Festa de Corpus Christi deve ser gesto «profundamente comunitário», afirma cardeal

Dom Eusébio Scheid explica sentido da festividade

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RIO DE JANEIRO, quinta-feira, 7 de junho de 2007 (ZENIT.org).- No dia em que a Igreja Católica celebra a festa de Corpus Christi (Corpo de Cristo), o cardeal Eusébio Scheid explica o sentido da festividade e roga para que esta procissão não seja apenas «um ato devocional a mais, dentro da externação da nossa fé. Mas um gesto profundamente comunitário».



O arcebispo do Rio de Janeiro, em artigo enviado a Zenit, explica que «ao expor o Santíssimo Sacramento, seja nos altares, seja nas procissões, a Igreja nos proporciona a oportunidade de adorá-lo e de agradecer-lhe, como o maior Dom de amor oferecido aos seres humanos».

«Isto suscita, também, em nós a ânsia de recebê-lo, como alimento que nos restaura, e bebida que sacia a nossa sede do Infinito e dos valores transcendentes, que o Espírito Santo nos inspira. Sentimos saudades de Deus.»

O cardeal Scheid ensina que na Eucaristia acontece algo «sumamente importante», que a teologia chama de “assimilação”. «Assimilare, em latim, significa “tornar parecido”». «E, na proporção em que recebemos Cristo glorioso, nós nos tornamos semelhantes a Ele, revestindo-nos desse Homem novo, a tal ponto que, na hora da morte, já estejamos a um passo de sermos glorificados».

Segundo o arcebispo, a Eucaristia também cura da auto-suficiência. «Não fomos feitos para assenhorearmo-nos de nossa orientação na vida. Aquele que nos criou, segundo sua eterna, infinita e bondosa sabedoria, infundiu em nós sua lei, para reconhecermos o bem e o mal».

De acordo com Dom Eusébio, em circunstâncias em se tem a tentação de “ser como deuses” «a Eucaristia vem nos confortar: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Isto significa que nossa capacidade de agir e de realizar depende de nossa ligação a Cristo, como ramos enxertados na cepa (cf. Jo 15,1-5)».

Seguindo essa trilha, «haurindo a seiva da videira verdadeira», ingressa-se na dinâmica da “vida nova”. «A vida nova é exatamente aquela do Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, corpo e alma humana glorificados, que nossos olhos terrenos não podem ver, pois seriam incapazes de suportar a extraordinária glória divina, como Ele se apresenta hoje, junto do Pai e do divino Espírito Santo.»

«A vida nova precisa ser sustentada, e o próprio Senhor se faz esse alimento: “Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6,35). Assim, purificamo-nos do velho pão fermentado pela malícia e pela corrupção, para sermos massa nova, pães ázimos de pureza e de verdade (cf. 1Cor 5,7-8).»

O cardeal explica ainda que também se fala da Eucaristia como nosso “viático”, cujo significado é o de “alimento dos que caminham”. «O Senhor sabe do que precisamos para chegar ao fim da jornada. Estamos na estrada, e a caminhada em procissão é um forte símbolo do passo a passo da vida, até chegarmos ao termo definitivo, que é o encontro final com Deus. Tudo isso é profundamente real e existencial. É o que devemos ter presente, quando caminhamos com Jesus eucarístico, pelas nossas ruas.»

«Peço a Jesus na Eucaristia que, ao ser conduzido em procissão, totalmente entregue aos cuidados de nossas pobres mãos humanas, derrame suas bênçãos sobre nossa cidade. Não só sobre os lugares pelos quais a nossa procissão passa, mas sobre todas as comunidades carentes que cercam nossos centros urbanos, nos morros ou na periferia, como testemunhos inequívocos do perverso processo de exclusão social a que nosso povo simples tem sido submetido», afirma Dom Eusébio.

«Que Ele abençoe, também, cada instituição, cada casa, cada família e cada um de nós, especialmente os doentes, os que sofrem situações desesperadoras, os que buscam sentido para suas vidas. Que, à vista de Jesus que passa, possam converter os corações para Ele, como tantos o fizeram, durante a vida terrena do Senhor.»

O cardeal Scheid roga ainda para que «esta procissão não tenha sido um ato devocional a mais, dentro da externação da nossa fé. Mas um gesto profundamente comunitário, envolvendo todos os fiéis católicos e os cariocas de boa vontade».

«Unidos pela presença ou, ao menos, pela oração, acolhemos Jesus que veio a nós, num gesto de profundo amor pela nossa cidade, tão querida pelos seus filhos e filhas e por todos os que nela habitam, inclusive quem recebeu a cidadania carioca honorífica».

«Demos, sempre, a Jesus a alegria do nosso sorriso de gratidão. Ofereçamos-lhe, também, o compromisso do nosso empenho por uma sociedade justa, humana e fraterna, onde os valores que Ele nos ensinou sejam respeitados e acolhidos», escreve o arcebispo.