Ex-Presidente do IOR: "Quantas coisas poderiam ter sido evitadas se eles não me tivessem demitido"

Gotti Tedeschi fala sobre a sua saída do IOR e os começos da reforma, quando Bento XVI dizia que 'tínhamos que ser exemplares'

Roma, (Zenit.org) Redacao | 360 visitas

Ettore Gotti Tedeschi foi o encarregado de realizar a reforma inicial do Instituto para as Obras de Religião (IOR), que presidiu desde 2009, cargo que ocupou até maio de 2012, quando foi demitido pelo Conselho de Superintendência do IOR. Tedeschi foi acusado de irregularidades na sua gestão, mas na semana passada a justiça italiana declarou a sua inocência.

O ex-presidente concedeu uma entrevista para a revista Vida Nueva, adiantada por Europa Press, na qual explica que se sente “amargurado” porque “foi a justiça italiana que esclareceu a verdade sobre o que aconteceu, enquanto que dentro da Igreja, pelo contrário, parece prevalecer até agora a posição daqueles que me queriam marginalizar”.

Tedeschi explica que "quem impediu minha reabilitação prejudicou muito a Igreja. Conseguiram impedir que não fosse interrogado, que não se escute a minha versão e nem a minha verdade sobre os fatos mais importantes destes últimos anos. Também sofro com todos os danos relacionados com este assunto que, como consequência, sofreu a Igreja, e agora Francisco. Quantas coisas teriam sido evitadas se não tivessem me demitido”.

Da mesma forma expressou que espera que a decisão do judiciário mude a atitude de uma parte da hierarquia eclesiástica com ele, e afirma que “ao lado do Papa trabalham muitas pessoas santas, mas também estão aqueles que não querem que saia a luz a verdade. Não desejam que seja reabilitado porque minha reabilitação implicaria a acusação implícita de outras pessoas".

Sobre o fato de ter guarda-costas, Tesdechi esclarece que nunca os teve, embora reconheça que “houve um momento de fortíssima tensão, ligado a acontecimentos anteriores à demissão”. E lembra o episódio do documento que deixou à sua secretária. “Decidi então escrever uma breve síntese para a minha secretária, que intitulei “Em caso de acidente”. Disse-lhe que, se me acontecesse algo, o documento tinha que ser enviado a três pessoas. Se não acontecesse nada, o documento e as suas conclusões não tinham sentido. Quando esses documentos acabaram, não sei como, nas mãos dos meios de comunicação, se considerou como uma demonstração do meu medo ao perigo”.

Mas esclarece que em determinados momentos "é a prudência, mais do que o medo, o que leva a elaborar uma documentação do que se está vivendo, de modo que se acontecesse um acidente, os que ficassem, soubessem as razões da minha prudência”. Graças a Deus e à magistratura italiana, não aconteceu nenhum acidente, destaca o ex-presidente do IOR.

Por outro lado, explica que o Santo Padre deu-lhe a tarefa de fazer uma serie de coisas que poderiam levar a Santa Sé a "uma disponibilidade adequada para a transparência que os mercados financeiros internacionais e os bancos centrais exigiam depois do 11 -S". Observa que as dificuldades surgiram porque a Santa Sé não funciona como um banco para terceiros, mas apoia obras religiosas. “Concentrei-me em realizar determinados projetos para que não houvesse perda de confiança nem de credibilidade com relação ao Santo Padre e à Igreja. A Igreja é a maior autoridade moral no mundo e o Santo Padre é o seu mais alto responsável. A ideia chave era de que essa autoridade moral fosse apreciada pelo modo em que continuava esta nova disciplina financeira, garantindo ao mesmo tempo a discrição das operações relacionadas com a sua atividade”, indica na entrevista.

Gotti Tedeschi lembra que houve fatos históricos que tinham colocado em causa a credibilidade do IOR e que "não só me foi pedido que conseguisse transparência e defendesse com discrição, mas também que a Santa Sé fosse exemplar. Bento XVI dizia que tínhamos que ser exemplares”. Depois menciona que "as leis contra a lavagem de dinheiro sujo que propusemos estavam supervisionadas pela Autoridade de Informação Financeira (AIF), que é um órgão interno da Igreja e cuja presidência recaía então em um importantíssimo cardeal, Attilio Nicora” e que “garantia que a aplicação da lei e dos procedimentos fosse supervisionada por uma organismo da Igreja, não por um ente externo”.Dessa forma especifica que “em caso de problemas, uma entidade externa tinha que referir a uma autoridade interna da Igreja, o AIF. Garantia assim a absoluta independência e autonomia. Também o direito a discrição”.

Também lembra que o Moneyval – entidade de controle do Conselho de Europa – visitou-lhes em novembro de 2011, disse-lhes que tinham realizado “um trabalho excelente", e que, embora tivessem que realizar algumas correções, se continuassem assim, poderiam entrar na White List. Mas, observa Tedeschini, a ênfase que o cardeal Nicora e ele deram aos controles internos, “não encontrou consenso por parte de muitos” e mudaram a lei, levando-a a uma insatisfação da Moneyval. "Mudaram, especialmente, o papel do AIF, que tinha que ser um organismo independente, mas passou a depender da Secretaria de Estado. É como fazer que o Banco da Itália dependa do Ministério do Tesouro. Moneyval o considerou intolerável”, destaca o ex-presidente do IOR.

Ainda assim afirma que gostaria de falar com o Papa Francisco ou com um emissário seu porque  “ninguém nunca” lhe perguntou, embora o tenha pedido “inúmeras” de vezes.

“Mentiram publicamente” ao Papa Bento XVI, revela. "Dizia-se que o Papa sabia de tudo e era ele que tinha querido tudo dessa forma”, e assim confirma como verdade o que disse o secretario pessoal de Bento XVI, mons. Georg Gänswein, em entrevista ao jornal italiano 'Il Messaggero' sobre que Ratzinger ficou surpreso com a demissão de Tedeschi.

Por fim, ressaltou que "o pior é que hoje se reconhece que tinha razão em tudo. De fato, teve-se que voltar às origens, aos procedimentos de então. Tiveram até que voltar a colocar o AIF na posição que pretendíamos. A magistratura falou que eu tinha atuado bem e que outros atuaram mal O final do escândalo Vatileaks demonstrou que não filtrei nenhum documento. Mas ninguém abriu uma investigação”.

[Trad.TS]