Experiências da autora da Via Sacra do Papa

Entrevista com Irmã Rita Piccione

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CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 20 de abril de 2011 (ZENIT.org) - Ela é agostiniana do mosteiro romano dos Quatro Santos Coroados. É a terceira mulher a quem os pontífices confiam a tarefa de preparar as meditações da Via Sacra da Sexta-Feira Santa, no Coliseu.

Nesta entrevista concedida ao ‘L'Osservatore Romano', a Irmã Rita Piccione explica seus temores, expectativas e esperanças no cumprimento de tão delicado trabalho.

A beneditina Anna Maria Canopi, em 1993, e a Irmã Minke de Vries, da comunidade protestante de Grand­champ (Suíça), em 1995. Agora a senhora. O que acha que levou o Papa a confiar a uma religiosa de clausura as meditações deste ano?

Irmã Rita: Na verdade, eu não me perguntei muito por isso. No demais, o Papa, neste último período, dedicou muitas das suas catequeses às grandes figuras femininas da história da Igreja. Mais que "por que", eu me perguntei "por quem". E aceitei porque compreendi que o faria por Bento XVI e por toda a Igreja e, portanto, pelo Senhor. Por amor ao Senhor.

Como a senhora recebeu a decisão de Bento XVI e como trabalhou para preparar os textos?

Irmã Rita: Quem me comunicou foi o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado. É inútil falar da grande surpresa, da incredulidade, além do grande temor que me invadiu. Confesso que não consegui dizer imediatamente que sim, de tão confusa que estava. Foi a exortação do cardeal a abandonar-me com confiança no projeto divino e na graça que venceu a minha resistência. Eu me confiei totalmente ao Espírito. E foi justamente esse abandono no Espírito que definiu "como" trabalhar para preparar os textos: orando. Eu simplesmente me coloquei no caminho da Via Sacra orando, escutando a Palavra e deixando que o Espírito conduzisse meu coração e minha mente pelos seus caminhos.

Quais são os principais temas das meditações?

Irmã Rita: Não me sinto cômoda para descrever ou analisar uma oração: a oração se ora. A oração se vive no contexto de lugar e tempo que lhe é próprio. Descrevê-la me parece quase fazer-lhe violência. Mas posso dizer isso: o tema de fundo é o olhar fixo em Jesus, em sua humanidade, nas pegadas que Ele nos deixou ao percorrer a Via Sacra, para que nos deem um rumo, quando em nossa vida também somos chamados a esse encontro.

De que maneira a figura de Santo Agostinho, tão querida para Bento XVI, estará presente nos textos que a senhora preparou?

Irmã Rita: A presença de Agostinho, antes que nos textos, habita na atitude interior que me guiou nesta experiência a partir do "sim" da aceitação. Refiro-me à carta que Agostinho escreveu a Eudósio, abade do mosteiro de Cabrera, que reli precisamente para viver este serviço como agostiniana. Além disso, a presença de Agostinho - este "bom companheiro de viagem", como o definiu o Papa na audiência de 25 de agosto do ano passado - se respira no olhar dirigido à humanidade do nosso Salvador, à sua humildade. Igualmente, o tema da verdade é um ponto de encontro, de sintonia, entre o Papa e Agostinho: a busca sincera da verdade levou Agostinho a Deus; o serviço à verdade sempre foi a alma do ministério de Joseph Ratzinger.

Como sua visão de mulher, ao serviço da Igreja, influenciou as meditações?

Irmã Rita: Mais do que ter uma visão de mulher, eu sou uma mulher; sou uma mulher feliz por ser mulher; e acho que isso é o que impregna o estilo das meditações. O ser que se expressa no fazer. O ser que contagia o sentir e o ver; a identidade que se reflete na sensibilidade. É belíssimo e significativo que - para além da minha pessoa - se tenha escolhido não só uma mulher, mas uma religiosa para a oração eclesial da Via Sacra. É belo e significativo que a Igreja tenha pedido este serviço a quem encarna em si sua dimensão contemplativa. É a Igreja que se dirige ao seu coração, escondido, mas sempre presente e palpitante.

Qual é a mensagem que a vida contemplativa pode levar hoje a um mundo secularizado?

Irmã Rita: A contribuição da vida contemplativa ao mundo de hoje e de sempre é a gratuidade, o sentido da gratuidade. A beleza e a alegria da gratuidade. A gratuidade não se compra: talvez o mundo secularizado tenha perdido esse bem, perdendo, por conseguinte, a fonte da alegria genuína. Mas existe também outra mensagem que a vida contemplativa oferece ao mundo com sua mera existência. A vida dos monges e religiosas, tão simples, aparentemente insignificante, é memória viva daquilo que é essencial para o homem: o amor do Pai que nos é dado em Jesus através do Espírito. Podemos viver sem outras coisas, mas não sem este amor, que é precisamente a condição necessária e suficiente para viver e desfrutar a vida.

(Nicola Gori)