Estados Unidos: é fundamental viver a fé também fora das igrejas

Entrevista com o padre palotino Frank Donio, diretor do Centro do Apostolado Católico em Washington

Roma, (Zenit.org) Jose Antonio Varela Vidal | 591 visitas

Está prestes a terminar o Ano da Fé, que foi convocado pelo papa emérito Bento XVI e que será encerrado pelo papa Francisco, no Vaticano. Ao longo deste ano, o assunto “fé” foi iluminado diante de um mundo que se aventurou a viver sem absolutos e ao sabor dos mercados econômicos, sempre excludentes.

A Igreja sai fortalecida desta celebração: uma encíclica sobre a fé, encontros e cerimônias de reafirmação para os crentes, novos santos e beatos evangelizadores e a expectativa de um novo Sínodo dos Bispos em 2014, focado no tema urgente da família.

De um lado ao outro do planeta, católicos incrementaram os seus esforços missionários ad intra e ad extra. A resposta dos fiéis foi generosa e entusiasta, como a de “leões adormecidos” que despertam, e servirá para elaborar uma estratégia melhor para os tempos atuais.

Uma dessas instituições é o Centro do Apostolado Católico (Catholic Apostolate Center), de Washington, capital dos Estados Unidos, uma obra da província da Imaculada Conceição, dos religiosos palotinos.

ZENIT conversou com o padre Frank S. Donio, SAC, diretor do centro, que conhece bem o que significa achar novos caminhos para a evangelização, mesmo numa sociedade tão competitiva e técnica como é a norte-americana.

Estamos perto do final do Ano da Fé. O que permanecerá nos crentes depois desta experiência mundial?

--Padre Donio: O Ano da Fé foi uma oportunidade espiritual para refletirmos sobre a nossa relação pessoal com Jesus Cristo e para darmos testemunho da fé e da caridade. A minha esperança é que esta mensagem tenha se enraizado na vida dos crentes e dê os seus frutos numa renovação maior, não só da Igreja, mas do mundo.

Este ano foi rico em atividades e encontros dos diversos setores. Onde é que a Igreja tem que insistir mais para o aprofundamento da fé?

--Padre Donio: No testemunho pessoal da fé, tanto nas palavras quanto nos atos da vida cotidiana. As atividades e encontros nos ajudam a crescer na fé, mas o testemunho pessoal é capaz de transformar a vida dos crentes, da Igreja e do mundo. Conhecer a fé através da catequese não é suficiente; viver a fé na vida cotidiana, fora dos edifícios das igrejas, é que é fundamental.

Estatísticas recentes da Propaganda Fide mostram que a Igreja tem uma grande obra missionária e de ação social e de caridade no mundo. Em que áreas geográficas a força e a presença da Igreja precisariam ser mais reforçadas?

--Padre Donio: Como todos sabem, a Igreja está crescendo no hemisfério sul a um ritmo excepcional numa série de lugares, mas, ao mesmo tempo, está diminuindo no norte. A nossa solidariedade com os outros, como Igreja global, pode beneficiar a todos se nós estivermos dispostos a ir além do nacionalismo e dos preconceitos. Uma colaboração mais estreita com os outros no serviço à fé e às necessidades sociais e de caridade pode ser um remédio para a escassez em qualquer área.

É um envio permanente, não é isso?

--Padre Donio: Eu, pessoalmente, tenho visto o benefício desse tipo de colaboração na minha própria comunidade religiosa, os palotinos, e na associação da qual nós fazemos parte, a União do Apostolado Católico. Estamos em mais de cinquenta países e, quando trabalhamos bem em parceria, as necessidades da fé e da caridade são atendidas mais plenamente. E outras são reforçadas, e novas oportunidades vão se desenvolvendo. Esse tipo de colaboração gera esperança.

Hoje nós vivemos numa sociedade laica. O mundo se move ao ritmo das teorias econômicas. Como apresentar o evangelho aos homens e mulheres desse tempo?

--Padre Donio: O testemunho dos crentes que é autêntico, caridoso, aberto, hospitaleiro, acolhedor e comunitário é uma resposta para quem acha que a sociedade laica é individualista. As pessoas são usadas e descartadas. Só tem lugar quem é útil. Muitos adultos jovens, com quem eu trabalho na pastoral, enxergam a mentira desse pensamento. Eles lutam para encontrar trabalho, têm dívidas e estão herdando os problemas econômicos provocados pelas gerações anteriores. A Igreja oferece uma comunidade de crentes que, no melhor dos casos, se preocupa com os outros e ajuda a todos a levar uma vida virtuosa, com valores e com uma meta que é eterna, não passageira.

Neste ano foi lançada a encíclica Lumen fidei. Qual é a novidade doutrinal deste documento?

--Padre Donio: Não é algo novo, mas renovado. A Lumen fidei é nova porque foi escrita pelo santo padre Francisco e pelo papa emérito Bento XVI. Ela oferece uma exposição clara da fé e de como vivê-la num mundo que precisa da luz de Jesus Cristo. 

Durante o Ano da Fé, a Igreja viveu a mudança de papa. Como você vê os primeiros sete meses do papa Francisco?

-Padre Donio: O papa Francisco já conseguiu, com o testemunho dele, mudar a narração comum e laica sobre a Igreja nos últimos anos: escândalo, discórdia, etc. No lugar disso, com uma fé que é vivida na caridade, ele nos mostra como dar testemunho da esperança no mundo. Todos nós estamos ainda aprendendo sobre ele, mas o testemunho dele é claro e desafia a todos a refletir mais sobre como nós vivemos aquilo em que dizemos acreditar. Com o tempo, vamos poder saber mais, mas eu vi nele um profundo exemplo de fé que me fez examinar profundamente a minha forma de viver como religioso e como presbítero.

Na mesma reflexão, qual foi o principal legado deixado pelo papa Bento XVI?

-Padre Donio: Tudo o que o papa Bento fez pela Igreja vai ser compreendido e apreciado mais plenamente com o tempo, como é o caso de qualquer legado. O papa Francisco nos oferece um exemplo quando convida o papa Bento XVI a continuar sendo um presente, não um passado, como uma testemunha. Podemos aprender a ler o que Bento XVI escreveu e valorizar a bênção que é tê-lo ainda conosco.

O papa Francisco está dirigindo a Igreja com gestos humildes e pautas simples, mas há quem o critique por deixar o papado “simples demais”. Isso é real?

-Padre Donio: Os críticos vão existir sempre, não importa quem seja o papa. Alguns criticaram o papa Bento XVI por causa da renúncia, dizendo que ele diminuiu o papado. Eu prefiro me concentrar no fruto do testemunho dos dois, e esse testemunho se chama humildade. Renunciar ao papado, como o papa Bento XVI renunciou, não foi um ato de uma pessoa egoísta. E viver do jeito que o papa Francisco vive também não é um ato de uma pessoa egoísta. São atos de homens de grande oração, que focam em Cristo, não neles mesmos. Num mundo que está apaixonado pela celebridade, a verdadeira humildade é aquela que foca no bem do outro, na verdadeira caridade. Diante disso, nós temos que fazer uma pausa e avaliar a nossa própria vida.

Também há quem critique porque o papa insiste em dizer que o trabalho da Igreja tem que ficar centrado na mensagem de Cristo, e não se obcecar com questões de moral sexual, por exemplo. 

-Padre Donio: Jesus Cristo não é um quê, mas um quem. Nós podemos ter uma relação pessoal com ele. Ele não está longe de nós, ele é nosso irmão que nos leva à salvação. Todos os nossos ensinamentos morais se baseiam nesta relação, mas não são o ponto de partida da fé. O ponto de partida é a relação com Jesus Cristo. O batizado continua a missão de Cristo, ele trabalha através de nós, e ajuda os outros a experimentar a vida nele. Somos enviados, como discípulos missionários, como apóstolos, para ser testemunhas no mundo. O nosso testemunho é de palavra e de obra, que inclui a vida moral, vivendo o amor de Deus e do próximo. Os missionários não vivem vidas compartimentadas. A fé e a caridade vivem juntas, não é uma ou outra.

Parece novidade, mas não é, certo?

- Padre Donio: Nada disso é uma mensagem nova. O que parece novo é que alguns estão escutando isto pela primeira vez, possivelmente porque a linguagem utilizada é singela e direta.

Como vocês viveram o Ano da Fé no Centro do Apostolado Católico e na província da Imaculada Conceição dos palotinos nos Estados Unidos? Quais foram as linhas principais que surgiram desta experiência para o trabalho futuro?

-Padre Donio: O Centro do Apostolado Católico se desenvolveu enormemente durante o Ano da Fé. Oferecemos oportunidades às pessoas para crescer na fé e na caridade. Isso através dos nossos muitos recursos online, além dos programas e atividades que nós fazemos em parceria com a conferência episcopal, com as arquidioceses e dioceses, com as instituições educativas e diversas organizações internacionais e nacionais. Nós oferecemos também um espaço em Washington para as nossas organizações, afiliadas ou não, fazerem uma renovação espiritual e de parceria. Esperamos continuar ampliando a colaboração do centro fora da América do Norte e estamos examinando formas concretas para isso.

E os planos de expansão?

-Padre Donio: Como província, nós começamos um trabalho missionário numa região remota do Peru, que amplia a presença dos palotinos na América do Sul. Esses esforços durante o Ano da Fé e o nosso ano jubilar pelo quinquagésimo aniversário da canonização de São Vicente Pallotti (22 de janeiro de 2013), nos trouxe grandes oportunidades para atualizar a obra da nova evangelização.