Estilo sóbrio de vida familiar para uma nova evangelização

Para uma nova evangelização, a família torna-se sujeito da missão ao testemunhar um estilo de vida cristão diante dos diversos cenários da atualidade

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Por Rafael Fornasier*

BRASILIA, segunda-feira, 17 de setembro de 2012 (ZENIT.org) - Em 2003, foi realizada a experiência de um Congresso Internacional para a Nova Evangelização em Viena, iniciativa abraçada e encabeçada por quatro cardeais: Christoph Schönborn (Viena) Jean-Marie Lustiger (Paris), Godfried Danneels (Bruxelas) e José da Cruz Policarpo (Portugal), aos quais se juntou em seguida o Cardial Péter Erdo (Budapeste). Durante os congressos, sucessivamente realizados em várias capitais européias, o falecido Cardeal Jean-Marie Lustiger insistira na necessidade de se viver, numa época de significativas mudanças, um “nouvel art de vivre” (uma nova arte de viver), um novo estilo de vida cristão, face aos diversos desafios contemporâneos.

Com efeito, esses congressos abriram um importante caminho de reflexão e partilha de experiências para o próximo Sínodo dos Bispos, que acontecerá em Roma de 7 a 28 de outubro, sobre a Nova Evangelização.

No Instrumentum laboris (texto de trabalho) preparado para o Sínodo e disponibilizado em várias línguas, apontam-se vários cenários como “lugares de anúncio do Evangelho e de experiência eclesial” (cf. Instrumentum laboris, 51). Um dos cenários individuados é o econômico. O Papa Bento, no Angelus de 12 de novembro de 2006, convidava cada pessoa e cada família a adotar um estilo de vida e de consumo diante dos desafios que já se apresentavam naquele momento, mas que se tornaram mais prementes nos últimos anos com a crise econômica e também ética. Cabe à pessoa e à família viver e anunciar uma nova arte de vida, um modus vivendi cristão que implica a simplicidade e um estilo de vida feito de escolhas humildes e sob o ideal evangélico da pobreza em vista de novas relações humanas que garantam, de fato, a preservação do meio ambiente e do próprio ser humano no seu habitat, no seu ethos próprio.

Para a nova evangelização, a família pode dar um belo testemunho em relação à utilização dos bens materiais e em suas relações interpessoais; em relação ao modo de propor e assumir o trabalho e prover à suas necessidades; em relação à economia, no sentido de uma boa administração da casa, do lar face à proposta consumista que pretende saciar a todo o custo a busca de bem-estar, prazer e satisfação da humanidade.

A partir de uma reflexão do Cardial de Milão, Dom Angelo Scola, num debate realizado antes do VII Encontro Mundial das Famílias com o Papa Bento XVI, pode-se afirmar que a família tem capacidade de levar uma mensagem ao mundo a respeito da relação entre necessidades materiais e a satisfação humana. O Cardeal Scola afirmara: “A necessidade é com muita frequência interpretada como direito exclusivo ao bem-estar. Essa é, ao invés, antes de tudo sinal de fragilidade. Se não se reconhece isso, a necessidade se transforma em pretexto e se torna fonte de domínio. De fato, a experiência da fragilidade não é resolvível pela lógica da dilatação indefinida do consumo: nada do que consumimos está em grau de remediar a estrutural “falta” (necessidade) que caracteriza o modo humano de estar no mundo. Pretender uma satisfação total através do consumo é um mito tecnocrático. Mesmo se a sua própria proposta parece ter atualmente esmorecido, este mito volta a ser incessantemente reproposto. Está, de fato, claro que o pretexto de recorrer ao consumo indiscriminado tem um custo humano, além do ambiental, de incalculável alcance, que cada vez menos pode conduzir à satisfação e à felicidade, muito menos àquela dos poucos que ainda dele se beneficiam.” (O texto está integralmente publicado na Revista Vida e Família, a revista da Pastoral Familiar no Brasil. Para adquiri-la, ligue para (61) 34432900 ou visite o site www.cnpf.org.br)

Portanto, para uma nova evangelização, a família torna-se sujeito da missão ao testemunhar um estilo de vida cristão diante dos diversos cenários da atualidade. O seu estilo de vida sóbrio, num mundo que contrariamente exalta o consumo e o ter, é verdadeiramente um válido instrumento para anunciar o Evangelho e testemunhar a fé (cf.  Instrumentum laboris, 71). Isso se manifesta pela caridade inventiva de seus membros, pela arte de reinventar as situações a fim de que a família continue aberta ao dom, às relações livres, responsáveis e comprometidas no tempo, à acolhida da vida e do outro, ao cuidado e defesa da vida desde a concepção até o seu fim natural, à partilha, ao serviço, à solidariedade e ao amor para com os homens e mulheres de nosso tempo.

*Pe. Rafael Cerqueira Fornasier é sacerdote da Arquidiocese de Niterói, membro da Comunidade Emanuel, mestre em Antropologia Teológica e assessor da Comissão Episcopal Pastoral para Vida e Família da CNBB.