Filipinas: bispo denuncia máfia do jogo

Forte reação de altos funcionários acusados

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Lingayen, quarta-feira, 29 de setembro de 2010 (ZENIT.org) - Membros da administração superior da província de Pangasinan, no norte das Filipinas, atacaram fortemente ao arcebispo emérito de Lingayen-Dagupan, Dom Óscar Cruz.

Trata-se de uma reação às recentes revelações do prelado em uma audiência no Senado que envolve no jogo ilegal o governador da província, informou em 24 de setembro a agência Eglises d'Asie (EDA) de Paris.

Expressando sua "indignação" num manifesto publicado no Philippine Star na quinta-feira, 23 de setembro, qualificaram as acusações do prelado como "totalmente infundadas e notavelmente tendenciosas".

"Decidimos que qualquer pessoa que quiser atentar de forma mal-intencionada  contra a credibilidade do governador e tentar desviar a atenção de seu excelente trabalho de gestão da província em matéria de progresso e desenvolvimento, deveria ser declarada uma pessoa ‘não bem-vinda' na província de Pangasinan."

A declaração, assinada por dezesseis membros do governo provincial, afirma também: "Consideramos indigna a introdução do nome do governador Amado Espino na lista dos organizadores de jueteng, realizada pelo ex-arcebispo Cruz".

Em 21 de setembro, o prelado apresentou ao Comitê Blue Ribbon do Senado - encarregado de investigar e punir as fraudes dos funcionários - uma lista de mais de trinta políticos, funcionários do Estado e oficiais de polícia que receberam subornos da máfia que controla os jogos ilegais de dinheiro.

A lista foi elaborada pela People's Crusade Against jueteng (KBLJ), um grupo do qual o arcebispo é cofundador.

O prelado já falou anteriormente diante da Câmara de representantes, indicando que se tratava da "última oportunidade" que dava ao governo, mas sua intervenção não teve efeito.

"É um exame para o novo governo de Aquino", declarou. "Se não se faz nada (...), a eleição de alguém sob a bandeira da integridade não terá sido mais que uma grande farsa".

O jueteng é uma loteria ilegal especialmente estendida em Luzon, maior ilha da parte norte do arquipélago.

Dom Cruz é conhecido por seu compromisso na luta anticorrupção e especialmente no universo dos jogos.

Em várias ocasiões tentou atacar esta poderosa máfia do jueteng, à qual acusa de arruinar os pobres e favorecer a corrupção.

Desde a chegada à presidência de Noynoy Aquino III, filho da conhecida Coração Aquino, o prelado, apoiado por outros bispos das Filipinas, não deixou de exigir do vencedor das eleições que cumpra suas promessas de erradicar a corrupção no interior da máquina do Estado.

O prelado "anticorrupção" afirmou também que alguns eclesiásticos, dos quais ao menos 8 bispos, também estão envolvidos nos benefícios do jueteng.

A lista entregue por Dom Cruz incluía cargos altos dos funcionários do Estado, dentre os quais alguns estão muito próximos do presidente Aquino, como Rico Escalona Puno, subsecretário no ministério do Interior, ou Jesus Verzosa, ex-chefe da polícia nacional.

O arcebispo é consciente do grande risco que corre. No último mês de fevereiro, uma das testemunhas que o prelado havia convencido a falar diante da comissão de investigação do Senado foi assassinada.

O ex-presidente da Conferência Episcopal das Filipinas, que hoje tem 75 anos, confirmou ter recebido ameaças de morte nos últimos dias.

Apesar de admitir que teme por sua vida, o arcebispo rejeita momentaneamente a proteção oferecida pelo Senado e pela Conferência de Superiores Maiores das Filipinas.