Facebook: uma meditação sobre o céu, o inferno e o sacramento da reconciliação

De acordo com um relatório de Março de 2013, no Facebook, haveria 30 milhões de perfis de pessoas mortas

Roma, (Zenit.org) Jorge Henrique Mújica | 1005 visitas

Era o dia 4 de outubro de 2012 quando o Facebook chegou ao montante estratosférico de 1 bilhão de usuários cadastrados. O fato não passou despercebido e com razão: nenhuma outra rede social, pode gabar-se de ter conseguido um alcance assim: “Na manhã de hoje, mais de 1 bilhão de pessoas estão usando o Facebook a cada mês ativamente”, escreveu Mark Zuckerberg em seu próprio perfil. E continuava: "Se você está lendo isso: obrigado por dar a mim e à minha pequena equipe a honra de servir-lhes. Ajudar a 1 bilhão de pessoas a se conectar é incrível, me enche de humildade e é de longe a conquista da qual mais me orgulho em toda a minha vida. Estou comprometido a trabalhar a cada dia para fazer que o Facebook seja melhor para vocês e, com esperança, algum dia também poderemos conectar o resto do mundo”.

Em contraste, tornou-se menos conhecido um fato que não é para subestimar: de acordo com um informe realizado em março de 2013 pelo fundador de Entrusted, Nate Lustig, no Facebook, haveria 30 milhões de mortos. Esses "perfis" seriam de pessoas que teriam se cadastrado como usuários e que, em diferentes momentos e por razões diversas, morreram, deixando um patrimônio digital nessa rede social.

Quem se cadastra em uma rede social como o Facebook o faz, na grande maioria dos casos, para compartilhar com seus amigos a própria vida através de fotos, comentários, vídeos, links, etc. Assim, o mural pessoal do Facebook se transforma em uma linha do tempo da própria existência: uma espécie de baú da lembrança no qual experiências vão sendo acumuladas.

Em muitas ocasiões, as pessoas visitam os murais de outras para conhecer um pouco sobre elas ou para atualizar-se sobre o que essa outra pessoa fez e compartilhou em datas recentes ou remotas. No caso dos perfis das pessoas mortas, tornam-se uma espécie de “filme digital” que permite repassar a vida dos defuntos.

O que tem isto a ver com o céu e o inferno? A doutrina católica afirma que na hora da morte nos apresentamos diante de Deus para o nosso juízo particular. Esse juízo será da própria vida e o resultado final são duas opções: o céu ou o inferno. Mantendo-nos no número informado, podemos dizer que 30 milhões de ex usuários do Facebook apresentaram como matéria do seu exame pessoal de vida também os conteúdos que livremente publicaram.

Sendo as redes sociais uma realidade tão jovem, os mortos que as usaram são, por assim dizer, aqueles que agora estão acrescentando ao seu próprio juízo particular diante de Deus os bons ou maus conteúdos colocados no seu próprio perfil pessoal. Que isso leve a um exame sobre aquilo que os que ainda estamos vivos compartilhamos no Facebook não parece  algo secundário para um católico que tenha a disponibilidade e a convicção de querer viver como tal (e a segurança de que chegará o próprio turno diante do tribunal de Deus). Quantas palavras superficiais, fofocas, são ditas nas redes sociais; quantos ataques contra pessoas e instituições em tantos murais do Facebook! Pensemos naquelas fotografias onde se poderia pensar em tantas coisas menos que a pessoa que a compartilha é um discípulo de Jesus Cristo. Quanta vaidade em certos materiais e quanta inveja refletida em outros!

Lembrar tudo o que contradiz o que afirmamos crer não é uma ocasião para apaga-los (ação possível, além do mais), mas para levar o nosso pensamento a outra realidade não menos importante do ensinamento católico. Entre os sacramentos que Jesus Cristo instituiu encontra-se o da penitência. Por meio da confissão e perdão dos nossos pecados – de acordo com a prática da Igreja – ficamos limpos e em condições de seguir o caminho do céu. Por assim dizer, pelo sacramento da reconciliação Deus não somente apaga aqueles conteúdos moralmente reprováveis que colocamos no Facebook, mas, além do mais, esquece voluntariamente que os tenhamos colocado.

Em meados de maio de 2014 um acórdão do Tribunal de Justiça Europeu decidiu em favor do direito dos cidadãos ao assim chamado “esquecimento digital”. Dessa forma, webs como Google ficam obrigadas a apagar todo o rastro de dados de pessoas para que o seu direito à privacidade seja assegurado. Em muitos casos, as pessoas que recorrem a este direito, o fazem porque querem desvincular-se de uma parte das suas vidas normalmente relacionadas a erros que lhes trouxeram descréditos ou o não querer ficar associados a determinado modo de pensar que já não é o seu. Não é maravilhoso pensar que o primeiro que nos presenteia o dom do esquecimento é Deus mesmo quando nos perdoa no sacramento que instituiu para isso? A sentença europeia é, por assim dizer, algo que Deus já fazia e não somente no âmbito digital.

O Cura d'Ars tem um pensamento aplicável ao que estamos tratando: “O bom Deus sabe de tudo. Antes mesmo de que você se confesse, já sabe que vai pecar de novo e, apesar disso, lhe perdoa. Como é grande o amor do nosso Deus que o leva até mesmo a esquecer-se voluntariamente do futuro, para assim perdoar-nos!”. Certamente o tempo que nos fica de vida não supõe um muro de Facebook imaculado. Mas, talvez sim, poderemos ter mais presente que no final da nossa vida também deveremos prestar contas do que fizemos aí ou deixamos de fazer. Ou em outras palavras: em cada publicação vamos merecendo o céu... ou o inferno.

No contexto dos seus primeiros 10 anos de existência, em dezembro de 2013, o Facebook deu a seus usuários a chamada "Timeline Movie Maker”: o filme da própria vida que era possível conseguir com um simples clique. Talvez será também o que Deus vai querer presentear-nos para que junto com ele olhemos ao final do nosso passo por esta terra e pelo Facebook. Que possamos desfrutar e não envergonhar-nos ou arrepender-nos é algo que depende de nós, porque, afinal, somos o que publicamos.

(Trad.TS)