Expectativa de Angola, convalescente da guerra, na visita do Papa

Entrevista ao missionário italiano Luigi De Liberali, da maior paróquia salesiana do mundo

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Por Roberta Sciamplicotti

LUENA, sábado, 21 de março de 2009 (ZENIT.org).- Angola, que está deixando para trás o pesadelo da guerra, espera muito da visita do Papa, afirma o Pe. Luigi De Liberali, salesiano, pároco da paróquia de São Pedro e São Paulo de Luena (província de Moxico, no leste de Angola), nesta entrevista à Zenit.

A paróquia do sacerdote é a maior salesiana do mundo em dimensões, superando os 50 mil quilômetros quadrados, ainda que com uma densidade pouco superior a um habitante por quilômetro quadrado. Mais de um terço da cidade de Luena compreende uma extensa região rural, com mais de 160 comunidades, às quais se tem acesso com dificuldade, pelas poucas estradas existentes, frequentemente em mau estado pela guerra civil que terminou, após quase 30 anos, em 2002. 

Zenit perguntou ao Pe. De Liberali qual é a situação eclesial de Angola e quais são as esperanças que suscita a chegada de Bento XVI ao país, em sua visita de hoje até 23 de março. 

– Desde quando o senhor se encontra em Angola e qual foi sua experiência pessoal até o agora? 

– Luigi De Liberali: Sou um sacerdote salesiano e estou em Angola há pouco tempo (fui missionário durante 18 anos no nordeste do Brasil), mas vivo em uma comunidade salesiana que tem uma experiência de mais de 25 anos nestas terras. 

Meu trabalho é itinerante. Visito as diversas comunidades rurais, dispersas em um território que é tão grande como o norte da Itália. Na primeira visita, encontrei em uma capela a imagem de Maria com o menino Jesus nos braços: então lhe confiei minha missão, para que eu possa levar Cristo a quem encontrar. 

Dado que estamos vivendo no Ano Paulino, pensei também em São Paulo e o invoquei para que seja meu guia e me ensine a ser um bom itinerante, vivendo com seu ardor missionário e aprendendo a formar comunidades cristãs. 

– Como é a situação da Igreja em Angola?

– Luigi De Liberali: A situação é muito diferente nas diversas dioceses do país. A guerra civil, que durou quase 30 anos (desde a proclamação da independência de Portugal, de 1975 a 2002), marcou claramente dois períodos: o da perseguição e o da participação. 

Foi cada vez mais importante a ação do coordenador da comunidade (o catequista), que manteve a fé viva, inclusive onde o sacerdote chegava muito dificilmente, na província de Moxico, ao leste do país. 

As estruturas da Igreja (Cáritas, escolas, centros de saúde...) funcionam bem em geral; deram e continuam dando um apoio importante ao crescimento social do povo. Vale destacar a sensibilização sobre o problema da mulher (através de grupos chamados PROMAICA), a reflexão sobre os direitos humanos e o trabalho de alfabetização de adultos (com o «método Dom Bosco»). 

– Qual é o grau de inculturação da fé? Ele se integrou bem no contexto local ou se vê como algo «externo» e estranho com relação aos valores africanos tradicionais?

– Luigi De Liberali: A Igreja se integrou bem na cultura e nos valores do povo angolano, sobretudo ao falar de um Deus que quer a vida e a paz. 

Poderíamos dizer que a Igreja conseguiu entrar na vida das pessoas: não vê de fora, mas acompanha o desenvolvimento político-cultural da nação. 

Nas celebrações se vê um povo que participa, sobretudo através do canto e do ofertório. Um dos costumes mais belos que encontrei aqui em Angola nas celebrações eucarísticas se chama «tâmbula», uma procissão de ofertório na qual os fiéis apresentam seus próprios dons, levando ao altar os produtos do campo, comida, galinhas ou utensílios para a casa. Ao final da celebração, estas oferendas são entregues ao sacerdote ou são dadas às famílias pobres: é um pequeno grande sinal da generosidade que também as comunidades pobres sabem levar a cabo de forma concreta. 

Com relação aos cantos, deve-se dizer que o povo angolano canta muito bem, e consegue transmitir sua alma cantando. 

– Quais são os desafios que o país enfrenta e quais os sinais de esperança?

– Luigi De Liberali: Os principais desafios são a educação, a saúde, a reconstrução de estruturas destruídas pela guerra (estradas, pontes...), a recuperação da produção agrícola e industrial e a redistribuição da riqueza.

Com relação aos sinais de esperança, em primeiro lugar sublinho a paz que todos querem continuar construindo e a vontade  de não deixar morrer o que se conseguiu até agora. Junto a isso, está a liberdade religiosa, o caminho de democratização através das eleições e o grande potencial dos jovens. 

– Como se acolheu a visita do Papa e como foram os preparativos especiais para este evento? 

– Luigi De Liberali: A notícia foi acolhida muito bem por todos os segmentos da sociedade. A rádio e a televisão a divulgaram muito, convidando a participar dos diversos encontros com o Papa e a escutar sua mensagem de paz e amor. 

Nos dias prévios, todas as noites o jornal nacional apresentava as iniciativas das diferentes dioceses angolanas. Prepararam-se catequeses (folhetos e livro) para conhecer melhor o Papa, foram impressos muitos cartazes gigantes e orações para acolhê-lo, e organizaram vigílias de oração. 

– Quais são as esperanças que esta visita suscita?

– Luigi De Liberal: As expectativas são muitas. Todos esperam que a visita de Bento XVI confirme ainda mais a vontade de paz do país e oriente o caminho das comunidades cristãs. Esperamos que o Papa pronuncie palavras de ânimo aos mais pobres e necessitados, abra o coração de todos às palavras de Cristo e dê um impulso à Igreja em Angola; e que esta visita mostre uma Igreja unida e solidária com o povo.