"Fazer um caminho solitário é muito difícil, senão impossível"

O responsável do Movimento Comunhão e Libertação no Brasil, Marco Montrasi, discorre, em entrevista concedida a ZENIT, sobre a novidade evangelizadora trazida pelo carisma fundado pelo sacerdote italiano dom Giussani.

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 955 visitas

Um carisma que “chegou ao Brasil no início dos anos 60 graças à paixão missionária que se acendeu em muitos jovens que tinham visto em Dom Giussani essa mesma ardente paixão para que Cristo fosse conhecido como a resposta mais adequada ao desejo do coração”. Assim descreve Marco Montrasi, em entrevista a ZENIT, o movimento Comunhão e Libertação no Brasil.

Hoje o movimento se encontra em Belo Horizonte, Macapá, São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Brasília, Salvador, Florianópolis, Aracaju, Belém e em várias outras localidades de Norte a Sul do país, num total de aproximadamente 45 cidades.

A raiz do carisma – como diz Montrasi - encontra-se na “experiência que fizeram aqueles primeiros dois que encontraram Cristo, ‘João e André’”. Até mesmo porque “os desafios são cada vez mais provocadores, e só é possível testemunhar com a própria vida mudada. As palavras e os discursos são cada vez mais ineficazes”, afirma.

Em uma época histórica também marcada por escândalos de fundadores, também marcada pelo amadurecimento na fé dos diversos carismas e movimentos, que já não procuram saber quem “tem razão”, mas “como viver” o cristianismo, Marco Montrasi afirma que “Nós somos frágeis e podemos errar, mas se tivermos certeza de que é o Espirito Santo que conduz poderemos sempre ficar fiéis e não desistir mesmo diante dos erros e das dificuldades”.

Sobre isso, diz àquelas pessoas que sofreram e sofrem o escurecimento da fé, por causa dos defeitos dos homens de Igreja: “O problema não é errar ou acertar, mas caminhar rumo à meta e levantar quando caímos. Quem acha que nunca vai cair, ou quem não quer seguir alguém que possa vir a errar deverá fazer um caminho solitário, e isso é muito difícil, senão impossível. Que tenhamos sempre alguém para seguir! Alguém que nos ajude quando tropeçarmos, para seguir adiante”.

Acompanhe a entrevista completa:

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ZENIT- Comunhão e Libertação é um movimento conhecido no Brasil?

Marco Montrasi: A experiência de CL chegou ao Brasil no início dos anos 60 graças à paixão missionária que se acendeu em muitos jovens que tinham visto em Dom Giussani essa mesma ardente paixão para que Cristo fosse conhecido como a resposta mais adequada ao desejo do coração. Em 1960, a amizade com o bispo de Macapá, Dom Aristide Pirovano, e com o empresário Marcello Candia possibilitou a Dom Giussani que viesse ao Brasil pela primeira vez também com o objetivo de conhecer eventuais lugares aonde enviar os jovens de CL em missão. Em 1961, o encontro com o jovem Marco Aurélio Velloso (então líder da União dos Estudantes Católicos de Belo Horizonte), em Milão, possibilitou uma troca consistente de experiências e culminou com a vinda de alguns jovens de CL ao Brasil para um período mais estável de colaboração, a partir de 1962, trabalhando em uma escola. Já em 1964 havia jovens de CL presentes em Macapá, Belo Horizonte e São Paulo, em estreita comunicação com Dom Giussani que os acompanhava cuidadosamente. Desde aqueles anos o Movimento de CL cresceu e se difundiu, e hoje estamos presentes em Belo Horizonte, Macapá, São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Brasília, Salvador, Florianópolis, Aracaju, Belém e em várias outras localidades de Norte a Sul do país, num total de aproximadamente 45 cidades.

ZENIT- Como você definiria o seu carisma?

Marco Montrasi: O nosso carisma tem um alicerce, um ponto que está na sua origem não em sentido apenas histórico, mas na origem por ser o que nos gera hoje no presente e sempre nos desafia: a experiência que fizeram aqueles primeiros dois que encontraram Cristo, “João e André”. Aquele encontro dos primeiros dois apóstolos com Cristo foi algo inesperado e totalmente correspondente ao desejo do coração deles, ao desejo de infinito deles. Por isso, depois daquele instante, a vida não foi mais a mesma.

Há um trecho de Dom Giussani, que padre Julián Carrón (atual presidente da Fraternidade de Comunhão Libertação) tem citado muito nesse período que diz: “O mais belo pensamento ao qual me entrego há tantos meses é imaginar o primeiro sobressalto no coração que Madalena sentiu. E esse sobressalto no coração não foi: ‘Vou largar todos os meus amantes’, mas o apaixonar-se por Cristo. E para Zaqueu, o primeiro sobressalto no coração não foi: ‘Vou devolver todo o dinheiro’, mas a descoberta apaixonada daquele Homem. Que Deus tenha se tornado um de nós, um companheiro, é a gratuidade absoluta, tanto é verdade que se chama graça”.

Poder identificar-se com essa experiência, ver que é possível viver assim, que aquele Olhar que encontrou Madalena está presente e testemunhá-lo a todos, pelas estradas da vida, é isto o que buscamos viver.

ZENIT- Qual a principal área de atuação de CL aqui em solo nacional: política, educação, paróquias...?

Marco Montrasi: O Movimento nasceu com Dom Giussani na Itália nos anos 50. E nasceu sem um projeto, como ele sempre quis salientar. Certa vez ele disse: “Eu não apenas nunca pretendi ‘fundar’ nada, como considero que a genialidade do movimento que vi nascer é ter sentido a urgência de proclamar a necessidade de um retorno aos aspectos elementares do cristianismo, ou, em outras palavras, a paixão pelo fato cristão enquanto tal, em seus elementos originais, e nada mais”. O Movimento nasceu porque ele quis entrar nas salas de aula de uma escola pública e alguns jovens começaram a ficar contagiados por uma febre de vida que o encontro com Cristo, através daquele homem, fez explodir. Então, nós não temos áreas de atuação específicas mas todos os lugares onde cada um vive e trabalha são ocasião para viver e, portanto, para comunicar o encontro que fizemos. Todos nós estamos preocupados em viver, isto é, em verificar o quanto o encontro com Cristo é tão real hoje a ponto de gerar uma presença original, uma alegria e um desejo de construir enfrentando todas as circunstâncias. Porque os desafios são cada vez mais provocadores, e só é possível testemunhar com a própria vida mudada. As palavras e os discursos são cada vez mais ineficazes.

ZENIT- Como CL vive o seu carisma dentro do imenso universo de carismas da Igreja?

Marco Montrasi: O ponto é aprofundar a nossa origem, redescobri-la. Mesmo porque só assim um carisma pode ser sempre novo, pois as circunstâncias mudam e provocam você a responder hoje. E, através desse caminho, estar abertos para aprender caminhando com os outros. Com a JMJ no ano passado nos aproximamos mais de outros movimentos. Como disse o Papa, o cristão é um homem com um “pensamento incompleto”. Isto é belíssimo e precisamos entender bem o que significa. Não é falta de certezas, ao contrário, é estarmos certos de um relacionamento, de um vínculo, é como sentir um cabo de aço que está bem preso nas pontas, não está solto. É assim o vínculo que Cristo estabeleceu comigo! 

E com isso poder entrar até o fundo de tudo sem já saber antes de que se trata e ao que aquela circunstância pode me levar a viver e a entender. Os homens que já sabem tudo são aqueles que aos nossos olhos aparecem chatos e pouco interessantes. Abertos ao Mistério, que sempre nos surpreende, e considerar sempre que o outro pode nos ensinar algo: é assim que queremos caminhar dentro da Igreja com os outros carismas e com todos os homens que encontrarmos. Me parece que o Papa está nos indicando essa estrada.

ZENIT- Quem se aproxima dos escritos de Luigi Giussani se dá conta da profundidade, até mesmo existencial, dos seus escritos. Por onde começar a ler para conhecer e se aprofundar nessa espiritualidade?

Marco Montrasi: É verdade que mesmo depois da sua morte Dom Giussani ainda encontra muitas pessoas através dos seus escritos. É impressionante ver como as pessoas nos lugares mais impensáveis chegam a encontrar Dom Giussani. Recentemente me contaram de uma amiga que encontrou um livro dele numa livraria de Aracaju e, marcada profundamente pelas palavras que leu, começou a buscar na internet onde encontrar alguém do Movimento para poder aprofundar aquelas coisas. Agora, ela está participando da vida da comunidade. Isso que acontece é uma verdadeira graça para nós. Primeiro porque mostra algo que está vivo e que é muito maior do que nós; depois porque nos tira da mordomia e do óbvio que facilmente invadem o nosso coração. Pois assim precisamos decidir continuamente se ficar no nosso comodismo, no “já sabido”, ou se seguir Ele presente através dessas pessoas que chegam com um brilho nos olhos e nos dizem: “Vocês se dão conta daquilo que encontraram e que carregam?”. 

Os textos que fundamentam a nossa catequese e que lemos e meditamos fazem parte de um “percurso” e são O senso religioso, Na origem da pretensão cristã e Por que a Igreja.

ZENIT- Comunhão e Libertação oferece uma formação personalizada aos seus membros, como direção espiritual, acompanhamento pessoal? Como é que uma pessoa pode participar?

Marco Montrasi: Temos um instrumento privilegiado que se chama Escola de Comunidade.  Ela é um instrumento educativo de desenvolvimento (como consciência e afeição) da experiência do encontro feito com o carisma. Consiste na leitura e na meditação pessoal de um texto proposto a todo o Movimento, seguida de encontros comunitários. O trabalho é concebido exatamente como uma escola: primeiramente, é preciso a vontade de aprender; em segundo lugar, são pedidas a seriedade e a sinceridade de uma comparação com a própria experiência para poder comunicar o que o Mistério de Deus opera em si, isto é, para testemunhar a própria mudança. Os textos indicados são, normalmente, os do fundador, Dom Luigi Giussani, ou mesmo os do seu sucessor, padre Julián Carrón. A participação é livre e proposta nos ambientes de estudo e de trabalho. Os encontros acontecem, em geral, com regularidade semanal. 

Outro importante gesto educativo é a caritativa, que tem o objetivo de ajudar a entender que a lei última da existência é a caridade, a gratuidade. As diversas formas de atividade caritativa (reforço escolar, assistência a doentes e idosos, centros de acolhida, distribuição de alimentos, etc.) são vividas como ocasião para testemunhar aquilo que se tem de mais caro e para perceber – compartilhando as necessidades das pessoas – a real urgência de cada uma delas.

Depois, cada um, dentro dessa companhia, procura livremente relacionamentos com quem mais o ajuda a caminhar e a perceber essa vida nova que Cristo gera. Sobre isso quero dizer uma outra coisa que aprendi e aprendo: no Movimento há pessoas que têm uma responsabilidade nas várias cidades onde estamos presentes, e o que estamos aprendendo é que ter uma responsabilidade, quando lhe é confiada, não é para que você seja seguido pelos outros, não é para você dirigir, mas, em primeiro lugar, é uma possibilidade para você aprender a seguir. Seguir é desejar fazer a experiência de quem o Senhor nos mostra, é desejar ver onde está acontecendo a presença de Cristo que muda e gera pessoas vivas de modo que todos possamos segui-las e olhá-las. E muitas vezes essas “presenças” a serem seguidas são os últimos que chegaram.

ZENIT- Os bispos, o clero, também podem se alimentar desse carisma a fim de se fortalecerem no seu ministério?

Marco Montrasi: Como disse antes, a proposta do Movimento é para todos. Muitos bispos ou padres ficaram agradecidos pelo encontro com o carisma de CL e continuam seguindo e acompanhando o Movimento. Temos um encontro anual (um curso de exercícios espirituais) com pe. Julián Carrón, em setembro, aberto a todos os padres do Brasil e demais países da América Latina, que é uma grande ocasião de encontro para conhecer mais o nosso carisma e verificar o caminho feito durante o ano. 

ZENIT- O Papa Francisco está tocando de forma especial os fiéis. O que, em especial, esse Papa contribui para os movimentos, ou mais especificamente, para CL?

Marco Montrasi: Tudo aquilo que o Papa está falando é para nós. Por isso queremos segui-lo com tudo de nós mesmos. Eu, quando encontro meus amigos, sempre cito algum trecho de uma homilia ou de um discurso dele que me marcou especialmente. Por exemplo, quando ele disse que o cristão é um homem com o pensamento incompleto: “Ser jesuíta significa ser uma pessoa de pensamento incompleto, aberto, porque pensa sempre mirando no horizonte que é a glória de Deus, que nos surpreende sempre”; ou quando disse que é preciso “procurar Deus para encontrá-lo, e encontrá-lo para procurá-lo e achá-lo ainda e sempre. É esta inquietude que dá paz ao coração de um jesuíta, uma inquietude apostólica, que não nos deixa jamais cansar de anunciar o querigma, de evangelizar com coragem. Sem inquietude, somos estéreis”. Ele disse isso para os jesuítas mas eu comecei a pedir o mesmo para mim. Porque quero cada vez mais aprender isso que ele falou e acho que isso vale também para CL e para todos os movimentos.

Outra coisa que me marcou profundamente foi quando na missa pela canonização de São José de Anchieta ele falou que “é mais fácil acreditar num fantasma do que em Cristo vivo! É mais fácil ir ter com um necromante que nos prediz o futuro, que nos lê as cartas, do que ter confiança na esperança de um Cristo vencedor, de um Cristo que venceu a morte! É mais fácil uma ideia, uma imaginação, do que a docilidade a este Senhor que ressuscita da morte e só Deus sabe para que nos convida!”. Sabe-se lá ao que Ele vai te convidar hoje!

Isso também é para todos nós. Podemos ser do Movimento, ser católicos bem praticantes dentro da Igreja, observar todos os mandamentos, mas estarmos fechados a como Ele quer se manifestar hoje. Porque nós não sabemos como Ele irá se manifestar, e se não estivermos abertos, atentos e com sede, podemos não nos dar conta de onde Ele está agora; podemos, como disse o Papa, não perceber que Ele já saiu do túmulo e continuarmos ainda lá, chorando.

ZENIT: Também gostaria de fazer-lhe duas perguntinhas extras. Sinta-se livre para respondê-las, assim como as primeiras: Não sei se é correto dizer que a "Primavera da Igreja" também trouxe um "inverno" de anti-testemunhos e escândalos, já seja de fundadores pecadores, já seja de movimentos que só fizeram tirar a esperança do coração de muitos fieis que neles confiaram com toda a alma. O que você, que é responsável de um movimento, diria a uma dessas pessoas sem esperança?

Marco Montrasi: Diria que a Igreja é santa e pecadora. E que é Cristo que a faz caminhar. Ter e fortalecer essa esperança é fundamental. Nós somos frágeis e podemos errar, mas se tivermos certeza de que é o Espirito Santo que conduz poderemos sempre ficar fiéis e não desistir mesmo diante dos erros e das dificuldades. Outra coisa é seguir e obedecer. Quanto mais seguirmos o Papa e os bispos, e o modo como Ele nos encontrará nos vários carismas que suscita e suscitará, mais poderemos ter a certeza de que chegaremos a nossa meta. O problema não é errar ou acertar, mas caminhar rumo à meta e levantar quando caímos. Quem acha que nunca vai cair, ou quem não quer seguir alguém que possa vir a errar deverá fazer um caminho solitário, e isso é muito difícil, senão impossível. Que tenhamos sempre alguém para seguir! Alguém que nos ajude quando tropeçarmos, para seguir adiante. O Papa é a maior graça que temos agora porque ele sempre nos lembra que somos todos pecadores, todos. Mas existe um caminho de misericórdia, no qual é possível caminhar com esperança rumo ao nosso Destino.

ZENIT- Em Pentecostes o Espírito Santo uniu toda a Igreja. Nesse contexto, você estaria de acordo com que um movimento não é um fim em si mesmo, e que, portanto, nenhum movimento deveria se colocar como o centro da Igreja e da Evangelização, mas somente como um meio para alcançar a Cristo? Não será esse um ponto que faltaria ainda para unir todos os movimentos em uma só Igreja?

Marco Montrasi: Com certeza estou de acordo que cada movimento ou associação não é um fim em si mesmo. Acho que estamos num tempo no qual estamos percebendo que a pergunta a ser respondida não é “quem tem razão?”, mas “Como se faz para viver?”. Isso também foi objeto do nosso trabalho nestes meses. Estamos como na época do Evangelho em que não se conhecia quem era Cristo, mas se podia encontrá-Lo pelo caminho. E assim os homens mudavam e mudaram o mundo. Hoje também não se conhece mais quem é Cristo, fala-se muito o nome dEle mas poucos O conhecem. O homem está numa busca desesperada e não sabe mais de quê. Por isso se agarra a tudo o que lhe é oferecido, muitas vezes a baixo preço. Todos nós que fizemos esse encontro, todos nós dentro da Igreja, seremos cada vez mais uma só coisa se estivermos comovidos pela descoberta de Cristo presente hoje, e, assim, sairemos a anunciá-Lo, cada um seguindo o caminho encontrado, e nisso nos encontraremos juntos.