Falsas informações sobre Opus Dei na França

Declarações de Introvigne sobre escola hoteleira processada em Paris

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Por Jesús Colina

PARIS, sexta-feira, 23 de setembro de de 2011 (ZENIT.org) – O representante da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) para a luta contra a discriminação dos cristãos considera que há erros de informação em alguns meios de comunicação que suscitam discriminações com relação ao Opus Dei na França.

Massimo Introvigne demonstra, em uma entrevista concedida a ZENIT, como a denúncia de uma mulher contra uma escola hoteleira foi usada para lançar uma campanha midiática contra a prelazia pessoal e, de forma generalizada, contra a Igreja Católica.

“O Opus Dei no coração de um processo inédito em Paris, em setembro” aparece como manchete de alguns artigos publicados pela imprensa para referir-se à última etapa deste processo perante o Tribunal correcional de Paris, que acontece esta semana.

No processo, analisa-se a denúncia apresentada há anos por Catherine Tissier contra seu antigo chefe de ACUT, a associação que gestiona a escola hoteleira Dosnon, sobre questões vinculadas ao estatuto de alguns períodos de estágio. Em concreto, acusa-se a escola de obrigar os alunos a desempenhar um trabalho profissional não-remunerado.

O fato de que Catherine Tissier tenha feito parte do Opus Dei até 2001 e de que a assistência espiritual à escola Dosnon seja oferecida por pessoas do Opus Dei levou a acusação e alguns meios de comunicação a tentarem envolver institucionalmente a prelazia no processo. Este elemento tinha sido rejeitado até agora pela justiça francesa.

Dessa forma, lendo alguns artigos, a impressão é de que os 2 mil sacerdotes e os 86 mil leigos que fazem parte da Obra estão sendo processados, enquanto, na realidade, trata-se de um processo dirigido a uma pequena escola, que não envolveu de forma alguma o Opus Dei.

Nesta entrevista, Massimo Introvigne, fundador e diretor do Centro de Estudos sobre as Novas Religiões (CESNUR), além de representante da OSCE para a luta contra o racismo, a xenofobia e a discriminação, que presta especial atenção à discriminação contra os cristãos e membros de outras religiões, esclarece as implicações do processo.

ZENIT: Quem analisa este caso, percebe que se trata de um assunto vinculado ao direito trabalhista comum. No entanto, lendo algumas manchetes da imprensa, tem-se a impressão de que toda uma instituição da Igreja Católica foi levada aos tribunais. Por quê?

Massimo Introvigne: O caso em si não tem nada de particular; trata-se de uma típica relação de trabalho fundada em uma amizade que, em certo ponto, se dilui, o que induz a manifestar, antes de mais nada, simpatia com relação ao sofrimento de todas as pessoas envolvidas. Há uma evidente instrumentalização, que não sei se deve ser atribuída aos advogados, à imprensa ou aos ativistas laicistas, que utilizam um caso comum para atacar o Opus Dei e a Igreja Católica.

ZENIT: O senhor não acha que, nestes casos, as instituições religiosas são julgadas com parâmetros de valor diferentes? Um caso assim, em uma escola pública, talvez não tivesse um lugar nem sequer nas páginas internas de um jornal local...

Massimo Introvigne: Há dois elementos diferentes. Por um lado, está em processo uma grande campanha contra a Igreja Católica e as suas instituições, que, da intolerância – que é um fato cultural – passa, em uma segunda fase, à discriminação – que é um fato jurídico –, com o risco de que se chegue também a episódios de violência, em uma terceira fase. É o esquema que surgiu do encontro da OSCE em Roma, no último dia 12 de setembro. Também estes são episódios de discriminação em um sentido amplo, porque é um caso que, comparado aos demais, é tratado de forma diferente, recebendo “atenções” especiais porque está relacionado a uma instituição católica, vinculada ao Opus Dei.

Há outro elemento. Na França, há uma sensibilidade particular com relação a tudo o que se refere às “seitas”. Se o assunto tivesse relação com as Testemunhas de Jeová ou com grupos protestantes fundamentalistas etiquetados como “seitas”, a atenção teria sido análoga. Desde o momento em que há associações “antisseitas” e jornalistas que consideram o Opus Dei como uma “seita”, a imprensa dirigirá este assunto ao estereótipo de “seita”.

ZENIT: No passado, na França, foram publicadas listas de grupos sectários nocivos, que incluíam instituições, movimentos e comunidades publicamente reconhecidas pela Igreja Católica. Qual é sua opinião a respeito disso?

Massimo Introvigne: Eu gostaria de esclarecer que a famosa lista de 1996, de uma comissão governamental, não incluía o Opus Dei, ainda que mencionasse outros grupos católicos. Como representante da OSCE para a luta contra o racismo, xenofobia e discriminação contra cristãos e seguidores de outras religiões, no transcurso de uma visita oficial à França, estive, em maio passado, na MIVILUDES, a Missão Interministerial de Vigilância e de Luta contra as Divisões Sectárias. No transcurso de um encontro que considero positivo e cordial, foi-me garantido que a lista já não era um ponto de referência para as autoridades francesas, nem se previa compilar outras listas. Mais que discutir se tal ou qual grupo deveria ser incluído – como muitos outros –, rejeitava a própria ideia da lista. Parece que agora as autoridades francesas concordam em virar esta página tão controversa.

ZENIT: Por que certos compromissos cristãos, como, por exemplo, muitos dos costumes de um mosteiro de clausura, antes eram considerados como parte da riqueza cultural europeia (como o monaquismo) e hoje são atribuídos a seitas perigosas? Qual é a diferença entre esses comportamentos de religiosos, consagrados ou qualquer outro fiel católico e as técnicas das seitas?

Massimo Introvigne: Há duas formas de reagir quando uma benemérita realidade católica, como o Opus Dei, é acusada de ser uma seita – o que para mim é um absurdo.

A primeira, é responder que, efetivamente, como pensam as associações antisseita, parte da imprensa e alguns católicos, existe uma categoria unitária de “seita” caracterizada pelo uso de técnicas de manipulação mental ou “lavagem cerebral”, que distinguem as adesões às seitas das adesões a religiões, e que simplesmente é um erro incluir o Opus Dei ou outras realidades católicas nesta categoria.

Para mim, esta parece uma resposta pouco convincente. Uma vez que se aceita a categoria de “seita” construída dessa maneira, aceita-se, por assim dizer, um “pacote” que, por exemplo, dá muita importância aos testemunhos dos ex-membros, reconhece a autoridade das associações antisseita para identificar as “seitas” e acolhe a noção de lavagem cerebral, uma noção há tempos rejeitada pela grande maioria dos especialistas.

Minha resposta é completamente diferente. É que as “seitas” – como são concebidas por muitos meios de comunicação franceses e por boa parte da opinião pública – não existem. Atenção: existem certamente movimentos religiosos – ou mágicos – que se mancham com crimes espantosos, razão pela qual devem ser castigados, sem que a liberdade religiosa seja um pretexto para eles, atrás do qual esconder-se.

Existe uma categoria teológica de “seita” no interior do cristianismo: é um movimento que se separa da Igreja e das comunidades tradicionais, pensando que a Igreja fundada por Jesus Cristo já está terminada e que deve ser não só reformada (como pensam os protestantes), mas também refundada. Esta categoria é a que se usa sempre na Igreja Católica e, neste sentido, o Papa também fala de “seitas”.

Portanto, existem “seitas” em sentido teológico e existem movimentos religiosos ou mágicos criminosos. Algumas pessoas me atribuem opiniões diferentes sobre este ponto, reconstruindo minhas ideias, expostas em uns cinquenta livros sobre o tema, de forma caricaturesca.

Acho que não existem as “seitas”, se por “seitas” se entendem grupos que, prescindindo de que cometam ou não crimes específicos, se identificam como”seitas” porque recorrem a algo chamado manipulação, controle mental ou lavagem cerebral. Estas são categorias muito duvidosas do ponto de vista epistemológico ou científico.

Naturalmente, existe o engano dos “consumidores espirituais” e existem as pressões psicológicas. O que não existe são as técnicas “mágicas” com as quais se “lavariam os cérebros” e que permitiriam distinguir a priori e com segurança as religiões das seitas.

No demais, o que para os amigos é uma religião, para os inimigos é, frequentemente, uma seita e vice-versa. Portanto, a forma correta e eficaz de responder aos ataques ao Opus Dei e a muitos outros grupos católicos não consiste, em minha opinião, em dizer que as “seitas” – não no sentido teológico, mas no psicocriminológico corrente – existem, mas que o Opus não é uma delas, e sim em desmascarar e desmitificar esta categoria de seita como não-científica e sim perigosa para a liberdade religiosa.