Existe uma arte cristã que vai além da fé do autor

Entrevista com Pe. Alessio Geretti, responsável dos eventos artísticos do Ano da Fé

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Por Ir. Sergio Mora

ROMA, terça-feira, 18 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) - A arte permite que todos entrem em contato com a mensagem da revelação cristã. A beleza é um antídoto para o mundo "cinza" de hoje, porque nos permite redescobrir a maravilha das coisas.

No entanto, esta não é uma prerrogativa reservada aos artistas cristãos. Mesmo alguém que não crê pode, voluntariamente ou não, criar obras com a capacidade de comunicar a beleza do Evangelho.

Todas essas são as considerações importantes sobre a arte que deu o pe. Alessio Geretti, organizador dos eventos artísticos do Ano da Fé,  na entrevista concedida à ZENIT.

Quarentão, friulano, pe. Alesssio é sacerdote em São Floriano de Illegio, um cidade com menos de 400 habitantes, que começou a aventura de organizar grandes eventos de caráter nacional e internacional; o mais recente é o concerto da Missa em si menor de Bach, interpretado por uma orquestra húngara juntamente com o coro do Friuli Venezia Giulia.

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ZENIT: Por que vocês organizaram eventos de tal dimensão?

Pe. Geretti: Parece-nos importante que, além das celebrações litúrgicas e dos momentos de catequese, haja também uma contribuição cultural no Ano da Fé, para crentes e não-crentes. Lidar com a mensagem da revelação cristã através da linguagem da beleza, neste caso, a música e a pintura, pode ser extremamente importante e estimulante, mesmo para aqueles que não têm o dom da fé.

ZENIT: Segundo o senhor, podem existir artistas cristãos que realizam uma arte não cristã e vice-versa? Ou existe uma arte mais cristã do que a outra?

Pe. Alessio: Sim, claro. Há uma arte como a do beato Fra Angelico que é cristã de todos os pontos de vista: o estilo do autor, a atitude espiritual com que foram realizadas as obras, o tema escolhido, a intenção, a localização, a missão original e assim por diante. Todas são expressões perfeitas da fé em ato. Em alguns casos, no entanto, pode ser que o artista não tenha o dom da fé, mas que consiga dizer alguma coisa porque o Espírito Santo serviu-se dele. Assim como em outros casos é possível que um artista possa ter pintado obras de grande força espiritual. Não é pelo fato de ser crente que automaticamente se criará formas eficazes para transmitir o potencial de graça que se deseja comunicar. Pode acontecer que alguém diga algo com a arte que se encaixe com o Evangelho sem perceber. Há muitos casos na história da arte, por assim dizer, de "páginas cristãs nascidas fora do contexto."

ZENIT: Por exemplo?

Pe. Alessio: Boa parte da arte do 900, ainda que não religiosa, manifesta a preocupação do ser humano que sabe explicar porque se encontra nesse mundo e o que existe depois da matéria, e que intui por isso que deve haver algo superior para que a vida tenha sentido.

O abstracionismo, a dissolução das formas, a busca do além que se manifesta até mesmo cortando as telas ou quebrando os esquemas clássicos, são como um grito da cultura do homem ocidental do século XX que tem necessidade de Deus, ainda que desconfie um pouco das religiões que estava acostumado. Isto corresponde com a introdução do Evangelho.

ZENIT: Por que o homem de hoje tem tanta necessidade de beleza?

Pe. Alessio: O homem sempre teve necessidade de beleza. Hoje, em especial porque está imerso - às vezes com culpa, às vezes como vítima – naquele "ruído" e naquela “pressa” que lhe impedem de desfrutar da beleza da vida.

ZENIT: Qual pode ser, na sua opinião, o antídoto para o “cinza” mundo contemporâneo?

Pe. Alessio: O silêncio e a beleza. O belo nos permite encontrar a maravilha das coisas. Uma natureza morta  pintada pelas mãos de um gênio Caravaggio nos faz manter a maravilha de algumas frutas que todos os dias temos em cima da mesa, mas que não tocam mais o coração. O belo nos permite também ver as coisas, começando com o fato de que estar neste mundo é um privilégio. A beleza depois nos conforta. Viver no feio e no "cinza" nos traz tristeza e mau humor, o belo nos encoraja e nos dá esperança. Há muita necessidade de beleza, portanto, que não seja porém algo exterior ou de decoração, mas que nos toque de novo os corações.

ZENIT: Quanta influência tem em tudo os muitos estímulos externos?

Pe. Alessio: Eu diria que estamos um pouco aborrecidos e um pouco enojados - para citar os títulos de dois grandes romances do 900 – de um assédio de formas que nos assediam com a única finalidade de estimular exteriormente os nossos sentidos e de superexcitá-los. Pelo contrário, nós precisamos de formas que falem ao espírito, colocando ordem no afeto e na sensualidade. Por isso os ícones, também aqueles muito abstratos, assim como a música e a arte cristã, exercitam um encanto quase invencível para homem de hoje embora a maior parte seja pós-cristãs ou secularizado.

(Tradução Thácio Siqueira)