliz?

Pe. Carlos: Não me faltam momentos de profunda alegria. Mas eu serei feliz quando não vir mais as pessoas sofrendo. Enquanto isso, tento dar e receber compaixão e misericórdia.