Exemplo de Zilda Arns deve inspirar ajuda ao povo do Haiti

Para D. Joaquim Mol, morte da sanitarista é “tragédia dentro de outra tragédia”

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BELO HORIZONTE, segunda-feira, 18 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Zilda Arns é “um exemplo de altruísmo que pode inspirar cada um a ajudar o povo do Haiti”, afirma o bispo auxiliar de Belo Horizonte e reitor da PUC Minas, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães.

Segundo o bispo escreve em artigo enviado a ZENIT hoje, a morte de Dra. Zilda foi “uma tragédia dentro de outra tragédia”.

“Zilda Arns cumpriria no Haiti apenas mais uma das milhares de atividades que, durante essas últimas décadas, vinha, de modo diligente e exemplar, realizando cotidianamente: defender a vida dos mais pobres. Impedir, especialmente, a morte prematura de crianças por falta de cuidados básicos.”

Dom Joaquim Mol recorda que, ao criar a Pastoral da Criança, Dra. Zilda inspirou-se no Evangelho.

“Como na multiplicação dos pães, a médica pediatra e sanitarista salientava que era urgente multiplicar informações e ações sobre os cuidados com as crianças. Tinha a convicção de que esse desafio antecedia a qualquer outra luta: era a condição básica para a sobrevivência dos mais pobres, buscando melhores condições para proteger e salvar gestantes e recém-nascidos”, afirma. 

O bispo lembra que em países como o Brasil, “principalmente em regiões mais carentes, em quase todo o século passado, a morte prematura de crianças, infelizmente, passou praticamente a ser aceita com naturalidade”.

“Em comunidades carentes, quando da morte de um bebê, costuma-se usar expressões como a de que ‘o recém-nascido não havia vingado’ - como se essas fossem situações naturais ou não passíveis de qualquer intervenção e reversão.”

Dom Joaquim Mol descreve Dra. Zilda como “líder nata”, que “inspirava tranquilidade, firmeza e doçura”. “Viúva, ela deixou cinco filhos, oito netos e era irmã de algumas das maiores personalidades da vida religiosa brasileira: Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Crisóstomo”.

Foi juntamente com Dom Paulo que, no início dos anos 80, Zilda Arns teve a ideia de que a Igreja Católica poderia ajudar a reverter a situação da mortalidade infantil no país, assinala o bispo auxiliar de Belo Horizonte. 

Logo em seu início, a Pastoral da Criança conseguiu resultados expressivos, reduzindo, em um ano, a mortalidade infantil no município de Florestópolis (Paraná), de 127 mortes por cada mil crianças nascidas vivas, para 28 por mil.

Com o apoio da Igreja Católica, a Pastoral foi levada a todos os 27 Estados brasileiros e, posteriormente, para dezenas de outros países.

“Entre tantos mistérios que a finitude humana guarda, a morte da nossa estimada doutora Zilda, que tanto lutou pela vida, especialmente a dos mais humildes, deve nos alertar também para isso: o quanto é frágil a vida e, por isso mesmo, o quanto é preciso defendê-la urgente e permanentemente”, afirma Dom Joaquim Mol. 

Servidora

Na missa de corpo presente da fundadora da Pastoral da Criança, na tarde de sábado, em Curitiba, o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Dom Geraldo Lyrio Rocha, a qualificou de “servidora de Deus e da humanidade”.

Na homilia da missa que antecedeu ao sepultamento, Dom Geraldo Lyrio destacou a perseverança de Dra. Zilda e o legado deixado por sua obra.

“Dra. Zilda perseverou deixando esta preciosa herança para a Igreja e para o mundo que é a Pastoral da Criança. Sua perseverança tinha motivações muito profundas na fé, na vivência do Evangelho, no amor”, disse.

Para Dom Geraldo Lyrio, a obra fundada por Dra. Zilda é a “mais bela ação concreta da evangélica opção pelos pobres”.

Após a missa, da qual participaram dezenas de bispos e autoridades civis, o corpo foi levado para o cemitério Água Verde, onde foi sepultado em cerimônia reservada. Cerca de 7.000 pessoas compareceram ao velório da médica, entre a sexta-feira e o sábado.

(Alexandre Ribeiro)