Estamos reencontrando a simplicidade e o fervor das origens

Palavras do cardeal Comastri ao papa. Pontífice apresenta sacerdote uruguaio que trabalha com dependentes químicos

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 1063 visitas

Após a missa celebrada pelo papa Francisco na paróquia de Santa Ana, no interior do Vaticano, o cardeal concelebrante Angelo Comastri, vigário geral do papa para a Cidade do Vaticano e arcipreste da Basílica de São Pedro, tomou a palavra: “Quando Sua Santidade fez o discurso [logo após ser anunciado como o novo papa, ndr], às 19h05, porque eu olhei para o relógio, tinha que ter visto a cara dos cardeais. Durante dois mil anos, nunca tinha acontecido na Igreja que um papa se chamasse Francisco. Quem estava do meu lado me perguntou: como foi que ele disse? Francisco? Temos um papa Francisco? E os cochichos foram se espalhando”.

O purpurado recordou uma passagem da sua própria vida: “Em 1993, João Paulo II foi a La Verna. Eu era bispo na Toscana e fomos buscá-lo. No grande refeitório, depois do almoço, conversando com os frades e bispos, João Paulo II falou: ‘Aqui, de algum modo, nasceram os franciscanos, e, de alguma forma, também renasceu o cristianismo, reencontrando a simplicidade e o fervor das origens’”.

“Santo Padre, é isto o que está acontecendo: estamos reencontrando a singeleza e o fervor dos inícios”, declarou Comastri, emocionando os fiéis.

O cardeal contou que “no dia da eleição, quando fomos até a sacada e Sua Santidade apareceu para a primeira saudação, nós, cardeais, estávamos na sacada lateral. Os alto-falantes apontam para a praça e, por isso, nós não víamos nada, nem ouvíamos nada”.

E prosseguiu: “Quando percebemos que todas as pessoas estavam em silêncio, rezando, não tínhamos entendido o convite e nos perguntávamos: o que aconteceu, por que todos estão em silêncio desse jeito?”.

“Quando eu saí, perguntei ao primeiro que encontrei, que devia ser um operador do Centro Televisivo Vaticano, e ele me contou: ‘O papa pediu para as pessoas rezarem por ele e se inclinou para receber a oração do povo. Sabe que eu senti o perfume de Belém, do evangelho? E duas lágrimas me escaparam dos olhos’, me disse ele". Comastri confiou, então, aos presentes:  “E eu, que me comovo facilmente, também senti as lágrimas nos meus...”.

“Santo Padre, o mundo espera o perfume de Belém, o perfume do evangelho. Que a Igreja se encha do perfume do evangelho, que é o perfume de Jesus. Nós o acompanharemos. Muito obrigado”.

O papa Francisco assumiu então o microfone e se voltou aos presentes: “Alguns de vocês, aqui, não são paroquianos, como estes padres argentinos que estão aqui, e o meu bispo auxiliar, que por hoje serão paroquianos”.

A paróquia de Santa Ana recebe as pessoas que vivem dentro do Vaticano. Nela são administrados os sacramentos, batizados e casamentos. Entretanto, as missas são frequentadas por muita gente que vive nos arredores, e, aos domingos, até por bastante gente que mora longe.

Francisco prosseguiu: “Eu quero lhes apresentar um padre que veio de longe, que trabalha com os jovens da rua, com os usuários dependentes de drogas. Ele fez uma escola para eles, realizou muitas coisas para que eles conheçam Jesus. E todos aqueles jovens de rua agora trabalham, estudam, têm capacidade de trabalho, acreditam e amam Jesus. Gonzalo, por favor, venha saudar as pessoas”.

O sacerdote, relativamente jovem, se aproximou então do papa. “Ele trabalha no Uruguai”, prosseguiu Francisco, “é o fundador do liceu João Paulo II e faz esse trabalho. Eu não sei como ele chegou aqui hoje. Depois vou saber. Rezem por ele”.

Os cumprimentos ao papa foram feitos desta vez no exterior da igreja e no meio do povo, com a multidão aclamando em coro: “Francesco, Francesco, Francesco!”.

Cerca de cinquenta pessoas, uma por uma, se aproximaram para saudá-lo, abraçando-o e lhe beijando a mão... O papa, de pé, conversou brevemente com cada um e abençoou as crianças que estavam com seus pais, pedindo a todos para rezarem pelo papa.

Francisco se dirigiu então até o público, que se apinhava nas grades de proteção, cumprimentando e trocando apertos de mão com o povo. 

Na pequena igreja de Santa Ana, o ambiente da missa dominical não é muito diferente do que foi visto neste domingo no tocante à liturgia. Mas com o papa Francisco foi tudo diferente.